Gasto milionário, mata virgem e promessas: O impasse por trás do Santuário dos Orixás em Maricá

Gasto milionário, mata virgem e promessas: O impasse por trás do Santuário dos Orixás em Maricá

Por Léo Ferreira

A promessa de erguer o Caminho Parque dos Orixás na Serra do Mato Grosso, em Maricá, caminha em uma linha tênue entre a reparação histórica e o ceticismo. Anunciado com pompa pela Prefeitura e pela Companhia de Desenvolvimento de Maricá (Codemar), o projeto de R$ 100 milhões para a compra de grandes latifúndios rurais e urbanos acendeu o sinal de alerta de ambientalistas e gerou desconfiança em lideranças das religiões de matriz africana.

Afinal, trata-se de um projeto ecológico viável ou de uma jogada política que coloca em risco a fauna local e o povo do axé?

 O Risco Ambiental: Intervenção em Área de Preservação

O primeiro grande gargalo do projeto é ecológico. A Serra do Mato Grosso é um corredor verde vital que conecta Maricá a Saquarema, abrigando trechos densos de Mata Atlântica nativa.

Embora o santuário seja vendido como "ecológico", especialistas apontam que qualquer intervenção em grande escala nessa área traz riscos severos:

• Fragmentação do Habitat: A abertura de clareiras, caminhos pavimentados e estruturas para receber milhares de turistas pode fragmentar o ecossistema, ameaçando espécies nativas de fauna e flora.

• Pressão Hídrica: A região da Serra abriga nascentes importantes. A falta de saneamento adequado para o fluxo de visitantes pode contaminar o solo e os cursos d'água locais.

• O Fantasma do Embargo: Maricá tem um histórico recente de severidade ambiental. O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) já barrou grandes projetos na cidade, como o complexo turístico Maraey, na Restinga. Sem Estudos de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) profundos, o Parque dos Orixás corre o risco real de ser embargado antes mesmo de sair do papel.

 Enganação ao Povo do Axé? A Ilusão da "Obra Imediata"

Para além do debate ecológico, existe um forte componente político que ecoa como desrespeito e "enganação" para parte da comunidade de terreiro.

• Discurso vs. Realidade: Lideranças religiosas apontam que o projeto é amplamente utilizado em palanques eleitorais como uma realidade iminente. No entanto, a prefeitura omitiu por muito tempo que não possui as licenças ambientais necessárias para construir e que o processo fundiário sequer foi concluído.

• Uso Político e Ecumenismo de Fachada: Ao mesmo tempo em que promove o Parque dos Orixás, a gestão municipal anunciou um pacote "ecumênico" que inclui um parque temático evangélico e um espaço católico. Para alguns sacerdotes, essa divisão transforma o sagrado em moeda de troca política, diluindo as pautas de combate ao racismo religioso em uma "fábrica de turismo" que pode demorar anos para se concretizar.

• Prioridades Invertidas: Integrantes do povo de santo questionam se os R$ 100 milhões gastos na compra de latifúndios privados não seriam mais úteis se aplicados na proteção jurídica dos terreiros já existentes na cidade, muitos dos quais sofrem com a intolerância e a falta de infraestrutura básica nas periferias de Maricá.

 O Veredito: Projeto Real, mas Distante

O Santuário dos Orixás não é uma mentira jurídica — os decretos de desapropriação e os pagamentos milionários pelas terras constam no Diário Oficial. No entanto, vendê-lo como uma conquista pronta é, no mínimo, uma distorção da realidade.

Entre o marketing político da prefeitura e a preservação real da Serra do Mato Grosso, o povo do axé segue aguardando para ver se o espaço será um templo de dignidade ou apenas mais uma promessa de campanha flutuando na burocracia do estado.

Por Jornal da República em 17/10/2026
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