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Senador tenta conter os danos políticos, mas cada nova versão sobre o relacionamento com o banqueiro Daniel Vorcaro aprofunda o desgaste e acende o alerta no PL
Visita incômoda
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) passou a quarta-feira em uma maratona de ligações e reuniões com aliados na tentativa de conter a crise política aberta pela revelação de seus diálogos com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que teve a liquidação decretada no fim do ano passado. No centro da tempestade, um áudio em que o pré-candidato à Presidência da República pede dinheiro ao empresário para financiar Dark Horse, filme que pretende retratar a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. Para aliados, o tom entre os dois e a naturalidade do pedido revelam uma intimidade que o senador insiste em minimizar.
Versões que se desmancham
A estratégia adotada por Flávio Bolsonaro foi clara: reconhecer o ocorrido, mas tentar reduzir seu significado político. Ele afirma que tudo o que havia para ser revelado já veio à tona e que não há mais nenhum capítulo novo da relação com Vorcaro a ser conhecido. O discurso, porém, colide com uma sucessão de fatos. Matérias jornalísticas publicadas nos últimos dias mostraram que o senador esteve na residência do banqueiro em São Paulo no final de novembro do ano passado, logo após Vorcaro deixar a prisão sob uso de tornozeleira eletrônica. Confrontado, Flávio mudou a versão e disse que a visita teve como objetivo colocar um ponto final na parceria comercial.
Negócio de milhões
O que está em jogo vai muito além de um encontro. De acordo com a publicação do Intercept Brasil que deflagrou a crise, Flávio Bolsonaro negociou com Vorcaro pagamentos que somam valores milionários. Em uma das conversas, o senador pede recursos para bancar a produção do filme sobre seu pai. A quantia mencionada — que, segundo apurações, poderia tornar o longa o mais caro da história do cinema brasileiro — escancara a dimensão financeira da relação entre o político e o banqueiro. A defesa do senador alega que se tratava de um contrato comercial regular e que jamais houve qualquer ilicitude.
Pesquisas acendem alerta
Fora dos gabinetes, o impacto já é mensurável. Pesquisas eleitorais divulgadas nesta semana registram queda nas intenções de voto em Flávio Bolsonaro nos cenários de segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O levantamento da AtlasIntel, divulgado na terça-feira, mostra Lula com 48,9% contra 41,8% do senador. Pesquisa da Vox Populi, divulgada na quarta-feira, aponta movimento semelhante, com vantagem folgada para o atual presidente. Até o dia 13 de maio, quando o Intercept Brasil publicou a reportagem com os áudios e mensagens, Flávio aparecia tecnicamente empatado com Lula e com chances reais de vitória. A cúpula do PL já acionou a Justiça para contestar os números da AtlasIntel e, segundo fontes, estuda fazer o mesmo com a Vox Populi.
Crise de confiança
Nas conversas reservadas com correligionários, o tom é de apreensão. Aliados diretos do senador avaliam que cada nova revelação fragiliza a imagem de moderação que a pré-campanha tentou construir. O herdeiro de Jair Bolsonaro vinha apostando em um discurso de diálogo com setores do centro político e do mercado financeiro. O envolvimento com Vorcaro — preso sob acusação de comandar uma organização criminosa que praticava fraudes financeiras — coloca em xeque essa estratégia. A desconfiança já ronda o partido, e não são poucos os que avaliam que o estrago vai além das pesquisas.
O "bombástico" de Renan Calheiros
Enquanto Flávio Bolsonaro tenta conter os danos, o escândalo do Banco Master ganha novos contornos. Em audiência na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, o presidente do colegiado, senador Renan Calheiros (MDB-AL), fez uma denúncia que promete abrir mais uma frente de investigação. Segundo ele, o ex-presidente da Câmara, deputado Arthur Lira (PP-AL), recebeu propina de operadores ligados ao Master, ao BRB e ao ex-governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB-DF). Calheiros afirmou que Lira teria recebido uma casa avaliada em mais de R$ 30 milhões no Lago Sul e adquirido um jatinho, cuja metade pertenceria ao empresário Leonardo Valverde, apontado como operador do esquema.
A emenda suspeita
A denúncia de Renan Calheiros tem um alvo específico: uma emenda apresentada pelo atual presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), que obriga fundos previdenciários a investirem em empresas de ativos ambientais e créditos de carbono. Segundo o senador, a proposta beneficiaria diretamente os interesses privados de Daniel Vorcaro e teria sido aprovada sob forte lobby no Congresso Nacional dentro da Lei do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases do Efeito Estufa. "Arthur Lira recebeu contrapartida para aprovar a emenda. Vou exigir investigação até o fim", declarou Calheiros. A lei já é questionada no Supremo Tribunal Federal e conta com três votos pela inconstitucionalidade.
Os números que assombram
O impacto político combinado das revelações já começa a desenhar um cenário eleitoral mais adverso para a direita. Além da queda de Flávio Bolsonaro nas pesquisas nacionais, a exposição do caso no noticiário internacional — a BBC, o jornal britânico The Guardian e a agência Reuters dedicaram amplo espaço ao escândalo — amplifica a crise. Para analistas políticos ouvidos pela reportagem, o desgaste não se limita ao senador. Atinge o núcleo duro do bolsonarismo e enfraquece a narrativa de combate à corrupção que sempre foi bandeira do grupo.
O que está por vir
Fontes próximas às investigações dão conta de que novos materiais — incluindo mensagens de texto e registros de transferências bancárias — ainda podem vir a público. O senador e seus assessores jurídicos trabalham para evitar que novos vazamentos ocorram, mas admitem, em off, que não têm controle sobre o que já está em poder da Polícia Federal e do Ministério Público, que investigam as operações do Banco Master desde o ano passado. O temor no entorno de Flávio é de que a cada novo capítulo, a explicação fique mais difícil e o isolamento político, maior.
A maior vítima do Caso Master, até agora, não é o banqueiro preso, mas a credibilidade de um pré-candidato à Presidência da República que construiu sua trajetória política sobre o discurso da honestidade. Cada áudio, cada mensagem, cada visita revelada desmonta, peça por peça, a versão oficial apresentada pelo senador. No tabuleiro político, Flávio Bolsonaro tropeça nas próprias contradições. E o relógio eleitoral não para.
Fontes:
BBC News Brasil — As mudanças nas versões de Flávio Bolsonaro sobre sua ligação com Daniel Vorcaro (14.mai.2026)
Intercept Brasil — Reportagem com áudios e mensagens entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro (13.mai.2026)
AtlasIntel — Pesquisa nacional de intenção de voto (19.mai.2026)
Vox Populi — Pesquisa nacional de intenção de voto (19.mai.2026)
Agência Brasil — "É um caso de polícia", diz Lula sobre relação entre Flávio e Vorcaro (15.mai.2026)
Poder360 — Lula tem 48,9% contra 41,8% de Flávio no 2º turno, diz AtlasIntel (19.mai.2026)
CBN — Valor pedido por Flávio a Vorcaro para filme sobre Bolsonaro tornaria longa o mais caro da história do Brasil (14.mai.2026)
O Jornal Extra — Renan Calheiros diz que Arthur Lira recebeu contrapartida por emenda (19.mai.2026)
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