Mendonça explica ao STF ordem para identificar pessoas em relatório da PF que cita Alexandre de Moraes

Legenda da foto,O STF definiu que apenas 30 veículos de comunicação poderão acompanhar o julgamento dentro do plenário

Mendonça explica ao STF ordem para identificar pessoas em relatório da PF que cita Alexandre de Moraes

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça enviou à Presidência da Corte explicações sobre as circunstâncias da decisão em que determinou que a Polícia Federal identificasse pessoas mencionadas nas trocas de mensagens com o banqueiro Daniel Vorcaro — como parte das investigações do Caso Master.

O documento citava o ministro do STF Alexandre de Moraes como um dos interlocutores de Vorcaro.

Ex-controlador do banco, Vorcaro foi preso em novembro de 2025. Ele é investigado por suspeita de cometer fraudes financeiras estimadas em R$ 12,2 bilhões.

Esta manifestação foi apresentada um dia antes da sessão na Corte em que os ministros vão discutir a petição 16.662, aberta depois que Mendonça tornou públicas, em 1º de setembro, mensagens que associam Moraes a Vorcaro.

Ao justificar a decisão, Mendonça afirmou que a intimação direta e presencial dos delegados foi necessária por cautela, "sem imputar qualquer suspeita a quem quer que seja".

Ele afirma que, de acordo com as informações do relatório policial, o diretor-geral da PF, Andrei Augusto Passos Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gustavo Gonet Branco, teriam sido mencionados em nota enviada por Vorcaro a um interlocutor "até então não identificado."

Mendonça reiterou que a investigação deveria observar a divisão das atividades de inteligência e polícia judiciária, a preservação do sigilo e o princípio da funcionalidade.

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, chegou a pedir a Mendonça que declarasse nula a decisão que levou a PF a produzir o relatório com as mensagens.

Na manifestação, apresentada em 1º de setembro, Gonet afirma que a investigação determinada por Mendonça — relator do inquérito que apura as fraudes do Banco Master — extrapolou os limites da atuação de um magistrado na chamada fase pré-processual.

Gonet sustenta que o próprio STF deveria ser responsável por decidir sobre uma eventual investigação de um de seus ministros.

Moraes alega 'vingança'

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Na mesma data, o ministro Alexandre de Moraes enviou ao tribunal uma manifestação na qual acusa o ministro André Mendonça de "vingança" e de uso "político-eleitoral" do inquérito.

Moraes havia recebido ordem do ministro Edson Fachin para se manifestar sobre as revelações referentes ao inquérito do Banco Master que mergulharam o tribunal em uma crise institucional sem precedentes.

Em um ofício de 44 páginas separado em 121 pontos, enviado na segunda-feira (14/09) a Fachin, Moraes usa duras palavras contra Mendonça e afirma não ter cometido nenhuma irregularidade.

Ele também diz ser alvo de vingança político-eleitoral.

"Apesar da farsa montada e divulgada, não existe absolutamente nada e todos sabem a motivação político-eleitoral dessas criminosas mentiras. VINGANÇA. Está muito clara a tentativa de vingança dos aliados daqueles que tentaram acabar com a Democracia e o Estado de Direito e foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal", afirma Moraes em seu ofício.

"A tentativa de Golpe não se encerrou em 8 de janeiro de 2023, simplesmente mudou seu modus operandi. Mas assim como na primeira vez, o Supremo Tribunal Federal saberá resistir e sairá fortalecido, mantendo a Defesa plena da Constituição, do Estado de Direito e da Democracia."

Moraes argumenta que não houve nenhuma interferência de sua parte para ajudar Daniel Vorcaro antes da prisão do banqueiro em novembro.

"Ressalte-se que a prisão [de Vorcaro] não foi realizada em um aeroporto clandestino, em uma pista de pouso no interior do Brasil. A prisão foi realizada no momento do embarque na alfândega do maior aeroporto do País, com passaporte verdadeiro e o investigado portando seu próprio celular, facilitando, dessa maneira, a apreensão e as investigações", diz Moraes.

O que dizem as mensagens?

Os diálogos mostram que o banqueiro Daniel Vorcaro cobrava atenção especial aos pagamentos do contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes.

Em um dos episódios revelados pela PF, Vorcaro trata diretamente da execução do contrato firmado com o escritório Barci de Moraes. Em 8 de fevereiro de 2024, ele pediu ao cunhado, Fabiano Zettel, que enviasse o contrato assinado e questionou o vencimento da primeira parcela:

"Me manda Barci de Moraes assinado? Quando era o primeiro pgto?"

No mesmo dia, Ângelo Silva, tesoureiro do Master e também investigado pela Polícia Federal, enviou a Vorcaro o comprovante de uma transferência do Banco Master para a conta do escritório Barci de Moraes Sociedade de Advocacia no Banco Itaú, no valor de R$ 3.422.268,14.

Logo após a cobrança, Vorcaro passou a pressionar integrantes do banco quanto aos pagamentos ao escritório. Em mensagem a Silva, escreveu: "Angelo. Pqp. Não pagaram Barci de Moraes. Não tô entendendo isso. Contrato mais importante que temos te pedi pra não falhar. Surreal. Vamos ter problemas."

A partir da análise dos metadados do arquivo do contrato com o Master, as investigações também apontaram que o documento foi editado por Moraes.

O escritório Barci de Moraes, em nota divulgada na semana em que o relatório da PF foi tornado público, afirmou que, diante da abrangência do pedido de contratação de serviços advocatícios feito pelo Banco Master, seu setor de compliance consultou o ministro Alexandre de Moraes sobre a eventual existência de impedimentos legais à celebração do contrato.

Segundo o escritório, a consulta foi realizada porque Moraes é marido de Viviane Barci de Moraes, sócia-diretora da banca. O objetivo, de acordo com a nota, era verificar a existência de possíveis restrições, como ações sob relatoria do ministro no Supremo Tribunal Federal (STF) ou participação em julgamentos de interesse do potencial cliente.

O escritório sustenta que não foi identificada previsão de atuação no STF nem qualquer impedimento legal para a contratação. A nota afirma ainda que Alexandre de Moraes "jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master".

"Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o Ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados", diz a nota.

Por Jornal da República em 15/09/2026
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