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A Polícia Federal sustentou, em representação encaminhada ao Supremo Tribunal Federal em 2 de agosto de 2026, que a estrutura do Governo do Estado do Rio de Janeiro foi mobilizada para atender aos interesses do conglomerado REFIT, controlado por Ricardo Andrade Magro. O documento, ao qual a reportagem teve acesso, pede buscas, afastamento de sigilos e o compartilhamento de provas com o Ministério Público fluminense.
Nada disso é sentença. É peça de investigação — e é assim que deve ser lida. Os investigados negam as acusações. Cláudio Castro afirma ser alvo de "ilações irresponsáveis" e nega "qualquer participação em esquema de lavagem de dinheiro, recebimento de vantagem indevida ou favorecimento a terceiros". A defesa da refinaria sustenta que as operações prejudicam a concorrência no setor. Não há, até o momento, decisão judicial que confirme as imputações.
A viagem, o jantar e a contradição
O relatório começa por uma agenda em Nova York. O então governador prestigiou evento patrocinado pela REFIT e, na mesma viagem, buscou apoio de autoridades americanas — entre elas a Drug Enforcement Administration — para classificar facções do Rio como narcoterroristas.
A contradição, tal como aparece no texto, é de manual: o mesmo governador que se apresentava como articulador do combate ao crime organizado sentava-se à mesa do dono de uma refinaria que a própria PF trata como centro de dilapidação do erário. Mensagens do celular do ex-governador, segundo o documento, confirmam que Magro atuou como cicerone do encontro.
Castro rebateu: participou de fórum promovido por revista semanal de circulação nacional, com autoridades dos três Poderes, e chamou de "absurdo" o uso do encontro como justificativa da operação. "O que tenho a ver com patrocinador privado de um evento promovido por uma revista?"
"Eu toco por aqui"
O documento descreve um canal direto entre a refinaria e o gabinete, intermediado pelo advogado Marcos Joaquim Gonçalves Alves. Em diálogos reproduzidos, o governador trata pessoalmente de demandas administrativas da empresa, orienta sobre protocolos e cobra andamento de expedientes.
Em um trecho, ao ser procurado sobre agenda para regularização fiscal da refinaria, responde: "Eu toco por aqui". Para a PF, a frase indica atuação pessoal em assunto de interesse direto do conglomerado.
A votação que terminou em "ganhamos no voto"
O capítulo central trata da 1114ª Reunião da Comissão Estadual de Controle Ambiental, em 21 de maio de 2024. Em pauta, a renovação da Licença de Operação e Recuperação da refinaria. Ibama e Uerj se manifestaram contra — o órgão federal apontou descumprimento de condicionantes; a universidade reclamou de não ter acesso aos relatórios de descontaminação. A licença foi aprovada por maioria.
As mensagens do celular do então presidente do INEA, Renato Jordão Bussiere, revelam, segundo a PF, a articulação nos bastidores. Na véspera, o secretário estadual de Ambiente, Bernardo Chim Rossi — que não integrava a comissão nem estava presente — enviou documentos do processo e acompanhou a votação em tempo real.
| Trecho do diálogo (conforme relatório) | Interpretação da PF |
|---|---|
| Rossi sobre o Ibama: órgão deveria ser "atropelado"; presidente da CECA precisava "ser firme" | Diretriz política sobre deliberação técnica |
| "Não podemos deixar de colocar hoje para votar" | Pressa incompatível com análise técnica |
| "Ganhamos no voto" | Tratamento da licença como disputa a ser vencida |
| Bussiere: representantes do Ibama e da Uerj estavam "fudendo a votação" | Hostilidade a manifestações contrárias |
Antes da deliberação, Bussiere procurou ao menos três conselheiros com direito a voto — ANAMMA, DRM-RJ e SEAPPA — e sinalizou contato com FIRJAN e SEDEICS. Todos votaram a favor. Eram necessários sete votos.
O padrão teria se repetido em abril de 2025, na Licença de Instalação: Bussiere pediu ao presidente do CREA-RJ que analisasse a pauta "com carinho". Aprovada, sem necessidade de submissão ao Conselho Diretor.
Concorrência barrada
Segundo a PF, a atuação extrapolou o licenciamento. Tobras, Terrana e Tramp Oil tiveram inscrições estaduais bloqueadas por diretriz emanada da Casa Civil; a Tobras perdeu a licença de operação em abril de 2025. Na véspera da reunião, Bussiere compartilhou o processo com Rossi. No dia seguinte, questionado se estava "tudo calmo", respondeu: "Controle máximo".
O caviar e as casas em nome de outros
A parte sobre lavagem tem como figura central o advogado Antônio Carlos da Conceição Santos, o Pipo — nome que já aparecera na investigação sobre o assassinato de Marielle Franco —, apontado como operador financeiro do núcleo político.
Um pagamento de R$ 10.500 em caviar foi feito por transferência da empresa de Pipo, não pelo governador. O comprovante foi enviado por Castro na conversa com o fornecedor.
Em Petrópolis, duas casas no condomínio Villa Locanda seriam usadas pelo ex-governador, que acompanhava obras, aprovava orçamentos e chamava o local de "minha obra". Um projeto de adega circulou com o título "AP Adega Claudio Castro" e proposta de R$ 245 mil. Os imóveis estão formalmente em nome de empresas de um empresário com contratos no governo estadual.
Na Barra da Tijuca, a cobertura onde Castro passou a residir teria aluguel de R$ 10 mil — contra R$ 25 mil a R$ 29 mil em anúncios semelhantes na região. A locadora foi constituída 50 dias antes de adquirir o imóvel.
O desembargador
O documento reserva capítulo a Guaraci de Campos Vianna, do TJ-RJ, afastado na primeira fase por sua atuação na recuperação judicial da REFIT. Mensagens de abril de 2026 o mostram discutindo defesa e cobrando: o "advogado da Refinaria ainda não respondeu se irá ou não pagar os honorários". A PF descreve ainda transferências de terceiros para despesas médicas cardíacas, somando R$ 52 mil.
Por que importa
O relatório descreve algo maior que uma licença: um aparato inteiro — secretaria, autarquia, procuradoria, comissão colegiada — operando em sincronia para um único grupo econômico.
Quando a votação de uma licença de operação passa a ser lida como disputa de bastidor, o dano não é só ao erário. É ao sistema que deveria garantir que contaminação de solo e água tenha peso técnico, não peso político. Os fatos atravessam 2024, 2025 e 2026 — motivo pelo qual a PF pediu o afastamento de sigilos desde janeiro de 2023.
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