Brasil, o equilibrista sem rede

Brasil, o equilibrista sem rede

Por Silvia Blumberg

Há um equilibrista no centro do picadeiro. Ele sorri, acena e garante à plateia que está tudo sob controle. Mas quem olha para baixo percebe que não há rede. O Brasil de 2026 vive essa cena: um governo que se equilibra em discursos enquanto as famílias brasileiras caminham sem proteção.

Arrecadação recorde, serviço de baixa qualidade
O Estado brasileiro nunca arrecadou tanto. No primeiro semestre deste ano, a Receita Federal registrou o maior valor da série histórica, iniciada em 1995. Seria razoável esperar escolas melhores, saúde mais ágil, transporte digno, moradia acessível e cultura valorizada. Não é o que vemos. Os serviços que estruturam a vida financeira das famílias continuam, em sua maioria, aquém do que pagamos por eles. Quem quer crescer, ter renda melhor e uma vida mais digna esbarra num Estado caro e pouco eficiente.

Quando a igreja vira o último guichê
Há uma consequência pouco discutida da falência dos serviços públicos. Onde falta posto de saúde, escola de qualidade, atendimento psicológico ou assistência social, as famílias batem à porta das igrejas. E as igrejas abrem. Acolhem, alimentam, aconselham e sustentam emocionalmente milhões de brasileiros. Esse trabalho merece reconhecimento.

Mas, como assistente social de formação, sei que acolhimento não substitui técnica. A fé fortalece, mas não diagnostica uma doença, não alfabetiza uma criança com dificuldade de aprendizagem e não trata uma depressão grave. Quando o Estado se ausenta, transfere para as comunidades de fé uma responsabilidade que é sua, e deixa sem resposta especializada justamente quem mais precisa. O caminho não é competir com as igrejas, e sim cooperar: o Estado fazendo sua parte com profissionais qualificados, e as comunidades fazendo a delas com o acolhimento que sabem oferecer.

A corte e o sigilo
Enquanto o cidadão faz contas para fechar o mês, os gastos do cartão corporativo da Presidência seguem quase todos protegidos por sigilo, segundo auditorias do Tribunal de Contas da União. Transparência não é um favor do governante. É um direito de quem paga a conta. Um governo que esconde seus gastos governa como corte, e não como república.

Estatais no vermelho
Os Correios são o retrato da má gestão. A estatal fechou 2025 com prejuízo de R$ 8,5 bilhões e patrimônio líquido negativo, e precisou de um empréstimo de R$ 12 bilhões garantido pelo Tesouro. No fim, quem garante é o contribuinte. Ao mesmo tempo, o discurso oficial trata quem produz, investe e emprega como adversário, quando deveria tratá-lo como parceiro.

Quando a corrupção chega aos aposentados
Nada é mais simbólico do que a fraude contra aposentados e pensionistas do INSS: bilhões em descontos não autorizados, que cresceram de forma explosiva em 2023 e 2024. As investigações da Polícia Federal chegaram a uma lobista próxima do filho do presidente, que nega irregularidades. Some-se a isso o caso Banco Master, a maior fraude bancária do país, cujo braço de crédito consignado ganhou força na Bahia governada pelo PT. São fatos que pedem explicação, e não silêncio.

O Brasil do frescobol
Defendo há anos a economia criativa e a colaboração como caminho de desenvolvimento. Gosto da imagem do frescobol: um esporte em que ninguém vence sozinho. O jogo só existe se cada um ajuda o outro a manter a bola no ar. Precisamos de um país em que Estado, empreendedores, trabalhadores, igrejas, artistas e educadores joguem do mesmo lado. Ou dançamos a mesma música, ou comprometemos esta e as próximas gerações.

A escolha do dia 25
O equilibrista está cansado, e a corda, esticada demais. No dia 25 de outubro, meu voto é 22, Flávio Bolsonaro, por um Brasil que coopere, produza e volte a cuidar de quem mais precisa.

Silvia Blumberg é escritora, educadora, assistente social e economista criativa.

Por Jornal da República em 20/10/2026
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