De Itajubá ao coração do Rio: dança mineira leva histórias de resistência ao MoviRio 2026

Companhia Marcelo Bastos representa o Sul de Minas em festival carioca com coreografias que abordam escravidão, liberdade, resistência e os conflitos da vida contemporânea

De Itajubá ao coração do Rio: dança mineira leva histórias de resistência ao MoviRio 2026

A dança pode contar histórias que atravessam gerações. Pode contar de tudo um pouco. De nossa ancestralidade até a atualidade da sociedade. Pode falar de escravidão, liberdade, resistência, angústia e até das relações que se transformaram com a tecnologia. E foi assim, através do movimento e da interpretação cênica, que a Companhia de Dança Marcílio Bastos, de Itajubá, no Sul de Minas Gerais, levou ao Rio de Janeiro trabalhos que dialogam com diferentes momentos da história e com questões presentes na sociedade atual.

A companhia participou da 9ª edição do MoviRio, Festival de Dança do Rio de Janeiro, realizado entre os dias 17 e 30 de agosto, na Praça Tiradentes, no Centro do Rio. Com acesso gratuito, o festival reúne bailarinos, coreógrafos, professores, estudantes e companhias de diferentes regiões do país.

Para o coreógrafo da companhia, a participação representa uma conquista importante. Estar entre os grupos escolhidos já tem um significado especial. “É uma emoção muito grande porque a seleção é muito rigorosa”, afirmou Marcílio, ao falar sobre a participação da companhia de Itajubá no evento.

Histórias de opressão e liberdade no palco

A edição de 2026 do MoviRio tem como tema “Cartografias do Corpo Brasileiro”, proposta que convida artistas e companhias a explorar o corpo como território de histórias, identidades, resistências e possibilidades.

A temática encontra espaço nos trabalhos apresentados pela companhia mineira. Uma das coreografias, “Tributo Armildo Nascimento”, aborda a escravidão e o processo de libertação. “Eu comecei com o tecido da opressão branca sobre o reino, a escravidão. De repente vem a libertação, que é a retirada do tecido, que é o branco, e vem a libertação”, explicou o coreógrafo. 

A imagem do tecido funciona como elemento central da narrativa. Primeiro, ele representa a opressão. Depois, sua retirada simboliza a liberdade conquistada.
 
O repertório da companhia também incluiu uma homenagem a Steve Biko, ativista negro sul africano que se tornou um dos símbolos da luta contra o apartheid. A trajetória do ativista inspirou a música “Biko”, de Peter Gabriel, e também ganhou uma interpretação no palco.

Quando a dança olha para o presente

Se algumas coreografias revisitam acontecimentos históricos, outra olha diretamente para os sentimentos e comportamentos do mundo contemporâneo. Em “Lamento”, ao som de uma composição do bandoneonista e compositor argentino Astor Piazzolla, a companhia aborda temas como angústia, depressão, isolamento e egocentrismo.

“‘Lamento’ é a música do Astor Piazzolla que mostra hoje a nossa realidade. Angústia, depressão, isolamento, egocentrismo, essa coisa de celular que afastou todo mundo”, contou o coreógrafo.

A proposta é transformar em movimento uma sensação cada vez mais presente na vida cotidiana. Em uma época marcada pela conexão permanente por meio das telas, a coreografia questiona justamente o distanciamento entre as pessoas. “E a gente mostra a tristeza que está pairando no ar”, resumiu.

Itajubá representada no Rio

Levar o trabalho produzido em Itajubá para um festival realizado no coração do Rio de Janeiro também representa uma oportunidade de mostrar a produção artística do Sul de Minas para um público diferente.

Para Marcílio, a emoção de estar no festival vai além da expectativa por uma possível premiação. “É muito importante. Só da gente estar aqui, de apresentar o nosso trabalho, sempre com a intenção de premiação, sempre que for premiado, maravilhoso. Mas só de estar aqui já é uma experiência”, afirmou o coreógrafo.

A companhia chegou ao MoviRio carregando consigo não apenas suas coreografias, mas também a identidade da cidade que representa. Em um festival que reúne artistas de diferentes partes do Brasil, a presença de Itajubá ajuda a ampliar esse mapa da dança brasileira.

Um festival que ocupa a cidade

Criado em 2018 pelo diretor artístico Carlos Fontinelle, o MoviRio nasceu no Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes, e ao longo de sua trajetória passou por diferentes espaços importantes do Rio de Janeiro, como Teatro Carlos Gomes, Parque Lage, Casa França Brasil, CCBB e EXPOMAG.

A edição de 2026 retorna à região onde o festival começou e mantém a proposta de aproximar a dança do público, com programação gratuita e participação de artistas de diferentes regiões.

Para a Companhia de Dança Marcelo Bastos, estar ali significa também representar sua origem. O coreógrafo fez questão de destacar a companhia e a cidade de onde veio ao falar sobre a experiência no festival. “Eu agradeço muito à minha companhia de dança. Antes de qualquer um, agradeço a Deus”, disse.

Entre movimentos que revisitam a escravidão, homenageiam figuras da resistência negra e refletem sobre a solidão contemporânea, a companhia de Itajubá encontrou no MoviRio um espaço para apresentar diferentes histórias por meio do corpo.

É a dança transformando memória, identidade e questões sociais em linguagem artística e levando para o palco carioca um pouco do que é produzido no interior de Minas Gerais.

Por Notícias do Rio em 04/09/2026
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