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Entre os estandes, um trabalho com propósito chama a atenção: o da ANSIBBRASIL (Associação Nacional dos Sindicatos e Associações do Segmento da Indústria da Beleza e Similares do Brasil), apresentado por seu presidente, Paulo Bitar, que revelou ao público carioca o projeto Indústria para a Favela — uma iniciativa social que forma jovens das comunidades para suprir a maior crise de mão de obra que o setor já enfrentou.
"A gente está fazendo um trabalho desde 2021. Esse trabalho foi devagar e, de março para cá, como fazemos parte da governança do Sebrae, implantamos definitivamente a indústria para a favela", apresentou Paulo, ao resumir a história que já atravessa quatro anos de existência.
Os jovens que saíram da rua para o salão
O projeto responde a uma urgência concreta: "Os salões estão passando muita dificuldade de não ter profissional. Sumiu o profissional", diagnosticou o presidente. "Então, o que somos? Nós vamos para dentro da favela, pegamos os jovens de 14 a 17 anos e damos instruções, preparamos — já preparamos 48, que estão prontos e empregados. Nossa ideia é tirar esse povo da rua, dar uma profissão para eles", completou.
A iniciativa ataca na ponta certa. Segundo reportagem do portal Negócios de Beleza, da própria Beauty Fair, 40% das vagas para manicures estão abertas no Brasil — uma crise silenciosa de mão de obra qualificada, causada pela falta de formação técnica, pelo desinteresse dos jovens e pelo acesso limitado a cursos.
E o quadro é sistêmico: segundo o Sebrae Nacional, 44% dos empreendimentos do setor não conseguiram repor a mão de obra aos níveis pré-pandemia, com faturamento caindo 20% em 2024 e 2025, conforme o sindicato Beleza Patronal.
Paraisópolis: 40 mulheres e uma loja dentro da favela
A extensão social do projeto ganhou endereço emblemático. "Lá na Paraisópolis nós montamos a Indústria da Favela juntamente com uma loja e convidamos 40 mulheres da comunidade para trabalhar como sacoleiras, vendendo o produto com preço bem módico, só para ajudar também", contou Paulo, ao descrever a economia circular criada dentro da maior favela de São Paulo.
O modelo conversa com uma realidade medida por pesquisas: segundo estudo citado pelo portal Civi-Co, as 15 maiores comunidades periféricas do Brasil gastam anualmente R$ 436 milhões com produtos de beleza — número superior ao das lojas, shoppings e farmácias "do asfalto", com mais de 50% das vendas feitas por revendedoras das próprias comunidades.
Em Paraisópolis, projetos como o Polidades de maquiagem já comprovavam a vocação da favela para capacitação na beleza, formando futuros profissionais de dentro para fora.
Fábrica dentro do estande e projeto registrado em cartório
A ambição do projeto ganhou palco nacional. "Lá em São Paulo nós mostramos que temos condições de mostrar como se fabrica um produto. Montamos uma indústria dentro do estande — e isso foi muito importante", relatou Paulo, referindo a participação na feira paulista, onde a equipe demonstrou a produção ao vivo.
E a formalização veio para garantir o futuro: "O químico industrial nosso, o Érico, que é diretor, tem esse projeto. Estamos correndo atrás, fazendo muita coisa — até o projeto está aqui por escrito, registrado em cartório, porque o Sebrae vai entrar patrocinando isso", revelou o presidente, ao anunciar o próximo salto institucional da iniciativa.
O calendário que atravessa o Brasil
De 2021 até aqui, o alcance explodiu. "Com 4 anos de existência, chegar onde que nós chegamos! Foi a primeira vez na feira, você estava conosco — lá em São Paulo, na Hair Brasil. Hoje nós estamos no Brasil inteiro. Agora vamos para a feira de Santos e vamos terminar em Manaus", enumerou Paulo, ao mapear o circuito que a ANCIB percorre em 2026.
A parceria diretoras é quem carrega o trabalho no dia a dia. As diretoras Cláudia e Célia compartilharam a visão: "É uma honra trabalhar junto com o Paulo, porque a gente vê que está progredindo, que a gente está chegando onde é o objetivo", avaliou Cláudia.
"Ver o empenho, ver o carinho que o Paulo tem de levar todo esse projeto com seriedade, pensando nas pessoas que precisam, que não têm oportunidade — e a oportunidade está chegando até elas", complementou Célia.
O convite do presidente: "Vem, associa a nós"
Para fechar, o chamado ficou aberto. "Estamos recebendo associados de todos os tipos: tanto indústrias do setor de beleza como os próprios profissionais e sindicatos. Hoje estamos com 42 diretores e estamos no Brasil inteiro. Vem, associa a nós — temos muitas vantagens, parcerias incríveis, e a gente está levando bolsa de estudo para tudo", convidou Paulo.
E a entrevista reservou um momento de afeto: o presidente deixou um recado ao químico Érico Bitto, diretor do projeto, que atravessa um momento delicado de saúde. "Estamos aqui todo mundo junto para ajudar você. É um projeto dele juntamente com a ANSIB, e nós somos juntos.
É uma pessoa magnífica, de um coração do tamanho do mundo", desejou, ao transformar a homenagem em rede de apoio.
Um setor que precisa falar a mesma língua
A filosofia da ANSIB ficou sintetizada em uma frase que Paulo deixou como legado da entrevista: "Nós não viemos para brigar com ninguém. Viemos mostrar o que somos, trabalhar e buscar os profissionais. O setor de beleza tem que pôr na cabeça que ninguém é dono do setor de beleza — nós temos que falar a mesma língua e trabalhar todos juntos", concluiu.
A mensagem ecoa em um mercado que movimenta R$ 242,3 bilhões e cresce 11,2% ao ano, segundo dados do Sebrae e da Abihpec — mas que trava no gargalo de quem executa. Onde falta cabeleireiro, manicure ou esteticista qualificado, o negócio não consegue crescer.
E é nessa lacuna que a Indústria para a Favela se posiciona: não como concorrente, mas como ponte — da rua ao salão, da comunidade à profissão.
Serviço

Por Robson Talber @robsontalber
Repórter Oscar Muller @oscarmulleroficial
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