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A violência voltou a dominar as preocupações dos brasileiros e o debate público em um ano eleitoral decisivo.
Mas, para o especialista em segurança pública Ricardo Gennari, a pergunta que deveria anteceder as promessas de viaturas e efetivo é outra: o modelo brasileiro de combate ao crime acompanhou a transformação da própria criminalidade? A resposta, segundo ele, é não, e o custo desse descompasso é medido em vidas.
O crime que evoluiu e o Estado que ficou para trás.
Gennari sustenta que as organizações criminosas deixaram de ser grupos desorganizados de bairro para se tornar estruturas complexas, com tecnologia, poder financeiro e atuação que atravessa fronteiras.
"O crime evoluiu e a estratégia de enfrentamento também precisa evoluir", afirma o especialista, para quem a presença policial nas ruas, embora fundamental, já não é suficiente.
A tese está no livro "Inteligência do Crime Organizado Brasileiro – Suas Parcerias e Sua Expansão pelo Mundo", lançado em agosto pela Editora Haryon. A obra reúne pesquisa aprofundada sobre a evolução das facções, suas alianças e a capacidade de influenciar mercados e corromper instituições.
Quatro pilares que deveriam pautar o debate
Para Gennari, a discussão sobre segurança pública precisa sair do campo do quantitativo e entrar no estratégico. Ele aponta quatro frentes que deveriam ocupar o centro do debate: inteligência, tecnologia, integração entre as forças de segurança e investigação financeira.
"É fácil prometer mais viaturas, mais policiais e mais operações. A pergunta é: qual é o planejamento? Como será utilizada a tecnologia? As forças de segurança vão compartilhar informações? "Como vamos atacar financeiramente as organizações criminosas?", questiona.
O dinheiro como centro de gravidade do crime.
Um dos principais desafios apontados pelo especialista está justamente no fluxo financeiro do crime. Combater uma organização criminosa não significa apenas prender seus integrantes, mas identificar de onde vêm os recursos, como circulam, onde são lavados e quem sustenta a estrutura.
"Quando conseguimos seguir o dinheiro, começamos a atingir a estrutura do crime e não apenas quem está na ponta. "Hoje é impossível falar seriamente em combate ao crime organizado sem falar de inteligência financeira", explica Gennari, ecoando o que o próprio Ministério da Justiça e órgãos de controle vêm defendendo como projeto de Estado.
As facções e a cooptação no ano eleitoral
A proximidade das eleições de 2026 torna o alerta ainda mais urgente. Em entrevista recente, o especialista afirmou que "facções precisam de políticos alinhados" para expandir seus domínios, apontando o risco de cooptação de candidatos e a infiltração do crime organizado no processo eleitoral.
Gennari chama atenção para os "laranjas" — pessoas impulsionadas a ocupar espaços de poder em benefício das organizações. O tema ganhou destaque nacional, com investigações revelando elos de facções com agentes do setor público e até a troca de cocaína por votos, como mostrou o G1.
Inteligência como diferencial competitivo do Estado.
Para o especialista, o Brasil precisa inverter a lógica. "O Brasil precisa discutir menos a imagem da segurança e mais a inteligência por trás dela. O crime já entendeu o valor da informação, da tecnologia e do dinheiro. "O Estado precisa estar um passo à frente", defende.
A mensagem ganha peso em um contexto em que PCC e Comando Vermelho, as duas maiores facções do país, apresentam modelos de atuação distintos — analisados pelo autor —, mas compartilham a mesma capacidade de adaptação que desafia as estruturas tradicionais de segurança.
O que o eleitor deveria cobrar dos candidatos?
Em ano eleitoral, Gennari acredita que o eleitor deveria exigir propostas concretas, e não slogans. Mais do que prometer reforço no policiamento, os candidatos precisariam apresentar planos de integração das forças, fortalecimento da inteligência e enfrentamento financeiro das organizações criminosas.
"O debate sobre segurança pública precisa deixar de ser apenas quantitativo para se tornar estratégico", conclui o especialista, que participou de debates na CBN e em veículos nacionais defendendo inteligência policial, prevenção e investigação financeira como caminhos possíveis para um novo paradigma de segurança no país.
Sobre Ricardo Gennari
Ricardo Ferreira Gennari é especialista em segurança pública e autor do recém-lançado "Inteligência do Crime Organizado Brasileiro – Suas Parcerias e Sua Expansão pelo Mundo", obra da Editora Haryon que analisa a evolução das organizações criminosas e os desafios do enfrentamento.
Mestre em Políticas Públicas pela Fundação Getulio Vargas (FGV), é diretor executivo da Tróia Intelligence, consultoria de segurança e inteligência, e atua como estrategista e professor de contrainteligência empresarial.
Foi conselheiro do Conselho Regional de Economia do Estado de São Paulo (Corecon-SP) entre 2022 e 2024.
Com passagens por debates na CBN, Jovem Pan e entrevistas em veículos nacionais, Gennari defende um novo paradigma de segurança pública baseado em inteligência, tecnologia, integração das forças e investigação financeira — uma agenda que ganha ainda mais relevância em ano eleitoral.

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