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O maniqueismo é a marca de um dos gêneros mais populares da ficção brasileira: a telenovela. Apesar da concorrência digital, as eternas tretas entre mocinhos e vilões na TV continuam a atrair milhões de espectadores. Seja Odete Roitman ou Arminda de Melo Dantas, a megera da atual novela das nove da Globo, sempre há um desses seres maléficos a ser abatido pelos heróis nos folhetins televisivos.
O sucesso de público faz com que o gosto por reduzir enredos complexos ao embate do bem contra o mal também seja comum em outra área da comunicação: o jornalismo da grande mídia, especialmente quando os barões da imprensa querem fazer valer os seus interesses eleitorais. Vemos isso nos editoriais, mas não só. Em temporadas assim, acontece como nas telenovelas. O que é publicado e falado resulta da manipulação dos fatos até que tomem a forma novelesca.
Quem não lembra dos grandes sucessos da ficção jornalística brasileira, como “O caçador de marajás”, “Os heróis da Lava Jato”, “Pedalada fiscal – o crime que só valeu para Dilma”, “Uma escolha muito difícil” e muitos outros?
Nessas tramas noticiosas, mudam os heróis, mas o vilão da imprensa é um só: Lula.
A surrada fórmula do antipetismo voltou ao cartaz agora, no escândalo do Banco Master. Sem a menor cerimônia, como sempre, boa parte da imprensa inverte o roteiro e transforma o “mocinho” da história em malfeitor. E vice-versa.
Assim, Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central no período em que o Master fermentou a maior fraude bancária da história do Brasil, é poupado nas matérias dos veículos dos barões da mídia. Basta que Lula ou alguém de sua equipe lembre a negligência do indicado de Bolsonaro na fiscalização às tungas bilionárias praticadas por Vorcaro para que chovam críticas sobre o petista. Ao lembrar das responsabilidades não cumpridas por Campos Neto — hoje chefão do Nubank, banco que tem entre os sócios a família Marinho, dona das organizações as Globo –, o presidente da República estaria querendo apenas evitar “impacto eleitoral” sobre si, dizem alguns jornalistas.
Lula fala apenas o óbvio: o neto de Bob Fields tem que responder por que não fez nada para evitar as malandragens de Vorcaro. O bolsonarista é obrigado a responder especialmente por que não protegeu milhares de aposentados e pensionistas cujos recursos previdenciários viraram pó.
O fato de que foi o sucessor de Campos Neto no BC, indicado por Lula, quem interrompeu a aventura criminosa do Master sequer é lembrado.
Nessa corrida para tapar o sol com a peneira midiática, os editoriais sempre têm papel de destaque. Está aí o texto publicado como opinião da Folha de S.Paulo neste domingo (15) para servir de prova.
O editorial louva a Polícia Federal e — pasmem! — a própria imprensa por abalar “o pacto de silêncio tacitamente firmado nos últimos anos entre altas autoridades e elite politica” em torno do “alastramento da corrupção”. Sim, a PF fez um belíssimo trabalho. Os jornalistas, com raras exceções, nada mais fizeram do que aproveitar os vazamentos repassados com base no trabalho dos agentes.
Enquanto diz que abalou o pacto de silêncio dos poderosos, por detalhar as ligações de Toffoli e Xandão com o Master, a Folha omite os nomes dos verdadeiros parceiros de Vorcaro:
– Ciro Nogueira, “o amigo de vida” do banqueiro-presidiário, que tanto esforço fez para ajudá-lo no Congresso;
– Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, beneficiários de R$ 5 milhões em doações de campanha por parte de Fabiano Zettel;
– Ibaneis Rocha e Cláudio Castro, governadores que comprometeram os recursos dos aposentados e pensionistas de seus estados pela parceria com o Master (o primeiro comprometeu também o banco público do DF);
– Davi Alcolumbre, o presidente do Senado, que fez tudo que pôde para evitar a instalação de uma CPMI para apurar o despejo de R$ 400 milhões do fundo dos servidores do Amapá, seu estado natal, no ralo do Master;
– Nikolas Ferreira, o deputado que pegou carona no jatinho do banqueiro presidiário.
Este, sim, é um pacto de silêncio em torno da ” elite politica”.
Ou seja: em torno da direita.
Enquanto sonega de seus leitores o nome dos verdadeiros “amigos de vida” de Vorcaro, a Folha faz uma pirueta para jogar o foco mais uma vez sobre Lula, o malvado favorito do jornal da família Frias. O(s) editorialista(s) jogam no meio do texto a quebra de sigilo de Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente, pela CPI do INSS. Obviamente não informam que não encontraram um centavo do tal “Careca do INSS” na conta de Lulinha.
A “operação abafa” da Folha também não cita que o belo trabalho da Polícia Federal, louvado no título do editorial, foi possível porque o presidente da República deu à corporação total autonomia. “Não poderia ter sido diferente”, dirão alguns hipócritas. A lembrança da interferência de Bolsonaro nos órgãos de Estado confirma o quanto um presidente mal intencionado pode aparelhar PF, Receita Federal e Abin .
Enfim, o roteiro seguido pela grande imprensa é o mesmo de outras temporadas eleitorais. Os barões da mídia não aprenderam que na vida política só há uma espécie de maniqueismo possível, aquele que divide o país entre democratas e inimigos da democracia.
O veículos maiores parecem já ter escolhido o pior lado — o que não é nenhuma surpresa.
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