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Advogada Ana Claudia Consani de Moraes aparece como autora do documento de compliance da instituição liquidada pelo Banco Central, enquanto escritório da mulher do ministro embolsou mais de R$ 80 milhões em honorários
Um documento de compliance, um ministro do Supremo Tribunal Federal, um banco liquidado pelo Banco Central e um contrato milionário. Esses quatro elementos se cruzam em uma trama que ganhou novos contornos com a revelação de que a advogada Ana Claudia Consani de Moraes, cunhada do ministro Alexandre de Moraes, é a autora do Código de Ética do Banco Master — a mesma instituição que pagou R$ 80,2 milhões ao escritório da mulher do ministro por serviços prestados ao longo de 22 meses. A informação foi revelada pelo Poder360, com base nos metadados do PDF disponível no próprio site do banco.
A autoria do código de ética e os metadados reveladores
Os metadados do documento — informações técnicas embutidas em arquivos digitais que registram, entre outros dados, quem os criou — apontam Ana Claudia Consani de Moraes como autora do Código de Ética e Conduta do Banco Master, datado de 8 de abril de 2025. A advogada é casada com Leonardo de Moraes, irmão do ministro Alexandre de Moraes, e atua como consultora no escritório Barci de Moraes — fundado por Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo. O próprio escritório confirmou, em nota divulgada no dia 9 de março de 2026, que a elaboração do Código de Ética estava entre os produtos entregues ao banco de Daniel Vorcaro.
O contrato milionário: R$ 80 milhões em 22 meses
O escritório Barci de Moraes recebeu do Banco Master a quantia de R$ 80.223.654,94 por serviços prestados entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025 — um contrato de prestação de serviços com duração de 22 meses, a um custo mensal de R$ 3.646.529,77. O acordo original previa duração de 36 meses, mas os serviços foram interrompidos quando Daniel Vorcaro foi preso pela primeira vez na Operação Compliance Zero. Em nota, o escritório afirmou ter realizado 94 reuniões de trabalho com o Banco Master, somando 267 horas no total de atividades prestadas à instituição.
O perfil de Ana Claudia Consani de Moraes
Além de consultora no escritório Barci de Moraes, Ana Claudia Consani de Moraes acumula uma ficha de atuação institucional que vai muito além do Banco Master. A advogada integra comissões de integridade, ética e compliance de instituições de peso: a Petrobras, a OAB/SP, o IBDEE (Instituto Brasileiro de Direito e Ética Empresarial) e o Idasan (Instituto de Direito Administrativo Sancionador Brasileiro). Seu perfil técnico na área de compliance e ética empresarial é, portanto, reconhecido formalmente por entidades de relevância nacional — o que torna ainda mais notável que o documento por ela elaborado apresente os erros que serão descritos a seguir.
Os erros que mancham o código de ética
O Código de Ética e de Conduta do Banco Master, produzido por um escritório que cobrava quase R$ 3,7 milhões por mês, apresenta falhas que colocam em xeque a qualidade da revisão realizada. Na página 17, o trecho que trata de investimentos pessoais e conduta financeira contém uma inversão que compromete o sentido da orientação. O texto afirma que o colaborador "não deve impedir que sejam utilizadas informações inverídicas e atividades de negociação fraudulentas" — quando o correto seria exatamente o oposto: impedir o uso dessas práticas. Trata-se de um erro que passa a mensagem contrária ao combate à fraude, em um documento que deveria ser o manual de conduta ética da instituição.
O "texto do seu parágrafo" que ficou esquecido
Na página 30 do mesmo documento, há uma inscrição ainda mais reveladora do descuido na revisão: a frase "Texto do seu parágrafo" aparece solta no corpo do código — marcação típica de modelos de documentos prontos, nos quais o usuário deve substituir o texto-guia pelo conteúdo definitivo. O trecho simplesmente não foi preenchido. Em um código de ética de uma instituição financeira — elaborado por um escritório remunerado com mais de R$ 80 milhões — a presença de um placeholder esquecido no documento final é um indicativo de revisão apressada e de um processo de entrega que, no mínimo, não foi conduzido com o rigor esperado para a magnitude do contrato.
O Congresso entra em campo: convocação à CPMI
A revelação sobre a participação da cunhada de Alexandre de Moraes no documento do Banco Master chegou rapidamente ao Congresso Nacional. O deputado Kim Kataguiri (Missão-SP) publicou vídeo em seu perfil no X afirmando ter apresentado requerimento para convocar Ana Claudia Consani de Moraes à CPMI do INSS. Segundo o parlamentar, o pedido foi protocolado no dia 11 de março de 2026. Kataguiri disse ainda ter apresentado solicitação para a convocação do próprio ministro Alexandre de Moraes à comissão — escalando o nível do embate institucional entre o Legislativo e o STF em torno do caso.
O pano de fundo: o colapso do Banco Master
O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central do Brasil em novembro de 2025 — justamente o mês em que os serviços do escritório Barci de Moraes foram interrompidos. A instituição, comandada por Daniel Vorcaro, era protagonista de um modelo de captação agressiva via CDBs de alto rendimento, cujo colapso gerou perdas a investidores e acendeu o alerta das autoridades regulatórias. A Operação Compliance Zero, que resultou na prisão de Vorcaro, aprofundou as investigações sobre as práticas do banco — e trouxe à tona os contratos milionários firmados com o escritório diretamente ligado à família de um dos ministros mais poderosos do Supremo Tribunal Federal.
O caso levanta questões que vão além do aspecto jurídico e contratual. Quando o escritório da mulher de um ministro do STF recebe R$ 80 milhões de um banco que será liquidado pelo Banco Central, e quando a cunhada desse mesmo ministro assina o código de ética dessa instituição — com erros que passaram despercebidos por uma revisão de quase R$ 3,7 milhões mensais —, o que está em jogo não é apenas a competência técnica de um documento. É a credibilidade das instituições que deveriam ser as guardiãs da ética no país.
Segundo os metadados consultados pelo Poder360 em PDF disponível no site do Banco Master, a advogada aparece classificada como “autora” do documento, criado em 8 de abril de 2025.

Eis um print do trecho com a orientação errada:

O Código de Ética e de Conduta do Master tem alguns problemas de acabamento.
Eis um print do trecho com a frase solta na página:

Fontes: Poder360 / Banco Master / Escritório Barci de Moraes (nota de 9 de março de 2026) / Banco Central do Brasil / Câmara dos Deputados / Tribunal Superior Eleitoral / OAB/SP / Petrobras / IBDEE / Idasan / Agência Câmara de Notícias
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