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Você está usando uma caneta emagrecedora e marcou uma cirurgia.
Aí começa a confusão.
Uma pessoa diz que precisa suspender o medicamento por sete dias. Outra afirma que pode continuar normalmente até a véspera. Na internet, como sempre, cada um conta uma história diferente.
Afinal, quem está certo?
A resposta, para variar, é: depende.
Nem todo paciente precisa suspender a caneta antes de uma cirurgia. Isso depende do medicamento utilizado, do tempo de tratamento, da dose, dos sintomas e do tipo de anestesia.
Não existe uma regra única que sirva para todo mundo.
Por que a caneta pode interferir na anestesia?
Medicamentos como a semaglutida, presente no Ozempic e no Wegovy, e a tirzepatida, presente no Mounjaro, retardam o esvaziamento do estômago. A comida fica mais tempo “parada” antes de seguir seu caminho natural para o intestino.
Esse é justamente um dos motivos pelos quais essas medicações ajudam no emagrecimento. O paciente fica satisfeito por mais tempo e tende a comer menos.
Até aí, tudo bem.
A questão é que, durante uma anestesia geral ou uma sedação profunda, ainda pode haver alimento no estômago mesmo que o paciente tenha cumprido o jejum habitual.
Se esse conteúdo retornar e alcançar as vias respiratórias, pode ocorrer uma broncoaspiração. É uma complicação rara, felizmente, mas potencialmente grave.
Por isso, o anestesista precisa saber que o paciente está usando uma dessas medicações. Não é um detalhe qualquer. Essa informação pode mudar o planejamento da anestesia.
Todo mundo precisa suspender?
Depende.
As recomendações brasileiras mais recentes, elaboradas pela Sociedade Brasileira de Anestesiologia, pela Sociedade Brasileira de Diabetes e pela Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica, não indicam a suspensão rotineira para pacientes que estejam em dose estável há mais de 12 semanas e não apresentem outros fatores de risco.
Durante algum tempo, prevaleceu uma orientação mais simples: suspender essas medicações antes de praticamente qualquer procedimento. Agora a avaliação leva em conta a situação de cada paciente e a estrutura disponível no hospital.
Em alguns serviços, por exemplo, o anestesista pode fazer uma ultrassonografia do estômago no próprio dia da cirurgia para verificar se ainda existe conteúdo gástrico.
Suspender a medicação também tem consequências. No paciente com diabetes, pode piorar o controle da glicose e atrapalhar a recuperação depois da cirurgia.
Quem precisa de mais cuidado?
O risco pode ser maior quando o paciente:
Nessas situações, a equipe pode recomendar a suspensão da medicação ou até o adiamento de uma cirurgia eletiva.
Então, quando é necessário parar?
Segundo as recomendações brasileiras mais recentes, quando a equipe decide pela suspensão, a referência é interromper por sete dias os medicamentos de ação prolongada, geralmente aplicados uma vez por semana, como a semaglutida e a tirzepatida.
Para os medicamentos de curta duração, normalmente utilizados todos os dias, como a liraglutida, a suspensão pode ser feita um dia antes.
Esses prazos são referências. Suspender por sete, 14 ou 21 dias não garante, sozinho, que o estômago estará vazio no momento da cirurgia.
A recomendação brasileira também orienta dieta líquida sem resíduos durante as 24 horas anteriores ao procedimento, seguida de jejum completo pelo período determinado pela equipe. Mais uma vez, o paciente deve seguir as instruções fornecidas pelo hospital onde será operado.
Nada disso deve ser decidido por conta própria. A orientação precisa partir do anestesista, em conjunto com o cirurgião e o médico que prescreveu o tratamento.
E como fazemos isso no dia a dia do consultório?
Muitos cirurgiões e anestesistas ainda recomendam interromper a medicação duas ou até três semanas antes da cirurgia.
Esse prazo de três semanas tem uma origem. Ele corresponde a aproximadamente três meias-vidas da semaglutida e apareceu em recomendações mais antigas e em discussões internacionais sobre o tema. Atualmente, porém, não existe uma regra universal de 21 dias.
No dia a dia, prefiro que o paciente acate a orientação do cirurgião e do anestesista. Afinal de contas, serão eles que estarão ali durante o procedimento, com o paciente inconsciente, tendo que manejar as muitas complicações possíveis de um ato cirúrgico.
Também existe uma diferença perceptível entre os serviços. Um grande hospital adota determinada conduta; outro hospital, igualmente respeitado, segue uma linha diferente.
Embora essa classe de medicamentos seja utilizada no Brasil há mais de dez anos, seu uso em grande escala para o tratamento da obesidade é bem mais recente. Pacientes, médicos e hospitais ainda estão se adaptando a essa nova realidade.
A própria ciência ainda não fechou completamente essa questão. E cada equipe cirúrgica acaba adotando a conduta que considera mais segura para seus pacientes.
Porque, afinal de contas, é isso que importa no final: a segurança e o bem-estar do paciente, não é mesmo?
Dr. Noé Alvarenga é médico nutrólogo (CRM 55524-5 RJ – RQE Nutrologia 33056), com atuação focada no tratamento da obesidade e sobrepeso, na nutrologia clínica e longevidade. É fundador da Clínica Nutrobarra, com unidades na Barra da Tijuca, no Shopping Downtown, e em Del Castilho, no Shopping Nova América, no Rio de Janeiro. Site: https://drnoe.com.br/
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