Pazuello abre os arquivos da pandemia, defende a indústria nacional e mira a reeleição com a bandeira da segurança pública

Mais votado do Rio em 2022, Pazuello mira a reeleição com duas bandeiras: segurança e defesa

Pazuello revisa os bastidores da pandemia

Em entrevista ao podcast "No ritmo com você", o general e deputado federal abre os arquivos da corrida por respiradores, explica como a base de defesa produziu equipamentos a menos de 20% do preço importado, reafirma a atuação militar na crise de Manaus e apresenta os processos que ainda tramitam na Justiça

O general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde e hoje deputado federal pelo Rio de Janeiro, usou quase uma hora de conversa para reconstruir, em primeira pessoa, a cronologia de decisões mais delicada da história recente da saúde pública brasileira. Na entrevista, Pazuello detalhou o estado do Ministério da Saúde quando assumiu a pasta, expôs a estratégia de mobilização da indústria de defesa para fabricar respiradores em território nacional e voltou a defender a atuação das Forças Armadas durante o colapso de Manaus. Foi, ao mesmo tempo, um balanço de gestão e um movimento de campanha.

Candidato à reeleição pelo PL, com o número 2212, o general chega à disputa de outubro como um dos nomes de maior densidade eleitoral da política fluminense. Em 2022, ele foi o segundo deputado federal mais votado do Rio, com 205.324 votos, segundo o G1. A entrevista, conduzida em tom de conversa e patrocinada pelo empresário José Curi, foi transmitida pelos canais Claronet, TV Multiplay e YouTube, num formato que mistura memória, defesa pessoal e proposta política.

O ministério vazio no olho do furacão

Pazuello descreve um cenário de estrutura abandonada. Segundo o general, o prédio do Ministério da Saúde estava praticamente vazio quando assumiu o comando da pasta, com menos de 15% a 20% do efetivo de servidores em trabalho presencial. A afirmação sustenta a tese central de sua narrativa: a máquina pública foi remontada sob pressão, no pior momento sanitário do país, com equipes reduzidas e prazos impossíveis.

O relato ganha contorno quando confrontado com a cronologia oficial. Pazuello chegou à pasta como secretário-executivo em abril de 2020, em nomeação feita pelo então ministro Nelson Teich, e assumiu o cargo de ministro em setembro daquele ano. Foi o terceiro ministro da Saúde do governo Bolsonaro durante a pandemia — uma troca de comando que, por si só, sinaliza o grau de instabilidade da gestão.

A corrida mundial por respiradores

No núcleo da entrevista está a disputa global por respiradores pulmonares, equipamento que se tornou o símbolo da escassez sanitária em 2020. Pazuello afirma que o ministério conseguiu distribuir 18.750 respiradores na primeira metade daquele ano, número que apresenta como prova de esforço logístico diante de um mercado internacional travado.

O general relata dois bloqueios concretos. O primeiro teria vindo da China, com aeronaves carregadas de equipamentos desviadas por autoridades americanas. O segundo teria vindo da Europa, de onde o Brasil não teria conseguido fechar nenhuma compra. São alegações apresentadas por ele próprio, em tom de desabafo, e que ilustram o ambiente de disputa geopolítica por insumos médicos — cenário amplamente documentado por veículos como a BBC e a Folha de S.Paulo naquele período.

A indústria de defesa entra em cena

A resposta brasileira, segundo Pazuello, veio de onde ninguém procurava: o complexo industrial militar. Ele relata ter solicitado reunião com o Ministério da Defesa para ativar a base industrial de defesa do país, apostando na engenharia reversa para reproduzir localmente a tecnologia dos ventiladores.

O trabalho teria mobilizado engenheiros militares formados no Instituto Militar de Engenharia (IME) e no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), duas das instituições mais rigorosas do ensino técnico nacional. O resultado, na versão do general, foi expressivo: os respiradores fabricados no Brasil teriam custado menos de 20% do preço dos importados, combinando soberania tecnológica e economia de recursos públicos.

O argumento tem fundamento estrutural. O Ministério da Defesa mantém, por política oficial, o objetivo de capacitar a indústria nacional para conquistar autonomia em tecnologias estratégicas. A produção emergencial de respiradores em 2020 é citada até hoje como exemplo de como essa base pode ser redirecionada para demandas civis em situações de crise.

Logística militar e a requisição de medicamentos

A conversa também revelou os métodos de abastecimento adotados no auge da emergência. Pazuello afirma que o governo requisitou estoques de fábricas privadas e de empresas internacionais instaladas no Brasil, posicionando tropas em unidades produtivas para garantir que os medicamentos não fossem desviados.

Em um dos episódios narrados, insumos teriam sido comprados do Uruguai e transportados ao país em comboios militares. A descrição reforça o perfil que marcou sua gestão: o uso da estrutura de logística do Exército como ferramenta de resposta rápida — traço coerente com a trajetória de quem comandou o 20º Batalhão Logístico Paraquedista, no Rio de Janeiro.

Manaus, a CPI e a versão do general

Sobre o colapso do sistema de saúde do Amazonas, em janeiro de 2021, Pazuello reafirmou a defesa da atuação das Forças Armadas e afirmou que narrativas foram distorcidas para atingir o então presidente Jair Bolsonaro. A crise do oxigênio em Manaus, que deixou pacientes sem assistência e chocou o país, tornou-se o ponto mais sensível de sua passagem pelo ministério.

Os registros oficiais mostram que a apuração foi imediata. A Procuradoria-Geral da República abriu apuração preliminar sobre a conduta do ministro, a Polícia Federal instaurou inquérito e a CPI da Pandemia o ouviu por dois dias. Em depoimento, o ex-ministro afirmou que não foi alertado a tempo pelo governo do Amazonas sobre a iminência da falta de oxigênio — versão rebatida por senadores e por reportagens que apontaram que ele sabia dos problemas desde 8 de janeiro, segundo a Folha de S.Paulo.

Ao ser questionado sobre a exoneração, sua resposta entrou para os anais do inquérito parlamentar: "missão cumprida". A frase, repetida exaustivamente na imprensa, consolidou a leitura de que o general assumia a gestão como uma operação militar encerrada, e não como uma política pública a ser avaliada.

Vacinação e as comparações internacionais

No campo da imunização, Pazuello recorreu a comparações internacionais para defender o desempenho brasileiro. Citou países como Inglaterra, Itália, Peru, Bolívia e México, que, em determinado momento do cronograma global, registravam cobertura vacinal de 4% a 5%, enquanto o Brasil superava a média mundial.

O dado ajuda a entender o contraste que o ex-ministro explora em suas falas: um começo turbulento e atrasado, seguido de um ritmo acelerado de aplicação. O Brasil encerrou 2022 com mais de 500 milhões de doses aplicadas, tornando-se um dos países que mais vacinaram no mundo em números absolutos, segundo dados do consórcio de veículos de imprensa.

Os processos e o que diz a Justiça

A entrevista também funciona como pano de fundo para um conjunto de procedimentos judiciais que seguem em tramitação — e que o deputado costuma tratar como parte do enfrentamento político da pandemia. O quadro abaixo reúne as principais decisões reais, com data, órgão e efeito prático.

Data Órgão e decisão Efeito prático
25/01/2021 STF — Lewandowski abre inquérito a pedido da PGR Apura eventual omissão na condução da pandemia, com foco na crise de Manaus
15/02/2021 STF — Lewandowski autoriza a PF a apurar gastos com cloroquina Amplia a investigação para a compra e a distribuição dos medicamentos
24/03/2021 STF — inquérito remetido à Justiça Federal de Brasília Com a saída do ministério, Pazuello perde o foro privilegiado e o caso desce de instância
19/05/2021 STF — HC 201912, relator Lewandowski Garante ao ex-ministro o direito de ficar em silêncio durante o depoimento à CPI
02/07/2021 MPF — ação de improbidade administrativa Pede ressarcimento de R$ 122 milhões; aponta R$ 3,75 milhões em cloroquina
20 a 26/10/2021 Senado — relatório final da CPI da Pandemia Recomenda indiciamento por epidemia com resultado morte, emprego irregular de verbas, prevaricação e comunicação falsa de crime
10/07/2023 STF — decisão do ministro Gilmar Mendes Anula arquivamento parcial e determina que a PGR reavalie os indícios

A leitura jurídica do conjunto exige cautela. O indiciamento sugerido pela CPI é uma peça política, não uma condenação: cabia à PGR decidir se apresentava denúncia, e o processo seguiu para a primeira instância com a perda do foro. A ação de improbidade administrativa proposta pelo MPF tramita na Justiça Federal e pede o ressarcimento aos cofres públicos por gastos considerados irregulares — tese que a defesa do general rejeita de forma categórica.

Para o STF, o ponto decisivo é o elemento subjetivo. A jurisprudência consolidada exige comprovação de dolo específico para condenações por improbidade administrativa, e é exatamente nessa fronteira que a batalha processual se desenrola. A decisão de Gilmar Mendes, em 2023, reabriu a discussão sobre a omissão do governo na pandemia, mas não estabeleceu responsabilidade individual.

Emendas, atuação na Câmara e a disputa de outubro

Na parte final da entrevista, o deputado apresentou uma diretriz objetiva para o uso de suas emendas parlamentares: os recursos vão exclusivamente para segurança pública e defesa, sem repasses a organizações não governamentais e organizações sociais. A posição alinha discurso e prática: levantamento do Estadão mostrou que parlamentares de direita, entre eles o general, concentram a maior fatia das emendas destinadas à segurança pública.

No mandato, Pazuello acumula funções de peso. Preside a frente parlamentar pela Operação Acolhida, é relator de matérias estratégicas na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN) e na Comissão de Segurança Pública (CSPCCO), e assinou projetos como o PL 1269/2026, que altera o Código de Defesa do Consumidor para ampliar a transparência nas ofertas. O perfil é de um parlamentar especializado em defesa, segurança e controle do gasto — não em saúde.

A pauta eleitoral combina o capital político da gestão na pandemia com as bandeiras das Forças Armadas e da segurança pública. Em ano de campanha, a entrevista cumpre uma função clara: reposicionar o ex-ministro como gestor de crise, blindar o legado militar e isolar os processos judiciais no terreno da disputa política.

A Operação Acolhida e o reconhecimento internacional

Embora a conversa tenha girado em torno da pandemia, a trajetória do general guarda um capítulo de reconhecimento internacional. Coordenada por Pazuello a partir de fevereiro de 2018, a Operação Acolhida é apontada pelo ACNUR, a agência da ONU para refugiados, como referência mundial em coordenação humanitária, com mais de 157 mil pessoas interiorizadas para municípios brasileiros.

Para o Exército Brasileiro, a operação "alcançou reconhecimento internacional como resposta mais que adequada e foi apontada como exemplo". É o contraste que o deputado explora sempre que pode: uma gestão humanitária elogiada pela ONU de um lado, e uma pandemia atravessada em meio a investigações do outro.

Bio do entrevistado

Eduardo Pazuello é general de divisão da reserva do Exército e deputado federal pelo Rio de Janeiro. Nascido na capital fluminense em 1963, formou-se na Academia Militar das Agulhas Negras em 1984 e construiu mais de três décadas de carreira nas Forças Armadas, com passagens pelo comando do 20º Batalhão Logístico Paraquedista e pela coordenação das tropas do Exército nos Jogos Olímpicos de 2016. Ganhou projeção nacional à frente da Operação Acolhida, elogiada internacionalmente pelo ACNUR, e chegou ao Ministério da Saúde em 2020, no auge da pandemia. Em 2022, foi o segundo deputado federal mais votado do Rio de Janeiro, com mais de 205 mil votos. No Congresso, dedica-se às pautas de segurança pública, defesa e transparência, preside a frente parlamentar pela Operação Acolhida e conduz relatorias estratégicas na CREDN e na Comissão de Segurança Pública.

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Por Jornal da República em 15/09/2026
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