DOSSIÊ — Qual Brasil foi às urnas? Anatomia do primeiro turno de 2026

DOSSIÊ — Qual Brasil foi às urnas? Anatomia do primeiro turno de 2026

Com base nos dados do documentário que analisou 60 GB de arquivos do TSE, cruzando o resultado município por município, local de votação por local de votação, com pesquisas Datafolha, Quaest, AtlasIntel, IBGE, Banco Central e o censo demográfico.

## 1. O placar nacional e o que ele esconde

O primeiro turno de 2026 terminou com **Flávio Bolsonaro à frente de Lula por 2.224.965 votos** — 56,1 milhões contra 53,9 milhões. Os números comparados com 2022 dão a escala do fenômeno:

- **Lula perdeu quase 3,4 milhões de votos** em relação ao primeiro turno de 2022 — o equivalente a praticamente toda a população do Uruguai.
- **Flávio teve 5 milhões de votos a mais** do que o pai recebeu em 2022 — o equivalente a quase toda a população da Costa Rica.
- Os **45% de Lula foram o menor percentual dele em um primeiro turno neste século** — abaixo até de 2018, quando concorria por intermédio de outro candidato em contexto de prisão.

A pergunta central do dossiê é: por que isso aconteceu, onde aconteceu e de quem eram esses votos?

## 2. A geografia da mudança: 711 municípios que trocaram de lado

O método: dois mapas com a mesma régua. Um mostra quanto Lula ganhou ou perdeu de 2022 para 2026, município a município. O outro mostra quanto Flávio teve a mais ou a menos que o pai. Se a eleição tivesse sido apenas uma troca — voto saindo de Lula e indo direto para Flávio —, um mapa seria o espelho do outro. Não é o que os dados mostram: os dois movimentos aconteceram em geografias diferentes.

Os achados centrais:

- **711 municípios** deram vitória a Lula em 2022 e a Flávio em 2026 — mais que o dobro do total de municípios de Portugal. No sentido contrário, **nenhum**: não existe um único município que deu vitória a Jair Bolsonaro em 2022 e a Lula neste ano.
- Dos 711 que trocaram, **só 15 estão no Nordeste** — apesar de o Nordeste ser a única região onde Lula venceu.

### O mapa que engana

O mapa de vencedores exibido na noite da apuração esconde a dimensão da mudança. Se Lula tinha 70% numa cidade e caiu para 55%, o município continua da cor dele — e ele perdeu 15 pontos. Pintando o mesmo Brasil pelo tamanho da queda, vastas áreas do interior do Nordeste escurecem dentro da própria cor de Lula.

O levantamento escola por escola quantifica isso com precisão. Dividindo os locais de votação em dois grupos:

- **3.157 locais que trocaram de cor** (Lula em 2022, Flávio em 2026): a vantagem de Lula somando todos eles encolheu **769.000 votos**.
- **4.394 locais que continuaram com Lula**, mas onde a vantagem caiu 10 pontos ou mais: encolheu **979.000 votos**.

Ou seja: **só nas escolas que permaneceram com Lula, a vantagem dele encolheu mais do que em todas as escolas que viraram para Flávio.** Ficar em primeiro lugar nem sempre traduz a realidade.

## 3. Região por região: quatro eleições dentro de uma

**Nordeste** — Única região vencida por Lula, e paradoxalmente onde Flávio mais cresceu em relação ao pai: **1,6 milhão de votos a mais**, um terço de toda a sua expansão nacional. O saldo de Lula na região foi negativo: perdeu 507 mil votos num lado, ganhou 249 mil no outro, fechando 259 mil a menos. O crescimento de Flávio veio de fora das capitais: nas nove capitais somadas, a margem de Lula caiu 3 pontos; no interior, 8. Recife (+2,1 pontos para Lula) e Aracaju (+1,3) andaram para o lado do petista; Salvador (-4,7) para o outro. De modo geral, quanto mais longe da capital, maior a queda.

**Norte** — A diferença entre os mapas é a maior do país: Lula teve praticamente os mesmos votos de 2022 (variação de apenas 4 mil), mas Flávio somou **613 mil votos a mais** que o pai. Belém, que já dava vantagem a Lula, ampliou: de 46% para 48%.

**Sul** — Aqui os dois mapas se sobrepõem: Lula perdeu 973 mil votos e Flávio ganhou 951 mil sobre o pai. Foi a região de maior queda da margem de Lula, 11 pontos (13 no Rio Grande do Sul) — mas é território que a família Bolsonaro já dominava: Jair teve 55% da região em 2022; Flávio foi a 60%.

**Centro-Oeste** — Goiás registrou a maior queda percentual de Lula do país: de 39,5% para 31,1%. No sudoeste goiano, Rio Verde deu 64% a Flávio. No Mato Grosso, no miolo da soja (Sorriso, Sinop, Lucas do Rio Verde, Nova Mutum, Primavera do Leste), o PT perde o primeiro turno desde 2006 — a única exceção foi Sorriso em 2010 —, e ainda assim a margem de Lula caiu de 8 a 11 pontos.

**Sudeste** — O caso crítico é São Paulo. Só no estado, Flávio terminou com **mais de 3,4 milhões de votos à frente de Lula — mais do que toda a sua vantagem nacional**. Sem o estado de São Paulo, Lula teria vencido o primeiro turno por quase 1,2 milhão. Na capital paulista, a margem de Lula caiu 5 pontos e 366 mil votos — a maior perda em votos absolutos de qualquer município do país, pela simples razão de ser o maior eleitorado.

**Minas** — A superstição estatística se manteve: desde 1989, o candidato mais votado no primeiro turno mineiro sempre foi o mais votado no país — e Flávio venceu no estado. O percentual de Lula caiu **nos 853 municípios mineiros, sem exceção**. Flávio teve 538 mil votos a mais que o pai (quase o eleitorado de Uberlândia) e terminou quase 600 mil à frente de Lula — um quarto da vantagem nacional dele. Exceção local: Juiz de Fora, governada pelo PT desde 2021, foi a única das 10 maiores cidades mineiras em que Lula terminou na frente.

**Rio de Janeiro** — A terra dos Bolsonaro manteve o desenho de 2022: as 49 zonas eleitorais da capital repetiram o vencedor, 33 para Flávio e 16 para Lula. O petista venceu na zona sul, no centro, na grande Tijuca e em parte da zona norte próxima do centro; Flávio venceu em quase todo o resto. No placar da cidade, 47,9% a 43,9%. Curiosamente, no estado do Rio Flávio teve 1,9 ponto a mais que o pai — **menos que os 4 pontos do resto do Brasil e menos de 1 ponto na capital**, onde a margem de Lula variou menos de meio ponto. Mas a cidade andou em dois sentidos ao mesmo tempo: Lula subiu na zona sul (no Fluminense, das Laranjeiras, foi de 55% em 2022 para 61%) e caiu na periferia — em Rio das Pedras, favela de 55 mil moradores na Jacarepaguá, recuou de 59% para 52%. A abstenção na cidade subiu de 24% para 26%.

## 4. Cidade pequena, perda grande: o fator tamanho

A tabela por porte de município é uma das descobertas mais sólidas do levantamento:

- Nas **12 cidades com mais de 1 milhão de eleitores**, a margem de Lula encolheu 2,8 pontos.
- Nas **2.938 cidades com menos de 10 mil eleitores**, a queda foi de 12,5 pontos — **4,5 vezes maior**.

Os municípios com menos de 50 mil eleitores têm **38% do eleitorado do país e foram responsáveis por 58% dos votos que Flávio teve a mais que o pai**. É nas cidades pequenas que está o grosso do crescimento de Flávio — e nelas a queda foi generalizada, independentemente da renda (ver a seguir).

## 5. Renda e escolaridade: o que revela o entorno das escolas

O voto é secreto, mas é possível cruzar o resultado de cada local de votação com a renda média das residências num raio de 1 km da escola, segundo o censo. Dividindo os locais de votação de cada estado em cinco grupos de mesmo número de eleitores, do entorno mais pobre ao mais rico:

**Nas cidades grandes, a renda faz diferença:**
- Entorno mais pobre: queda de 7,4 pontos na margem de Lula
- Depois 4,7, 3,8, 2,6... até 0,5 ponto no entorno mais rico
- Quanto mais pobre o bairro, mais Lula perdeu

**Nas cidades pequenas, a renda quase não importa:**
- Entorno mais pobre: queda de 12,5 pontos
- Entorno mais rico: queda de 14,8 pontos
- Lula perdeu muito no bairro pobre e no bairro rico — e a cidade pequena perdeu mais que a grande em qualquer faixa de renda

No agregado nacional, o entorno mais rico de cada estado caiu 3 pontos na margem de Lula; o mais pobre, 9. Mesmo assim, Lula continuou atrás nos lugares mais ricos: 41% a 50%.

### O fator diploma

Cruzando cada escola de votação de São Paulo (1.561 locais) com a proporção de eleitores com diploma universitário, o padrão é nítido: **quanto mais gente com diploma no local, menos Lula perdeu**. O colégio Rio Branco, em Higienópolis, tem 48% de diplomados entre seus eleitores — e a vantagem de Lula subiu. Em Cidade Tiradentes, no extremo leste, menos de 4% têm diploma — e a vantagem caiu 5 pontos (nas zonas de Cidade Tiradentes e Itaim Paulista, mais de 7). Em Pinheiros, chegou a subir um pouco.

A mesma regra vale no país inteiro: comparando duas escolas parecidas em tudo — mesma renda, mesmo tamanho de cidade, mesmo estado —, se uma delas tem 10 pontos percentuais a mais de eleitores com diploma, a vantagem de Lula nela caiu em média 1 ponto a menos.

E o recorte de idade completa o quadro: **Lula perdeu mais onde há mais gente entre 25 e 59 anos** — a idade de quem trabalha ou procura trabalho. Já os bairros ricos concentram diplomados (1 em cada 4 eleitores, contra menos de 1 em 20 nos bairros pobres — quase sete vezes mais) e idosos (28% com 60 anos ou mais, contra 21%). O bairro rico é, em média, um bairro mais formado e mais velho — e são exatamente os lugares onde Lula perdeu menos.

As exceções que confirmam a regra: o **Distrito Federal** foi a única unidade da federação onde a margem de Lula subiu (+1,6 ponto); Belém ampliou a vantagem (46% para 48%); e Juiz de Fora resistiu em Minas.

## 6. O histórico 2006–2026: duas escolas, duas nações

A escola estadual **Nova Contagem 1**, na Grande BH (bairro nascido nos anos 70/80 para reassentar famílias pobres, junto a um presídio de segurança máxima, com esgoto só a partir de 2005 e loteamento aprovado só em 2010; 17 seções, 6.600 eleitores), registra a trajetória do voto periférico ao longo de 20 anos:

| Ano | Candidato do PT | Votação do PT |
|---|---|---|
| 2006 | Lula | 78% |
| 2010 | Dilma | 64% |
| 2014 | Dilma | 56% |
| 2018 | Haddad | 30% |
| 2022 | Lula | 51% |
| 2026 | Lula | 45% |

Em 2026, **Flávio passou à frente de Lula nessa escola por 32 votos**. A linha sobe, despenca em 2018, recupera em 2022 e cai de novo.

A 500 km dali, o **colégio Rio Branco**, na Avenida Higienópolis, em São Paulo, faz o caminho oposto: em 2006, Lula teve apenas 12% contra 81% de Geraldo Alckmin; até 2018 o PT nunca passou de um terço dos votos da escola (11% para Haddad em 2018); em 2022, Lula venceu os dois turnos com 44%; e neste ano o percentual subiu de novo.

Uma escola saiu de quase 80% e terminou atrás. A outra saiu de 12% e terminou na frente. Essas duas linhas são a síntese da eleição: **Lula perdeu parte do eleitorado que o fez presidente em 2006 e ficou com os bairros formados que o rejeitavam em 2006 e se aproximaram em 2022.**

O lugar onde a primeira ruptura aconteceu foi a Baixada Fluminense, entre 2014 e 2018: em Belford Roxo, Lula fez 66% em 2006, Dilma 54% em 2014 — e Haddad despencou para 20% em 2018, uma perda de 34 pontos em uma única eleição. Em Xerém, distrito de Duque de Caxias, o CIEP 338 mostra o mesmo tom: 41% em 2014, 10% em 2018. Entre 2011 e 2018, Caxias perdeu um quarto dos empregos formais; os evangélicos saltaram de 27% da população (censo de 2000) para 40% (censo de 2022). Em 2022 Lula recuperou parte (39%); neste ano, 36%.

O mesmo roteiro nas seis cidades industriais mineiras — Contagem e Betim (região de BH) e as quatro do Vale do Aço: em 2006, Lula teve de 57% a 68%; daí até 2018 a vantagem do PT caiu em todas as eleições; em Ipatinga, cidade da Usiminas, o PT tinha 23 pontos de vantagem em 2006 e ficou 51 pontos atrás em 2018. Em Betim, sede da fábrica da Fiat, o emprego formal caiu de 135 mil para 111 mil entre 2014 e 2017. No Vale do Aço, o PT venceu as quatro cidades na eleição municipal de 2012 e perdeu as quatro em 2016 — dois anos antes de Bolsonaro chegar ao Planalto.

A volta de 2022: no ABC paulista, o PT saiu de 404 mil votos atrás (2018) para 121 mil à frente em 2022 — mais que em 2006. Nas seis cidades industriais mineiras, a margem melhorou de 22 a 33 pontos. **A volta durou uma eleição.** Neste ano, a margem voltou a cair — menos que em Minas como um todo, mas o bastante para virar Betim: Lula havia vencido em 2022 por 807 votos; agora, Flávio fez 48,7% contra 41,2%. Cenário circunstancial relevante: em 2024 o governo Lula subiu para 25% o imposto de importação de parte do aço; em maio deste ano o presidente da Usiminas chamou as medidas de corretas; e em 1º de outubro — três dias antes da eleição — a empresa anunciou obra de R$ 1,7 bilhão em Ipatinga, onde Flávio fez 61%. A Stellantis, dona da Fiat, por sua vez, produziu 525 mil veículos em Betim em 2025, 12% a mais que no ano anterior.

Há ainda 5.754 locais de votação, com 12 milhões de eleitores, onde a margem de Lula neste ano ficou abaixo até da de Haddad em 2018 — quatro em cada 10 deles no Nordeste.

## 7. Quem é o eleitor de Flávio: a base que passou do bolsonarismo

A pesquisa Quaest de 2 e 3 de outubro divide as intenções de voto pela autodeclaração ideológica:

**Base de Flávio:**
- Direita **não bolsonarista**: 45% (a maior parcela)
- Bolsonaristas: 30%
- Independentes: 24%

**Base de Lula:**
- Lulistas: 46%
- Esquerda não lulista: 30%
- Independentes: 21%

Em ambos os casos, o núcleo ideológico (bolsonarista de um lado, lulista do outro) é **menos da metade da base**. E o dado mais revelador: entre quem se define como de direita mas não bolsonarista, **91% diziam ter mais medo de um novo governo Lula do que da volta da família Bolsonaro**. No eleitorado inteiro, o medo está quase empatado: 43% temem mais um novo governo Lula; 40%, a volta da família Bolsonaro.

Os recortes do Datafolha na véspera completam o retrato:

- **Renda até 2 salários mínimos** (48% do eleitorado): Lula 50%, Flávio 32%. Lula segue à frente, mas a vantagem caiu de 26 pontos (2006) e 31 pontos (2022) para 18. (Nota metodológica importante: o salário mínimo subiu bem acima da inflação — dois mínimos de 2006 valem cerca de R$ 2.000 em dinheiro de hoje, contra R$ 3.240 dos de 2026 —, então a faixa de baixo de hoje inclui gente que em 2006 estaria na de cima.)
- **Renda de 2 a 5 salários** (a faixa em que Flávio liderava por 47 a 35): em 2006, Lula ganhava por 4 pontos; em 2022, empate técnico (40 a 41); em 2026, **Flávio 12 pontos à frente**.
- **PEA** (quem trabalha ou procura trabalho): Lula tinha 10 pontos de vantagem em 2006 e 11 em 2022; **agora está 3 pontos atrás de Flávio**. Já entre quem está fora da PEA (aposentados, estudantes, cuidados domésticos), a vantagem de 19 pontos se manteve.
- **Escolaridade**: entre quem só tem o ensino fundamental, a vantagem de Lula segue perto de 30 pontos. Quem mudou foi o **ensino médio**: Lula tinha 5 pontos de vantagem em 2006 e agora está 7 atrás. Entre os diplomados, o contrário: Lula perdia por 17 pontos em 2006 e agora perde por 7 — a aproximação dos formados.
- **Bolsa Família**: entre quem recebe ou mora com quem recebe, Lula 56% contra 26% de Flávio — mais que o dobro.
- **Pobreza extrema**: nos locais de votação cercados por casas com renda média de até um salário mínimo, Lula teve **75%** — três de cada quatro votos.

## 8. O caderno do PT de 2016: o partido sabia quem era esse eleitor

Entre novembro de 2016 e janeiro de 2017, pesquisadores da **Fundação Perseu Abramo** — fundação mantida pelo próprio PT — foram às periferias de São Paulo atrás de um eleitor específico: quem votou no partido de 2000 a 2012, mas abandonou Dilma em 2014 e Haddad em 2016, com renda familiar de até cinco salários mínimos. Foram 63 entrevistas longas e cinco grupos de conversa (três deles só com evangélicos neopentecostais), com o objetivo declarado de "ajudar a atualizar o projeto político do PT". O resultado saiu em março de 2017.

O que o relatório registrou:

- **O desejo central**: "ter um lugar no mundo" — ser reconhecido, mostrar capacidade, não ser tratado como massa, odiar ser chamado de pobre.
- **O sonho do negócio próprio**: "Muitos desejam ser empreendedores" — para não ter mais patrão, fazer o próprio horário, trabalhar perto de casa, deixar herança. Mas o negócio próprio "ainda era uma realidade distante: faltava dinheiro para começar". Nas palavras de uma entrevistada: *"Eu queria um negócio de vender batata frita, a casa da batata frita... não trabalhar pros outros, mas para mim mesma."*
- **A visão do Estado**: impostos altos e burocracia como obstáculos a quem quer abrir negócio. "Público" lembrava menos o que pertence a todos e mais o que é gratuito e de má qualidade. A maioria almejava escola particular para os filhos — *"porque você tá pagando, você pode exigir; em escola pública você vai exigir de quem?"* — ao mesmo tempo em que via saúde e educação como papel do Estado.
- **A conclusão mais citada**: *"No imaginário da população, não há luta de classes. O inimigo é, em grande medida, o próprio Estado ineficaz e incompetente."* Para esse eleitor, a briga não era patrão contra empregado, nem ricos contra pobres — era contra o Estado que cobra imposto e não devolve serviço.
- **Família e igreja**: "A família é alicerce para você ser alguém na vida." Sem praças nem lazer gratuito, os pontos de encontro viraram o shopping e a igreja — "a verdadeira família", que dá comunidade, orientação moral e "selo de honestidade" num bairro violento. Sem que ninguém seguisse o pastor de olhos fechados: trocava-se de igreja sem constrangimento e desconfiava-se de dízimo descarado.

Márcio Pochmann, então presidente da fundação, disse que o partido teria de se aproximar fisicamente desses eleitores. Em julho de 2017, o diretório nacional criou o projeto **"Reconexão Periferias"**. O que aconteceu com ele é parte da explicação de 2026:

- O projeto mapeou cerca de **mil organizações** periféricas — coletivos, ONGs, associações, movimentos sociais. **Não havia categoria para igreja, nem para associação de comerciantes ou de empreendedores.**
- Em 2020, a fundação financiou 28 organizações com até R$ 5.000 cada. **Nenhuma era de igreja evangélica ou paróquia católica.** Na economia, falava-se de cooperativa, economia solidária, ecossocialismo. "Religião, nada. Ninguém se importou com algo central na vida de quem está na periferia."
- A cobrança veio do palanque: dias antes do segundo turno de 2018, nos Arcos da Lapa, **Mano Brown** tomou o microfone no ato de Haddad: *"Falar bem do PT pra torcida do PT é fácil. Tem uma multidão que não tá aqui, que precisa ser conquistada. Deixou de entender o povão, já era. Se nós somos o partido dos trabalhadores, tem que entender o que o povo quer. Se não sabe, volta pra base e vai procurar saber."* No dia seguinte, Haddad disse que o PT precisava se reconectar com a periferia. Em setembro deste ano, Brown voltou ao assunto: **"Manter o poder custou a base."**
- O caso dos aplicativos ilustra a desconexão: em março de 2024, o governo mandou ao Congresso um projeto que tratava o motorista de aplicativo como "trabalhador autônomo por plataforma", sem carteira, com mínimo de R$ 32 por hora de corrida. Houve protestos de motoristas em Brasília e várias capitais; o ministro do Trabalho chamou a reação de "gritaria"; o governo tirou a urgência em abril, e o projeto está parado na Câmara há mais de dois anos. Lula, que já disse que o entregador não era empreendedor, passou a dizer que uma parte da sociedade não quer carteira assinada.

## 9. Trabalho e autonomia: o mundo que o plano de Flávio traduziu

Os dados do trabalho explicam por que o discurso da autonomia ressoa:

- O Brasil tem **39,5 milhões de pessoas com carteira assinada no setor privado** (maior número da série do IBGE) e **26 milhões de conta própria**.
- No **Sudeste**, o conta própria saltou de 7,6 milhões (2014) para 11,7 milhões (2026) — mais 4 milhões em 12 anos — enquanto a carteira privada ficou estacionada (19,8 milhões para 19,7 milhões).
- No **Nordeste**, o conta própria não cresceu (6,4 milhões para 6,3 milhões), e **quase 9 em cada 10 trabalhadores por conta própria da região não têm CNPJ**.
- **1,8 milhão de brasileiros** têm o aplicativo como trabalho principal (praticamente a população de Curitiba): ganham em média 12% menos por hora que os demais trabalhadores, trabalham 5 horas a mais por semana e só 1 em cada 3 contribui para a previdência.
- Pesquisa Data Favela (4.471 moradores de favela): **ter negócio próprio é o sonho profissional de 38%** — contra 16% concurso e 6% emprego; só 8% já têm negócio.
- Pesquisa Datafolha: 59% preferem trabalhar por conta própria a ser empregados — e, ao mesmo tempo, 67% preferem carteira assinada mesmo ganhando menos. As duas coisas ao mesmo tempo.
- Pesquisa Instituto Locomotivo (1.500 pequenos empreendedores e autônomos da classe C, renda de R$ 600 a R$ 2.100 por pessoa): 73% se disseram **autônomos**, 26% empreendedores e 1% empresários. Na mesma pesquisa, **54% disseram que o governo atual mais atrapalha do que ajuda quem empreende** (só 14% disseram que ajuda) e **61% concordaram que "o governo tem iniciativas para os muito ricos ou para os muito pobres, mas não para empreendedores como eles"**.
- Na série histórica do Datafolha sobre dependência do Estado ("quanto menos eu depender do governo, melhor" vs. "quanto mais benefícios, melhor"), o Brasil saiu de um empate de 47 a 47 em 2013 para **65 a 31** em junho de 2026 — com 55% entre quem ganha até 2 mínimos e **76% entre quem ganha de 2 a 5**, exatamente a faixa em que Flávio liderava.

O plano de governo de Flávio registrado no TSE dialoga ponto a ponto com esse perfil: família e liberdade religiosa entre os valores declarados (página 9); na segurança, PCC, Comando Vermelho e milícias tratados como organizações "narcoterroristas", maioridade penal aos 16 anos e meio milhão de vagas prisionais em 4 anos; no trabalho, a lembrança de que "para quem é autônomo, a fila é a diária que não entrou"; o "revogaço" regulatório para abrir e tocar um negócio "sem labirinto"; revisão da reforma tributária e redução do IVA; contrato mais barato para jovens de 18 a 24 anos no primeiro emprego; e a defesa do **negociado sobre o legislado**.

## 10. O bolso: renda que subiu, dívida e comida que pesaram mais

O paradoxo econômico do turno:

**A renda subiu** — a renda média por pessoa chegou a **R$ 2.264 mensais em 2025**, a maior da série iniciada em 2012, e quem mais ganhou foram os de baixo: a renda dos 10% mais pobres subiu **43% em termos reais** entre 2022 e 2025.

**Mas a dívida explodiu** — em agosto, **84 milhões de brasileiros** estavam com o nome sujo na Serasa (contra 68 milhões quatro anos antes — mais gente que a população de São Paulo e Minas somadas). Nas capitais, quase 4 em cada 10 famílias que ganham até 3 salários mínimos tinham conta atrasada (CNC). Pelo Banco Central, de cada R$ 100 de renda, as famílias comprometiam quase R$ 29 com dívidas — **maior nível desde 2005**.

**E a comida subiu** — em 12 meses, o café chegou a subir 82% (maio de 2025), a carne 24% (junho) e o ovo 20% (março). A aprovação de Lula sentiu: entre quem ganha até 2 mínimos, caiu de 63% para 52% entre dezembro de 2024 e março de 2025 (Quaest); entre quem ganha de 2 a 5, de 48% para 36%. No mesmo período, a fatia que dizia que comida tinha subido no último mês foi de 78% para 88%. Em setembro, 64% achavam que a renda não acompanhou o custo de vida — só 10% achavam que cresceu mais.

**E a taxa das blusinhas** — imposto de 20% sobre compras de até US$ 50 em sites estrangeiros, aprovado por emenda da Câmara com aval de Lula, que a considerava equivocada mas a sancionou. Em março, segundo a AtlasIntel, **62% diziam que a taxa tinha sido um erro do governo — a pior avaliação entre 14 medidas testadas**. O governo zerou a cobrança em maio — gerando protesto inverso: em Santa Cruz do Capibaribe (PE), polo de confecção do Agreste onde 4 em cada 10 trabalham por conta própria, entidades se reuniram contra o fim da cobrança. A cidade foi a única de Pernambuco em que Flávio ficou na frente.

## 11. O campo e a economia local: fumo, eucalipto e minério

Além da soja do Matopiba (onde Balsas — área plantada dobrada em 20 anos, PT vencedor em todos os primeiros turnos desde 2002, até com Haddad — virou: Lula de 52% para 38%, Flávio 55%; queda de 25 pontos contra os 11 esperados para cidades de mesmo porte e renda), outros recortes setoriais aparecem:

- **Fumo**: nos 79 municípios do Sul onde o fumo valia pelo menos metade do que se colhia, a margem de Lula caiu **18 pontos** — venceu em 20 deles em 2022 e em apenas 1 em 2026. O fumo vinha de ano ruim: preço do quilo caiu 11% na safra anterior à eleição e a receita das famílias, 12% (Associação de Fumicultores). A comparação entre vizinhos gaúchos de renda parecida é brutal: em Butiá (urbana, carvão), a margem de Lula caiu 14 pontos e ele seguiu na frente; em Dom Feliciano (rural, fumo = 81% da colheita), caiu **36 pontos** — de 54% para 35%.
- **Eucalipto**: no Vale do Jequitinhonha (MG), nas quatro cidades que concentram mais da metade do eucalipto da região (matéria-prima do carvão vegetal das siderúrgicas; uma delas, a Aperam, alvo de inquérito do MPF em agosto sobre expansão de plantações), a margem de Lula caiu de 22 a 24 pontos. E quanto mais eucalipto no território, maior a queda: 20 pontos nos seis municípios com mais de 10% do território coberto.
- **Mineração**: perto de BH, Santa Bárbara (mina de ouro parada em 2023, 650 demitidos) ficou com Lula, 53%. Já São Gonçalo do Rio Abaixo, sede da mina de Brucutu — cuja mineração respondeu por 45% da receita municipal em 2022, seis vezes mais por habitante que Santa Bárbara —, viu a margem de Lula cair 22 pontos, com vitória de Flávio.

Em Minas como um todo, vale o registro: quanto mais a agropecuária pesa na economia municipal, mais a margem de Lula caiu.

## 12. Conclusão: a matemática implacável

Reunindo todos os fios, o primeiro turno de 2026 foi **três eleições simultâneas**:

1. **No Nordeste e no Norte**, Lula segurou praticamente os votos de 2022 — e quem cresceu foi Flávio, com 2,2 milhões de votos a mais que o pai nessas duas regiões, ampliando sobre uma base que nunca foi dele.
2. **No Sul, no Sudeste e na soja**, os dois mapas se sobrepõem: Lula perdeu e Flávio ganhou na mesma medida, consolidando territórios que a família já dominava.
3. **Nas cidades pequenas do país inteiro** — que têm 38% do eleitorado e deram 58% do crescimento de Flávio —, a mudança foi muito maior que nas grandes. E em milhares de locais que mantiveram a cor de Lula, a vantagem encolheu silenciosamente: mais do que nos que trocaram de lado.

O perfil do eleitor que se movimentou: **de direita não bolsonarista (45% da base de Flávio), em idade de trabalhar (25–59 anos), escolaridade média, renda de 2 a 5 salários mínimos, morador de cidade pequena ou periferia** — alguém que quer ser autônomo, desconfia do Estado que cobra e não devolve, tem na igreja e na família suas instituições centrais, e temeu mais um governo Lula (91% nesse grupo) do que a volta da família Bolsonaro.

E o PT sabia. Em 2016, a fundação do próprio partido foi ouvir esse eleitor e escreveu exatamente o que ele queria: ser alguém, ter o próprio negócio, pôr o filho na escola particular, ter uma igreja que desse comunidade e ordem — e apontou que, para ele, o inimigo era o Estado ineficaz, não o patrão. O projeto criado para responder a esse diagnóstico procurou coletivos, ONGs e movimentos, e a igreja não entrou nem como categoria. O projeto de lei dos motoristas de aplicativo parou no Congresso. "Manter o poder custou a base", resumiu Mano Brown em setembro deste ano.

Lula ficou com os bairros de gente formada que votavam contra ele em 2006 e se aproximaram em 2022. Perdeu parte do eleitorado que o fez presidente em 2006 — as periferias industriais que voltaram para ele em 2022 e se afastaram de novo — e quem está em idade de trabalhar e estudou até o ensino médio. Flávio cresceu sobre essa perda e foi além dela, com uma base que passou do bolsonarismo.

**Vinte anos atrás, quase oito de cada dez eleitores da escola Nova Contagem 1 votavam no PT. Neste ano, Flávio passou à frente por 32 votos. A matemática é implacável.**

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*Fontes dos dados: arquivos públicos do TSE (resultados por seção eleitoral 2006–2026), pesquisas Datafolha, Quaest, AtlasIntel, Data Favela e Instituto Locomotivo citadas no documentário, IBGE (censo 2022, Pnad, contas nacionais), Banco Central, Serasa e Confederação Nacional do Comércio, além do relatório da Fundação Perseu Abramo (2017) e do plano de governo de Flávio Bolsonaro depositado no TSE.*

Por Jornal da República em 19/10/2026
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