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O céu abriu sobre a Lagoa Rodrigo de Freitas. Depois de um sábado nublado, o sol chegou no segundo dia do Festival das Águas — Dragon Boat Brasil 2026, como um sinal de que a união entre culturas encontra seu tempo certo.
E foi debaixo desse sol carioca que o Jornal da República conversou com uma mulher que personifica, na própria trajetória, o espírito de superação que o evento celebra.
Andreia de Fátima — ou, como é conhecida no meio marítimo, a Comandante Andréa de Fátima Bacala, Capitã de Longo Curso e presidente do Instituto Cultural da Marinha Mercante — não veio apenas prestigiar a competição.
Ela veio afirmar, com a serenidade de quem já navegou mares de todos os continentes, que o Dragon Boat é muito mais do que uma corrida de barcos.
"É um complexo de coisas boas, assim como a relação Brasil-China", disse ela, com a Lagoa ao fundo e os tambores dos barcos-dragão ecoando como batida de um coração coletivo.
Esporte, cultura e educação: o tripé que une dois países.
O Festival das Águas, realizado nos dias 20 e 21 de junho no Estádio de Remo da Lagoa, não é apenas uma competição esportiva.
Com entrada franca e programação das 9h às 18h, o evento reúne 26 equipes de vários estados em provas de 200 metros — masculinas, femininas, mistas e, em um dos capítulos mais emocionantes da programação, as Remadoras Rosas, mulheres em tratamento ou recuperação do câncer de mama.
Para Andreia de Fátima, que comanda o Instituto Cultural da Marinha Mercante — inaugurado em fevereiro de 2026 no Centro Cultural Justiça Federal —, a presença no festival é a materialização de uma visão: a de que cultura, educação e esporte caminham juntos quando o objetivo é aproximar nações.
"O Instituto está apoiando e fazendo parte desse primeiro ano de festival. E já estamos programando para o próximo ano", revelou. "Esses eventos são muito importantes para o Brasil, que divulga e celebra a cultura e o esporte."
A fala da comandante encontra eco nos números. O Dragon Boat é reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, com origens que remontam aos séculos III e V a.C., na China antiga.
A modalidade está associada ao Festival do Barco-Dragão, celebrado há mais de dois mil anos em homenagem ao poeta Qu Yuan, símbolo de lealdade e patriotismo na cultura chinesa.
Um estado inteiro abraça a cultura chinesa.
Um dos anúncios mais significativos feitos durante o evento foi a decretação do Dia Estadual do Dragon Boat no Rio de Janeiro. A medida, que conta com apoio do governo do estado, da prefeitura e de secretarias municipais, insere oficialmente a modalidade no calendário fluminense.
"Já foi decretado o dia estadual do evento Dragon Boat aqui no Rio de Janeiro. "Essa união, essa parceria com a cultura Brasil-China faz o sucesso do evento", destacou Andreia.
A aproximação entre Brasil e China vive um momento estratégico. Em 2026, os dois países celebram o Ano Cultural Brasil-China, e o Dragon Boat é uma das pontes mais visíveis dessa integração.
A presença da cônsul-geral da China no Rio de Janeiro, Tian Min, e a cerimônia do Batismo do Dragão — ritual milenar que abençoa as águas e os barcos antes das competições — deram o tom solene do encontro entre as duas culturas.
A realização técnica do evento ficou a cargo da Confederação Brasileira de Canoagem e da Federação de Canoagem do Estado do Rio de Janeiro, com patrocínio da State Grid, uma das maiores empresas de energia do mundo, de capital chinês.
Inclusão que atravessa gerações e oceanos.
Um dos diferenciais do Festival das Águas é seu caráter intergeracional. Diferentemente de competições esportivas convencionais, o Dragon Boat acolhe participantes de todas as idades.
"Esse evento em específico não é só para criança. "Vai até 100 anos de idade", afirmou a comandante. "O nosso convite é trazer a população do Rio de Janeiro e visitantes para participar com a gente no próximo ano."
A modalidade é reconhecida internacionalmente por seus benefícios terapêuticos. Estudos publicados em periódicos como o Frontiers in Sports and Active Living demonstram que a prática regular do Dragon Boat reduz significativamente os níveis de cortisol em sobreviventes de câncer de mama, melhora a função cardiorrespiratória e promove bem-estar emocional por meio da sincronia rítmica da remada.
As Remadoras Rosas são a prova viva desse potencial. Mulheres que enfrentam ou enfrentaram o câncer de mama encontram no barco-dragão não apenas um instrumento de reabilitação física, mas uma comunidade de acolhimento e reconstrução da autoestima.
O Hospital Israelita Albert Einstein já promoveu vivências da modalidade como parte do tratamento oncológico, e o Programa de Reabilitação do Núcleo de Oncologia do Amazonas utiliza a canoagem como terapia complementar.
Além disso, o festival promove ações de inclusão social com crianças da Rocinha, que tiveram a oportunidade de ter o primeiro contato com modalidades náuticas e com o próprio espaço da Lagoa — um símbolo de que o esporte também é ferramenta de transformação social.
Gastronomia, cultura e o encontro de sabores.
O Festival das Águas não se limita às competições. A programação inclui uma feira cultural com artesanato, produtos sustentáveis e iniciativas de comércio consciente, além de barracas de comida típica chinesa e brasileira.
"Tem barraquinhas com comidas típicas."
A pessoa consegue se divertir, e é pela manhã até o final da tarde", explicou Andreia, em um convite direto às famílias cariocas.
A fusão gastronômica entre Brasil e China é um dos pontos altos do evento, que oferece desde pratos tradicionais chineses até iguarias brasileiras, criando uma experiência sensorial que acompanha o ritmo dos tambores e o colorido dos barcos-dragão.
A mulher que comanda o mar e a memória
Andreia de Fátima Bacala não é apenas uma apoiadora do festival. Sua história pessoal é um testemunho de superação que dialoga diretamente com o espírito do Dragon Boat.
Capitão de Longo Curso — a mais alta patente da Marinha Mercante —, ela iniciou sua trajetória como Moço de Convés, percorreu todos os continentes, atuou intensamente no setor offshore e enfrentou os desafios de um setor onde as mulheres representam menos de 2% da força de trabalho embarcada no mundo.
Em fevereiro de 2026, fundou o Instituto Cultural da Marinha Mercante, a primeira organização cultural e museológica dedicada à preservação da memória, da cultura e da identidade da Marinha Mercante Brasileira.
A cerimônia de inauguração, realizada no Centro Cultural Justiça Federal, no Centro do Rio, contou com a presença de diplomatas, cônsules e autoridades estaduais.
O Instituto criou o Espaço CLC Andréa de Fátima, dedicado à valorização da trajetória das mulheres na Marinha Mercante, e atua nas áreas de cultura marítima, educação, pesquisa, economia do mar e diplomacia oceânica. "O lugar da mulher é onde ela quiser estar — no convés, na casa de máquinas, no comando, nos espaços de decisão", afirma ela em sua mensagem institucional.
Sua atuação à frente do Instituto já inclui visitas institucionais ao Ministério de Portos e Aeroportos, participação no TurisMall com corpo diplomático para debater Economia do Mar, e a promoção de iniciativas voltadas à descarbonização das operações marítimas e à construção de ambientes profissionais mais justos e inclusivos.
Para saber mais sobre o Instituto Cultural da Marinha Mercante, acesse icmarinhamercante.com.br e acompanhe as redes sociais @ic.mercante.
Site oficial Danniel Librelon — danniellibrelon.com.br

Por Robson Talber @robsontalber
Repórter Renata Barbosa @beleza.naotemidade
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