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Após tensão recente com os Estados Unidos, cresce no Brasil a avaliação de que o país deve se preparar para possíveis tentativas de interferência nas eleições presidenciais de 2026.
A hipótese tem sido ventilada não apenas no governo Lula, mas também por especialistas em Política e Relações Internacionais, principalmente após novas tensões ocorridas nos últimos dias.
A última dessas tensões foi a revelação de que o conselheiro sênior para assuntos do Brasil do governo dos EUA, Darren Beattie, pretendia se encontrar com o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Kassio Nunes Marques. Segundo a Reuters, Beattie foi indicado recentemente ao cargo por Trump.
Nunes Marques presidirá o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) no período das eleições de 2026 e foi indicado à Suprema Corte em 2020 pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. A revelação foi feita no dia 13 de março pela colunista da Folha de São Paulo, Mônica Bergamo.
Interferência dos EUA em eleições brasileiras é tratada como possibilidade
O professor do Departamento de Ciência Política da UFRGS e ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED), Eduardo Munhoz Svartman, disse em entrevista ao portal Sociedade Militar que, antes mesmo do início do atual governo Trump, a possibilidade de interferência em eleições já era discutida.
Segundo ele, o tema ganhou força por conta do escândalo da Cambridge Analytica em 2020 e do uso de ferramentas digitais que não respeitam fronteiras nacionais.
Na época do escândalo, mais de 50 milhões de pessoas com contas no Facebook tiveram seus dados pessoais usados indevidamente para propaganda eleitoral. A empresa também estava na mira de autoridades por proliferação deliberada de notícias falsas nas eleições dos EUA.
“As fronteiras tradicionais dos Estados nacionais não funcionam da mesma forma no ambiente digital. Então sim, é possível. E ele [Trump] faz referência a isso com certa frequência, inclusive em fala no evento do Escudo das Américas. Em vários momentos ele disse ‘ah, eu dei apoio ao presidente X e ele subiu nas pesquisas e ganhou'”, disse Svartman.
Papel das plataformas digitais entra no debate
Para o professor da UFRGS, a interferência pode ocorrer tanto por apoio público explícito de Trump quanto por mecanismos menos visíveis.
“Teoricamente o presidente dos EUA pode declarar apoio a A, B ou C. Reclamar, dizer que é bom ou ruim. Agora, a mobilização dessas capacidades, que são menos públicas, é um problema”.
As chamadas Big Techs são mencionadas nesse contexto, especialmente em meio ao atrito entre Brasil e Estados Unidos por conta da tentativa brasileira de regulamentar as redes sociais para prevenção de crimes e desinformação.
Estratégia dos EUA é citada como elemento de preocupação
O especialista afirma que documentos estratégicos norte-americanos indicam apoio a determinadas forças políticas.
“O governo não apenas falou, mas se a gente ler a Estratégia Nacional de Defesa dos EUA diz claramente que eles vão apoiar a ultradireita, não exatamente com essas palavras, mas forças políticas que se identifiquem com o American First e a verdadeira Europa. Então acho que temos que nos preparar para isso”.
Eduardo Svartman não é o único especialista consultado pelo portal Sociedade Militar que avalia essa possibilidade.
Em 7 de janeiro, o professor do Instituto de Relações Internacionais da UFRJ, Carlos Martins, disse à reportagem que Trump tentaria favorecer forças de ultradireita nas eleições de 2026.
A entrevista foi realizada logo após a ação militar dos EUA na Venezuela e a captura de Nicolás Maduro, que segue detido aguardando julgamento.
Na ocasião, Carlos Martins também fez críticas às Forças Armadas brasileiras, as quais chamou de subordinadas aos interesses dos EUA.
“O máximo que [as Forças Armadas brasileiras] aspiram é uma colaboração com os Estados Unidos, quem sabe um status de membro associado da OTAN, alguma assistência em troca de alinhamento. Não há um projeto próprio de usar nossas capacidades para criar uma base tecnológica autônoma”.
STF barra visita e decisão envolve informações do Itamaraty
A possível tentativa de intromissão dos EUA nas eleições brasileiras ganhou novos elementos quando o STF (Supremo Tribunal Federal) negou pedido do ex-presidente Jair Bolsonaro para receber a visita de Darren Beattie, conselheiro de Donald Trump para o Brasil.
Beattie havia solicitado visto para participar de um evento sobre minerais críticos em São Paulo, o que foi inicialmente aceito.
Posteriormente, a decisão foi revista. Após consulta ao Ministério das Relações Exteriores, o ministro Alexandre de Moraes constatou que Darren Beattie não havia informado visitas fora da agenda oficial, incluindo ao ministro Kassio Nunes Marques.
Ministério das Relações Exteriores menciona possível ingerência
Em ofício enviado ao STF, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que a visita de um assessor do governo dos EUA a um ex-presidente na prisão, em ano eleitoral, pode configurar indevida ingerência em assuntos internos do país.
O chanceler também destacou que o pedido de visita não estava entre os objetivos oficialmente comunicados pelo Departamento de Estado dos EUA ao Brasil.
No dia 13 de março, o presidente Lula abordou o caso sob outro viés. Ele declarou que o conselheiro de Trump não entrará no Brasil enquanto não forem liberados os vistos do ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
Padilha, sua esposa e filha tiveram os vistos cancelados durante em agosto de 2025, sob pretexto de contribuírem para um esquema de exportação de trabalho forçado do regime cubano. É assim que o secretário de Estado norte-americano Marco Rubio classificou o Mais Médicos. O programa foi criado em 2013 durante o governo Dilma Rousseff, quando Padilha era ministro da Saúde.
“Aquele cara americano que disse que vinha pra cá, para visitar Jair Bolsonaro, foi proibido de visitar. E eu o proibi de vir ao Brasil enquanto não liberar os vistos do meu ministro da Saúde, que estão bloqueados”.
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