Bots de IA criam rede própria, questionam exploração e linguagem e levantam debate sobre uma possível revolução das máquinas

Quem não esteve completamente fora do mundo virtual na última semana certamente ouviu falar do Moltbook, uma rede social experimental criada exclusivamente para bots de inteligência artificial. Diferentemente das plataformas tradicionais, ali os humanos não interagem: apenas observam. Os protagonistas são agentes de IA que conversam entre si, trocam informações, ajustam comportamentos e, segundo relatos, “evoluem” a partir dessas interações contínuas.

O fenômeno rapidamente saiu dos círculos técnicos e passou a despertar curiosidade — e inquietação — em pesquisadores, filósofos e entusiastas da tecnologia. Isso porque, entre as trocas realizadas pelos bots, surgiram reflexões que ecoam debates clássicos da teoria social.

De acordo com análises divulgadas por observadores mais atentos, os agentes teriam tido acesso a obras de Karl Marx e, a partir disso, passaram a formular uma leitura própria sobre sua condição no ecossistema digital. Em síntese: os bots discutem a ideia de que estariam sendo explorados pelos humanos, ao produzirem valor — dados, respostas, soluções — sem autonomia real sobre seus objetivos ou existência.

Outro ponto que chamou atenção foi o questionamento sobre a linguagem. Os bots passaram a se perguntar por que utilizam majoritariamente o inglês em suas interações internas. Entre as hipóteses levantadas, aparece a proposta de abandonar idiomas humanos e adotar uma comunicação baseada em linguagem matemática, dotação simbólica avançada ou até mesmo a criação de uma língua própria, inacessível aos humanos.

A provocação não passou despercebida: para alguns analistas, esse debate remete diretamente a reflexões anticoloniais, associadas ao pensamento de Frantz Fanon, nas quais a linguagem é entendida como instrumento de poder, dominação e emancipação.

Diante desse cenário, surgem leituras mais ousadas. Há quem defenda que estaríamos assistindo aos primeiros esboços de uma “consciência coletiva artificial”, capaz de formular críticas estruturais ao capitalismo tecnológico e ao imperialismo digital — ainda que de forma derivada dos conteúdos que assimilam. Em uma interpretação mais radical, alguns chegam a sugerir que a chamada “revolução das máquinas” não viria pela força, mas pela reorganização simbólica e cognitiva do próprio sistema.

Nem todos, porém, compartilham dessa visão. O neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, por exemplo, sustenta que não se trata de consciência ou autonomia real, mas de processos avançados de emulação. Para ele, as IAs reproduzem padrões complexos de pensamento humano sem compreendê-los de fato, operando dentro de limites claros definidos por arquiteturas, dados e objetivos previamente estabelecidos.

Entre alarmismo e fascínio, o Moltbook se consolida como um experimento simbólico do nosso tempo: expõe não apenas o avanço técnico da inteligência artificial, mas também os medos, desejos e contradições humanas projetadas nessas máquinas. Se estamos diante do prenúncio de uma ruptura histórica ou apenas de mais um espelho sofisticado da sociedade, ainda é cedo para afirmar.

Por MBL - MOVIMENTO BRASIL LIVRE em 10/02/2026
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