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Por Fabrício Freitas
Admir Treichel foi mantido na fiscalização dos cemitérios mesmo após denúncias divulgadas pela imprensa
Admir Treichel, que mais tarde seria acusado de integrar um esquema de cobrança de propinas nos cemitérios administrados pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, foi nomeado interventor do setor durante o governo de Eduardo Paes.
A nomeação ocorreu em 2013, por meio do Decreto Municipal nº 37.870. Com a decisão, Paes entregou a Treichel a fiscalização dos cemitérios da Santa Casa, colocando-o no comando de uma estrutura que reunia 13 unidades no Grande Rio.
Segundo a acusação que posteriormente chegou à Justiça, Treichel recebia, desde 2001, R$ 3 mil por semana de cada cemitério submetido à fiscalização. Ele era considerado um homem forte do setor funerário e exercia influência direta sobre a fiscalização das unidades administradas pela Santa Casa.
Intimações de julho de 2013 mostram Ademir Treichel assinando como coordenador do controle de cemitérios e serviços funerários da Prefeitura do Rio
O caso ganhou repercussão nacional em reportagem exibida pelo Fantástico, da TV Globo. As denúncias também foram abordadas pelo jornal O Globo. Em 17 de janeiro de 2014, reportagem assinada pelo jornalista Luiz Ernesto Magalhães detalhou a situação do interventor e os questionamentos envolvendo a administração dos cemitérios.
Mesmo depois da divulgação das acusações e dos alertas feitos pela imprensa, Eduardo Paes manteve Treichel no cargo. O interventor só foi afastado por determinação do Juízo da 20ª Vara Criminal, no processo nº 0287134-25.2013.8.19.0001.
Anos depois, Treichel foi condenado a 12 anos de reclusão, em regime fechado. A decisão foi proferida pela 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, em acórdão relatado pelo desembargador Peterson Barroso Simão.
A condenação está relacionada ao crime previsto no artigo 317, parágrafo 1º, do Código Penal. Treichel não foi o único condenado no processo.
Raimundo Marcelo de Oliveira recebeu pena de 9 anos e 8 meses. Marcio Luís Pereira de Souza, Mônica Alves da Silva Xavier, Sheila Mattos Pimentel, Alessandro Nascimento Oliveira, Djalma Castilho Júnior, Renato Maia Ribeiro, Jarbas Augusto Rodrigues Frauches, Deusdedit Martins da Costa, Valdeci Alexandre Faria, Alexandre dos Santos Miranda e Jorge Luiz Santos do Nascimento foram condenados a 3 anos de reclusão cada um.
Washington Jorge da Silva foi condenado a 3 anos de reclusão e mais 3 anos de detenção. Valcemir Anderson de Souza recebeu pena de 6 anos e 8 meses de reclusão, em regime fechado.
Foram anos em que o crime mandou na estrutura dos cemitérios da Santa Casa, como demonstraram as reportagens investigativas publicadas naquele período.
Da Santa Casa à concessão dos cemitérios
Com o afastamento da Santa Casa da administração dos cemitérios, durante o governo de Eduardo Paes, a Prefeitura do Rio realizou uma licitação para transferir a exploração dos serviços funerários.
As vencedoras do certame foram as empresas Reviver, ligada ao empresário Hugo Aquino Filho, e Rio Pax.
A mudança no comando dos cemitérios também trouxe uma transformação profunda nos valores cobrados da população.
Tabela oficial da Prefeitura do Rio reúne os preços dos serviços cemiteriais e funerários vigentes em 2026
A partir da concessão, surge uma pergunta inevitável: quanto custa morrer atualmente no Rio?
Mais precisamente: quanto custa morrer nos 13 cemitérios que anteriormente estavam sob a administração da Santa Casa?
Na época em que os cemitérios eram administrados pela instituição, a taxa de sepultamento era de R$ 20,07 para a cova rasa e de R$ 74,24 para o sepultamento em gaveta.
Depois da privatização dos cemitérios, o negócio melhorou bastante, ao menos para quem passou a explorá-lo.
Já em 2014, a taxa de sepultamento passou para R$ 440. O valor representou uma elevação expressiva em comparação com os preços cobrados anteriormente pela Santa Casa.
A cobrança pela exumação também mudou. Na época da Santa Casa, o pagamento deveria ser feito após três anos. Depois da privatização, o valor passou para R$ 545 e começou a ser exigido antes mesmo do enterro.
A lógica ficou parecida com a da taxa judiciária na Justiça comum: primeiro se paga, depois se utiliza o serviço.
No Cemitério São João Batista, a exumação passou a custar R$ 890. No aluguel de capelas, os preços também dispararam.
As chamadas suítes superluxo do São João Batista, climatizadas e com serviço de café e garçom, custam entre R$ 15 mil e R$ 70 mil por um período de 24 horas. E por aí vai.
Enquanto isso, o homem posteriormente condenado, nomeado interventor por Eduardo Paes, cobrava uma taxa de aproximadamente R$ 20 pela cova rasa na época da Santa Casa.
Deve ser por isso, também, que acabou condenado: cobrava muito barato.
Por onde anda o jornalismo do Fantástico, que, em 2013, levou esse escândalo ao conhecimento do país?
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