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O homem que desmontou a máquina dos sequestros no Rio: a história não contada do Coronel Perini
Em entrevista à Ultima Hora Online TV, o oficial reformado da PMERJ revela os bastidores da epidemia de sequestros dos anos 1990, o método inovador que salvou 15 vidas na Zona Oeste e sua participação na criação do Disque Denúncia
A epidemia que aterrorizou o Rio
O Rio de Janeiro viveu, entre o final dos anos 1980 e meados dos anos 1990, uma das páginas mais sombrias de sua história criminal. Os sequestros deixaram de ser crimes episódicos para se tornar uma indústria do medo. Só em 1995, foram cerca de 150 ocorrências registradas — uma média de um sequestro a cada dois dias e meio.
Empresários, familiares de celebridades e jovens da alta sociedade carioca tornaram-se alvos de organizações criminosas que viam no resgate uma fonte de lucro fácil e de alto retorno. O estado, à época, não dispunha de estrutura tecnológica nem de inteligência para enfrentar a onda.
Foi nesse cenário que um oficial da Polícia Militar, com 34 anos de carreira, decidiu agir onde o sistema oficial ainda não chegava.
O método que virou arma: mandado de segurança e panfletagem
Coronel Perini, que comandou unidades operacionais e administrativas da PMERJ ao longo de mais de três décadas, desenvolveu uma estratégia que fugia completamente do manual tradicional de combate aos sequestros.
Sem acesso a grampos telefônicos ou sistemas de rastreamento — tecnologias que hoje são corriqueiras —, Perini utilizou dois instrumentos que se mostraram decisivos: o mandado de segurança e o mandado de busca, combinados com uma estratégia de panfletagem em áreas dominadas pelo narcotráfico.
"Com um papel amarelo e telefones confiáveis, conseguimos debelar esse tipo penal horroroso", afirmou o coronel na entrevista.
A lógica era simples e ousada: em vez de esperar passivamente por pistas, a polícia ia até o território do crime, distribuía panfletos com informações e números de contato, e pressionava os criminosos pelo cerco informacional. O resultado foram 15 vidas salvas — todas retiradas de cativeiros na região de Campo Grande.
Os casos que marcaram época
A transcrição da entrevista revela uma sequência de operações bem-sucedidas que até hoje impressionam pela ousadia e eficiência:
Marcos Queresa, da Churrascaria Oase — Um dos resgates mais emblemáticos. A vítima foi localizada e libertada em uma ação que se tornou referência no combate aos sequestros na Zona Oeste.
O menino de 17 anos da Ilha do Governador — Saindo da escola, o adolescente foi sequestrado e levado para um sítio em Rio da Prata, em Campo Grande. A Polícia Militar conseguiu retirá-lo do cativeiro em uma semana.
Carolina, da Sociedade Hípica Brasileira — Em 26 de outubro de 1995, Carolina Dias Leite, 18 anos, foi sequestrada após um treino de equitação na Lagoa. Levada para o Conjunto Habitacional de Santa Maria, em Campo Grande, foi resgatada em apenas 24 horas. O caso, segundo o livro "Os Grandes Casos do Disque Denúncia", do jornalista Mauro Ventura, foi o "divisor de águas" que consolidou a credibilidade do Disque Denúncia, que tinha apenas três meses de existência.
Inácio Loyola, da Padaria Biruta — O empresário foi sequestrado e também resgatado pela equipe do coronel, em mais uma operação bem-sucedida na região.
O sequestro que quase tirou Romário da Copa
Embora não diretamente ligado às operações de Perini, um dos casos que mais marcou o período foi o sequestro de Edevair de Souza Faria, pai do atacante Romário, em 2 de maio de 1994.
Edevair foi raptado ao sair do bar "Garota do Quitungo", na Vila da Penha, Zona Norte do Rio. Os sequestradores exigiram US$ 7 milhões de resgate. Romário, que se preparava para a Copa do Mundo nos Estados Unidos, declarou publicamente que não jogaria o torneio se o pai não fosse libertado.
Seis dias depois, a Polícia Militar localizou o cativeiro e libertou Edevair sem pagamento de resgate. Romário embarcou para a Copa, tornou-se artilheiro e o Brasil conquistou o tetracampeonato. O episódio é um dos mais dramáticos da história do futebol mundial.
O sequestro de Abílio Diniz e o factóide eleitoral
Outro caso que o coronel mencionou na entrevista foi o sequestro de Abílio Diniz, empresário do Grupo Pão de Açúcar, em 11 de dezembro de 1989 — dia do primeiro turno das primeiras eleições presidenciais democráticas após a ditadura militar.
Diniz foi sequestrado por um grupo integrado por guerrilheiros do MIR-Político (Chile) e das FPL (El Salvador), além de dois canadenses, David Spencer e Christine Lamont. O resgate exigido foi de US$ 30 milhões, que seriam usados para financiar a guerrilha salvadorenha.
O caso ganhou contornos políticos quando a polícia apresentou camisetas do PT e material de campanha de Lula supostamente encontrados em imóveis usados pelos sequestradores — fato que, segundo analistas, influenciou o segundo turno das eleições, vencido por Fernando Collor.
Diniz ficou sete dias em cativeiro e foi resgatado pela polícia. O episódio é até hoje objeto de controvérsia e análise histórica.
O berço do Disque Denúncia
A epidemia de sequestros no Rio gerou uma resposta que se tornaria referência nacional: o Disque Denúncia. Criado em 1º de agosto de 1995, o serviço foi idealizado pelo publicitário José Antônio Borges Fortes, o Zeca Borges, e contou com a participação ativa de Coronel Perini, que se apresenta como um dos precursores da iniciativa.
"Até hoje sou convidado para fazer palestras sobre essa modalidade criminosa horrível. Frustrante e agonizante para as famílias. Eu sou um dos precursores do Disque Denúncia", afirmou o coronel.
O número 225-3177 (que depois se tornaria 2253-1177) tornou-se uma linha direta entre a população e as forças de segurança, permitindo denúncias anônimas que ajudaram a desarticular dezenas de quadrilhas.
Em 30 anos de existência, o Disque Denúncia já colaborou para a prisão de mais de 21 mil criminosos, a recuperação de quase 5 mil veículos, a apreensão de mais de 42 mil armas e cerca de 31 toneladas de drogas.
O legado de um combatente
Com 34 anos de carreira na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, Coronel Perini comandou unidades operacionais e administrativas e atuou na linha de frente do combate aos sequestros em um dos períodos mais violentos da história fluminense.
Sua contribuição vai além dos números: o método que desenvolveu — combinando instrumentos legais, ação territorial e engajamento comunitário — influenciou diretamente a criação de políticas públicas de segurança que perduram até hoje.
"Conseguimos com um papel amarelo, com telefones confiáveis, debelar esse tipo penal horroroso", resume o coronel, numa frase que sintetiza a capacidade de fazer muito com pouco — característica dos grandes estrategistas da segurança pública brasileira.
Biografia: Coronel Perini
O Coronel Perini é oficial reformado da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ), com 34 anos de serviço ativo. Ao longo da carreira, comandou unidades operacionais e administrativas da corporação, com atuação destacada no combate à extorsão mediante sequestro durante a epidemia que assolou o estado entre o final dos anos 1980 e meados dos anos 1990.
Foi um dos precursores do Disque Denúncia, serviço criado em 1995 que se tornou referência nacional no combate ao crime organizado. Desenvolveu método inovador de combate aos sequestros baseado em mandados de segurança e busca combinados com panfletagem estratégica em áreas dominadas pelo narcotráfico, resultando no resgate de 15 vítimas na região de Campo Grande e adjacências.
Participa ativamente de grupos de estudo e debate sobre segurança pública, sendo presença constante em eventos capitaneados por especialistas e autoridades da área, como o grupo do General Pazoelo. Continua sendo convidado para palestras sobre sua experiência no combate aos sequestros, compartilhando o conhecimento acumulado em mais de três décadas de serviço à sociedade fluminense.
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