Joelho no Concreto

Por Ronald Luis

Joelho no Concreto

Trabalhei cinco anos num fast-food. Cheirava a gordura e aprendi que dignidade é caviar: luxo de quem pode escolher onde trabalhar. Mas eu tinha uma praça, um domingo... E a infância do meu sobrinho na minha mão, e eu não podia estragar.

Meu sobrinho aprendeu o cinismo cedo: ele torce para o Flamengo, mas joga no time infantil do Fluminense. Ele mesmo me disse que o Flamengo é o time do coração. E o Fluminense, o que deu chance.

Me voluntariei para levar ele ao campo porque a mãe estava trabalhando e só poderia buscá-lo.

Malandro e otário não saem mais de casa: se encontram nas redes sociais. Mas eu saí de otário para o mundo real. E o mundo estava todo na malandragem. A queda era esperada.

Descemos a rua. Pisei na areia seca de uma obra na favela. Escorregadia demais. Caí.

Sinta: 98 quilos e dois metros batendo forte com o joelho e o braço no chão.

Desesperado ao me ver caído, achando que a culpa era dele — afinal tinha me pedido pra levar —, meu sobrinho disse:

— Desculpa.

De coração apertado.

Olhei pra ele e disse que não foi nada. Levantei e fui caminhando, com areia no joelho ralado e o osso doendo.

Sempre tem areia de obra na favela. E também cimento e entulho.

Obra é evento social. É a coisa mais importante para o favelado.

Na obra, as mães fazem churrasco; os adolescentes e adultos carregam entulho, viram massa bebendo cerveja... E as crianças arrumam a casa. E todo mundo ri.

Pensei seriamente em meter filho pra cada cômodo da casa... Porque aí não precisaria mais arrumar nada.

A nossa tinha um andar e meio quando chegamos.

E, na frente, ainda era ponto de droga. Depois de conversar com os traficantes, eles passaram a vender em outro lugar.

A nossa vida seguiu, porque a meta é levar a vida inteira para terminar a mesma casa.

A vida deles, não. Porque morreram em alguma operação policial.

E assim começamos a obra.

Lembrei quando chegaram os materiais. Apareceu o caminhoneiro, me olhou de cima a baixo e perguntou se era eu que iria carregar, lá de baixo, os materiais para minha casa.

— Bem... Vai ter que ser eu, né?

Ele disse:

— Então pode descer. O caminhão vai largar aquela porra lá embaixo pra você trazer pra cá. Ninguém quer morrer, não.

E então minha irmã apareceu no portão. De camisola.

O poder de uma camisola é mágico: torna qualquer velho brocha capaz de fecundar a preguiça.

O caminhoneiro que deixaria o material lá embaixo... Subiu a favela inteira por causa da mãe do meu sobrinho.

Sem pedir ao traficante.

Sem pedir autorização.

E foda-se o perigo.

Mas milagres demoram. E, com a demora, minha mãe apareceu no portão, viu minha irmã e foi dar esporro. Falou da falta de respeito com os vizinhos.

O caminhoneiro ignorou, desceu, olhou para mim e disse:

— Manda sua irmã tomar café comigo um dia.

Eu respondi:

— Ela é de camisola, não de café.

Ele riu.

Parei, pensei naquele caminhão descendo e decidi proteger minha irmã:

— Deixa, mãe. Essa camisola me poupou trabalho. Daqui pra frente, todo mundo vai trabalhar pelado na obra. Eu vou ficar de cueca e gravata-borboleta, virando massa.

Colocamos a camisola na porta de casa para facilitar. Pra trazer gente para ajudar.

Quase como sementes para atrair pássaros e predadores corretos que possam carregar argamassa.

Mas acabar a obra? Nunca! Acaba nem fodendo! Mas ajuda pra caralho.

Desde então, muitos anos se passaram.

E agora estava com meu sobrinho: o filho da camisola, com uma obra sem fim.

E era obrigação levar ele ao campo agora.

E... a cada passo, a areia lembrava que eu estava ferido.

Pensei no contrário de O Senhor dos Anéis: saí da obra, da boca de fumo, das brigas entre vizinhos porque algum adolescente engravidou... E, quanto mais distante, mais o resto do mundo ficava organizado. Só eu estava tortão pra esquerda.

Caminhando, a favela foi ficando para trás: o chão que me derrubou, as casas com andar e meio, a obra eterna de todo mundo. Depois, as ruas foram se arrumando. O asfalto apareceu. As casas fechadas, pintadas, com grade. Alguns condomínios. Havia girassóis cercados por concreto. Na minha rua, o concreto protegia casa. Ali, protegia flor.

Então chegamos ao campo.

Grama, traves, linha branca no chão. Tudo no lugar.

Meu joelho ainda sangrava. Mas assistir ele jogar foi mágico.

Não gosto de futebol.

Vi ele jogar bem. Jogar mal. Levar esporro do treinador, que gritava com as crianças como se fossem eleitores.

Que filho da puta!

Mas... no fundo, eu sei: faz parte da obra eterna. No país e no campo, quem decidiu esse jeito de viver — da favela onde moro até o campo de futebol — é filho da puta. A cada dois anos, a opção é entre um filho da puta ou o herdeiro de outro filho da puta.

E quem escolhe provavelmente é um filho da puta que vendeu o voto.

Meu joelho está ardendo. E o treinador está gritando com o moleque.

Naquele ano, eu não dormia.

Deus era dúvida e pai de todos os otários.

Me desiludi porque as coisas não mudam. E não quero que meu sobrinho passe por isso antes da hora.

No fim, minha irmã apareceu vestida na rua. Percebeu minha perna ensanguentada. Pedimos um carro e fomos para casa.

Meu sobrinho fez um gol naquele dia. Olhou para a arquibancada. Eu levantei o braço. O corte ardia. Ele não viu.

Todo torcedor vai ao estádio sem esperar que o jogador retribua além do resultado. Mesmo assim, a gente canta. Tem jogador que segue em campo com o joelho fodido, ano após ano, porque a obra também não pode parar.

Eu, que não torço pra nada, sei disso.

Por Jornal da República em 02/07/2026
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