Hugo Motta transforma regimento em escudo contra CPI do Banco Master

Presidente da Câmara enterra investigação de fraudes bilionárias em fila burocrática

Hugo Motta transforma regimento em escudo contra CPI do Banco Master

CPI do Banco Master entra no fim da fila: Hugo Motta, que correu com anistia, trava investigação

A estratégia de obstrução parlamentar encontrou em Hugo Motta um executor meticuloso. O presidente da Câmara dos Deputados transformou o Regimento Interno em instrumento de proteção política, relegando a CPI do Banco Master ao final de uma fila burocrática que pode postergar indefinidamente a investigação de um dos maiores escândalos financeiros da história recente do país.

A arquitetura da obstrução regimental

O Artigo 35, § 4º do Regimento Interno da Câmara estabelece limite máximo de cinco CPIs simultâneas, dispositivo que Hugo Motta instrumentalizou para criar uma barreira intransponível. Com quinze solicitações represadas, o "zelo regimental" invocado pelo presidente revela-se uma sofisticada engenharia de procrastinação. As 201 assinaturas coletadas pelo deputado Rodrigo Rollemberg transformaram-se em mero gesto simbólico diante da recusa de Motta em conceder despacho de leitura em plenário.

Esta manobra expõe uma contradição fundamental: enquanto o Legislativo proclama sua função fiscalizadora, utiliza seus próprios instrumentos normativos para neutralizar investigações que poderiam revelar conexões inconvenientes entre poder político e sistema financeiro. A cronologia burocrática torna-se, assim, aliada estratégica da impunidade sistêmica.

O silêncio eloquente da governabilidade

A resistência de Hugo Motta transcende questões meramente procedimentais. Sua postura reflete cálculo político preciso: evitar que investigações parlamentares contaminem a agenda legislativa em ano eleitoral. O presidente da Câmara, que demonstrou agilidade excepcional na tramitação da anistia, agora invoca lentidão burocrática quando se trata de investigar fraudes que comprometem a estabilidade do sistema financeiro nacional.

Esta seletividade temporal revela padrão comportamental preocupante: velocidade para proteger interesses políticos, morosidade para apurar irregularidades que podem expor redes de corrupção estrutural. O "banho-maria" aplicado ao requerimento da CPI do Master contrasta dramaticamente com a urgência dispensada a outras matérias de interesse do establishment político.

Prejuízos sistêmicos e responsabilização fragmentada

Os R$ 5 bilhões em prejuízos estimados no Banco de Brasília representam apenas a ponta visível de um iceberg que pode comprometer a solidez de todo o sistema financeiro regional. As fraudes envolvendo carteiras de crédito falsas e as conexões com o empresário Daniel Vorcaro exigem investigação parlamentar robusta, não apenas inquéritos sigilosos conduzidos por órgãos técnicos.

A transferência da responsabilidade investigativa para Polícia Federal e Banco Central, embora necessária, não substitui o papel constitucional do Legislativo na fiscalização de atos que afetam o interesse público. A CPI possui instrumentos únicos de investigação e capacidade de exposição pública que inquéritos sigilosos não proporcionam.

Conexões perigosas e proteção institucional

A resistência parlamentar em investigar o Banco Master sugere existência de conexões que transcendem aspectos meramente técnicos. O envolvimento de figuras políticas influentes e a magnitude dos valores movimentados indicam que a investigação poderia revelar esquemas de corrupção que comprometem múltiplos atores do sistema político-financeiro.

A auditoria interna do BRB já identificou "achados relevantes" encaminhados às autoridades competentes, evidência de que existem elementos suficientes para justificar investigação parlamentar aprofundada. A recusa em proceder com a CPI, portanto, não se baseia em ausência de indícios, mas em conveniência política.

Impactos na credibilidade institucional

A manobra regimental de Hugo Motta compromete gravemente a credibilidade do Legislativo como instância de controle democrático. Quando o Congresso utiliza seus próprios instrumentos normativos para obstruir investigações legítimas, corrói-se a confiança pública na capacidade das instituições de combater a corrupção sistêmica.

Esta postura contrasta frontalmente com o discurso de pacificação institucional proclamado na abertura dos trabalhos legislativos. A paz entre poderes não pode significar conivência com irregularidades que comprometem o interesse público e a estabilidade do sistema financeiro nacional.

Precedentes perigosos para a democracia

A instrumentalização do regimento interno para obstruir investigações estabelece precedente extremamente perigoso para o funcionamento democrático. Se limitações burocráticas podem ser utilizadas seletivamente para proteger interesses específicos, todo o sistema de controles democráticos fica comprometido.

A fila de CPIs represadas torna-se, neste contexto, não apenas questão administrativa, mas instrumento de proteção política. A cronologia burocrática substitui critérios de relevância e urgência, invertendo completamente a lógica da fiscalização parlamentar.

Alternativas investigativas e lacunas institucionais

Embora Polícia Federal e Banco Central mantenham investigações em curso, a ausência de CPI parlamentar cria lacuna institucional significativa. O Legislativo possui prerrogativas únicas, incluindo poder de convocação compulsória e capacidade de exposição pública que são fundamentais para o esclarecimento completo dos fatos.

A transferência integral da responsabilidade investigativa para órgãos técnicos, embora necessária, não substitui o papel político-institucional do Congresso na apuração de irregularidades que afetam diretamente o interesse público e a confiança no sistema financeiro.

Consequências para o sistema financeiro

A postergação indefinida da investigação parlamentar pode comprometer a capacidade de identificação e correção de vulnerabilidades sistêmicas que permitiram as fraudes no Banco Master. Sem investigação abrangente, riscos similares permanecem latentes em outras instituições financeiras.

A credibilidade do sistema de supervisão bancária também fica comprometida quando irregularidades de tal magnitude não recebem investigação parlamentar adequada. A confiança dos investidores e depositários depende da percepção de que existem mecanismos efetivos de controle e responsabilização.

Reflexões sobre accountability democrático

O caso do Banco Master expõe fragilidades estruturais do sistema de accountability democrático brasileiro. Quando instrumentos regimentais podem ser utilizados para obstruir investigações legítimas, questiona-se a efetividade real dos controles institucionais sobre atos que comprometem o interesse público.

A democracia brasileira precisa desenvolver mecanismos que impeçam a instrumentalização de normas procedimentais para fins de proteção política. A investigação de irregularidades que afetam o sistema financeiro nacional não pode ficar subordinada a conveniências eleitorais ou cálculos de governabilidade.

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Por Jornal da República em 04/02/2026
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