O CAVIAR DO GOVERNADOR — R$ 10.500 em ovas, pagos por um operador. O que a PF encontrou no celular de Castro.

Relatório de 112 páginas enviado a Alexandre de Moraes descreve como o aparato do Estado do Rio teria sido mobilizado em favor do Grupo REFIT — da licença ambiental aprovada em votação "ganha" ao caviar comprado por terceiros

O CAVIAR DO GOVERNADOR — R$ 10.500 em ovas, pagos por um operador. O que a PF encontrou no celular de Castro.

A Polícia Federal sustentou, em representação encaminhada ao Supremo Tribunal Federal em 2 de agosto de 2026, que a estrutura do Governo do Estado do Rio de Janeiro foi mobilizada para atender aos interesses do conglomerado REFIT, controlado por Ricardo Andrade Magro. O documento, ao qual a reportagem teve acesso, pede buscas, afastamento de sigilos e o compartilhamento de provas com o Ministério Público fluminense.

Nada disso é sentença. É peça de investigação — e é assim que deve ser lida. Os investigados negam as acusações. Cláudio Castro afirma ser alvo de "ilações irresponsáveis" e nega "qualquer participação em esquema de lavagem de dinheiro, recebimento de vantagem indevida ou favorecimento a terceiros". A defesa da refinaria sustenta que as operações prejudicam a concorrência no setor. Não há, até o momento, decisão judicial que confirme as imputações.

A viagem, o jantar e a contradição

O relatório começa por uma agenda em Nova York. O então governador prestigiou evento patrocinado pela REFIT e, na mesma viagem, buscou apoio de autoridades americanas — entre elas a Drug Enforcement Administration — para classificar facções do Rio como narcoterroristas.

A contradição, tal como aparece no texto, é de manual: o mesmo governador que se apresentava como articulador do combate ao crime organizado sentava-se à mesa do dono de uma refinaria que a própria PF trata como centro de dilapidação do erário. Mensagens do celular do ex-governador, segundo o documento, confirmam que Magro atuou como cicerone do encontro.

Castro rebateu: participou de fórum promovido por revista semanal de circulação nacional, com autoridades dos três Poderes, e chamou de "absurdo" o uso do encontro como justificativa da operação. "O que tenho a ver com patrocinador privado de um evento promovido por uma revista?"

"Eu toco por aqui"

O documento descreve um canal direto entre a refinaria e o gabinete, intermediado pelo advogado Marcos Joaquim Gonçalves Alves. Em diálogos reproduzidos, o governador trata pessoalmente de demandas administrativas da empresa, orienta sobre protocolos e cobra andamento de expedientes.

Em um trecho, ao ser procurado sobre agenda para regularização fiscal da refinaria, responde: "Eu toco por aqui". Para a PF, a frase indica atuação pessoal em assunto de interesse direto do conglomerado.

A votação que terminou em "ganhamos no voto"

O capítulo central trata da 1114ª Reunião da Comissão Estadual de Controle Ambiental, em 21 de maio de 2024. Em pauta, a renovação da Licença de Operação e Recuperação da refinaria. Ibama e Uerj se manifestaram contra — o órgão federal apontou descumprimento de condicionantes; a universidade reclamou de não ter acesso aos relatórios de descontaminação. A licença foi aprovada por maioria.

As mensagens do celular do então presidente do INEA, Renato Jordão Bussiere, revelam, segundo a PF, a articulação nos bastidores. Na véspera, o secretário estadual de Ambiente, Bernardo Chim Rossi — que não integrava a comissão nem estava presente — enviou documentos do processo e acompanhou a votação em tempo real.

Trecho do diálogo (conforme relatório) Interpretação da PF
Rossi sobre o Ibama: órgão deveria ser "atropelado"; presidente da CECA precisava "ser firme" Diretriz política sobre deliberação técnica
"Não podemos deixar de colocar hoje para votar" Pressa incompatível com análise técnica
"Ganhamos no voto" Tratamento da licença como disputa a ser vencida
Bussiere: representantes do Ibama e da Uerj estavam "fudendo a votação" Hostilidade a manifestações contrárias

Antes da deliberação, Bussiere procurou ao menos três conselheiros com direito a voto — ANAMMA, DRM-RJ e SEAPPA — e sinalizou contato com FIRJAN e SEDEICS. Todos votaram a favor. Eram necessários sete votos.

O padrão teria se repetido em abril de 2025, na Licença de Instalação: Bussiere pediu ao presidente do CREA-RJ que analisasse a pauta "com carinho". Aprovada, sem necessidade de submissão ao Conselho Diretor.

Concorrência barrada

Segundo a PF, a atuação extrapolou o licenciamento. Tobras, Terrana e Tramp Oil tiveram inscrições estaduais bloqueadas por diretriz emanada da Casa Civil; a Tobras perdeu a licença de operação em abril de 2025. Na véspera da reunião, Bussiere compartilhou o processo com Rossi. No dia seguinte, questionado se estava "tudo calmo", respondeu: "Controle máximo".

O caviar e as casas em nome de outros

A parte sobre lavagem tem como figura central o advogado Antônio Carlos da Conceição Santos, o Pipo — nome que já aparecera na investigação sobre o assassinato de Marielle Franco —, apontado como operador financeiro do núcleo político.

Um pagamento de R$ 10.500 em caviar foi feito por transferência da empresa de Pipo, não pelo governador. O comprovante foi enviado por Castro na conversa com o fornecedor.

Em Petrópolis, duas casas no condomínio Villa Locanda seriam usadas pelo ex-governador, que acompanhava obras, aprovava orçamentos e chamava o local de "minha obra". Um projeto de adega circulou com o título "AP Adega Claudio Castro" e proposta de R$ 245 mil. Os imóveis estão formalmente em nome de empresas de um empresário com contratos no governo estadual.

Na Barra da Tijuca, a cobertura onde Castro passou a residir teria aluguel de R$ 10 mil — contra R$ 25 mil a R$ 29 mil em anúncios semelhantes na região. A locadora foi constituída 50 dias antes de adquirir o imóvel.

O desembargador

O documento reserva capítulo a Guaraci de Campos Vianna, do TJ-RJ, afastado na primeira fase por sua atuação na recuperação judicial da REFIT. Mensagens de abril de 2026 o mostram discutindo defesa e cobrando: o "advogado da Refinaria ainda não respondeu se irá ou não pagar os honorários". A PF descreve ainda transferências de terceiros para despesas médicas cardíacas, somando R$ 52 mil.

Por que importa

O relatório descreve algo maior que uma licença: um aparato inteiro — secretaria, autarquia, procuradoria, comissão colegiada — operando em sincronia para um único grupo econômico.

Quando a votação de uma licença de operação passa a ser lida como disputa de bastidor, o dano não é só ao erário. É ao sistema que deveria garantir que contaminação de solo e água tenha peso técnico, não peso político. Os fatos atravessam 2024, 2025 e 2026 — motivo pelo qual a PF pediu o afastamento de sigilos desde janeiro de 2023.

#OperaçãoSemRefino #REFIT #CláudioCastro #LicençaAmbiental #LavagemDeDinheiro

 

Por Jornal da República em 01/11/2026
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