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Por Carlos Arouck
O secretário de Estado americano Marco Rubio anunciou, em 28 de maio, a designação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGTs). A partir de 5 de junho, as duas facções passam a constar como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs). O governo Lula e grande parte da mídia brasileira reagiram com contrariedade.
Em vez de reconhecer o cerco financeiro a duas organizações criminosas, o discurso oficial e jornalístico concentrou-se no possível prejuízo à economia: sanções a bancos, fintechs, Pix, agronegócio, turismo e até à Bolsa.
Não se trata de coincidência. A designação terrorista coincide com a conclusão, nos dias 1º e 2 de junho, da investigação da Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA. O mecanismo acusa o Brasil de práticas desleais e propõe tarifa de 25% sobre a maioria dos produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos. As duas medidas formam um cerco duplo: de segurança nacional e de pressão comercial. Elas revelam algo incômodo: o Brasil permitiu o crescimento do crime organizado a ponto de Washington decidir intervir onde Brasília não conseguiu.
Rubio descreveu o PCC e o CV como duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil, com alcance regional e nos Estados Unidos. A medida ativa o arsenal da OFAC (Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros): bloqueio de bens, proibição de transações com americanos e punição a quem prestar apoio material. Isso inclui empresas e bancos que facilitem o fluxo de dinheiro ilícito, mesmo sem intenção.
O governo Lula tentou impedir a decisão nos bastidores. Lula reagiu com irritação: “Não aceitamos ser tratados como moleques” e “não somos republiqueta”. Ele acusou Flávio Bolsonaro de traição por ter articulado o tema na Casa Branca. A narrativa predominante na imprensa — G1, Folha, BBC — centrou-se nos impactos sobre o sistema financeiro, especialmente o Pix, e nos alertas de especialistas sobre compliance mais rigoroso e o risco de o Brasil se tornar pária internacional.
Há lavagem de dinheiro no sistema financeiro brasileiro. No mesmo dia 28 de maio, a Operação Fluxo Oculto, desdobramento da Carbono Oculto, mirou seis fintechs e quatro fundos de investimento na Faria Lima que movimentaram R$ 26 bilhões em operações atípicas para o PCC entre 2022 e 2025. As empresas atuavam como bancos paralelos e introduziam recursos do tráfico de drogas e da adulteração de combustíveis no sistema formal.
Operações anteriores já haviam revelado o mesmo padrão. O PCC e o CV utilizam fintechs, corretoras, criptomoedas, imóveis e portos para lavar bilhões. O Banco Central endureceu as regras, mas o problema persiste. Com a designação como terroristas, o escrutínio americano se intensifica: qualquer instituição com relações indiretas com as facções pode perder acesso ao dólar. A ABBC reconhece o desafio ampliado. Parte do dinheiro ilícito realmente circula pelo sistema. A pressão externa força o estrangulamento que o Brasil, sozinho, não conseguiu impor.
A investigação da Seção 301, aberta em julho de 2025 por ordem de Trump, acusa o Brasil de distorcer o comércio por meio do Pix, que supostamente prejudica Visa e Mastercard, decisões do STF sobre big techs e Lava Jato, vistas como censura e interferência judicial, falhas no combate à corrupção, pirataria, barreiras ao etanol e desmatamento ilegal. A conclusão, divulgada dias após o anúncio sobre PCC e CV, recomenda tarifa de 25%, com consulta pública até o relatório final em 15 de julho. (g1.globo.com)
O elo é claro: uma das frentes da Seção 301 é a falha brasileira em aplicar leis anticorrupção. O PCC e o CV não se limitam ao tráfico de rua. Eles controlam presídios, cooptam autoridades e infiltram a economia. O Pix entra no alvo por supostamente facilitar a lavagem por falta de salvaguardas.
A designação terrorista reforça esse ponto. Sanções secundárias podem atingir quem usa o sistema para movimentar recursos das facções. Não se trata de algo isolado. É a continuação lógica: uma medida aperta o cerco financeiro direto; a outra usa o comércio como alavanca para forçar o endurecimento contra a corrupção que sustenta o crime.
A militância disfarçada de jornalismo não disfarça a irritação. Em vez de questionar por que o Brasil permitiu que essas facções dominassem territórios, presídios e fatias da economia ilícita, o debate se volta para o prejuízo à soberania e o custo à economia. Trata-se do mesmo padrão ideológico que encara o crime como problema social, em vez de ameaça à soberania e à vida nas periferias.
Existem riscos reais: custos de compliance, queda na Bolsa, encarecimento do crédito. O verdadeiro prejuízo econômico, porém, vem do crime: a corrupção drena bilhões, a violência afasta investimentos e destrói famílias. Ignorar isso para priorizar narrativas de intervenção externa revela cinismo. O Brasil não precisa de tropas americanas. Precisa de um Estado que recupere o controle dos territórios dominados pelo PCC e pelo CV.
Flávio Bolsonaro celebrou a medida como vitória para o povo brasileiro. O governo Lula a considera armadilha eleitoral. A mídia, em sua maioria, optou pelo alarmismo econômico. A realidade é mais simples: o anúncio americano não é o problema. É o sintoma de que o Brasil falhou em resolver o seu. Enquanto o PCC e o CV controlarem favelas e presídios, qualquer discurso de soberania soa vazio.
O cerco se fechou. Cabe ao Brasil decidir se continua a pagar o preço do crime organizado ou se enfim o enfrenta antes que o custo, econômico e humano, se torne insustentável.
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