Prisão de Canella e a União da oposição pode coroar Ceciliano na Alerj em 2027

André Ceciliano volta à Alerj com chance real de retomar a presidência da Casa

Prisão de Canella e a União da oposição pode coroar Ceciliano na Alerj em 2027

Reeleito com 70.628 votos, o petista que comandou a Assembleia entre 2019 e 2023 confirma que foi procurado por colegas para disputar o comando do Legislativo — e diz que, com a oposição unida, "dá para disputar a eleição"; PL trabalha para manter o controle com Guilherme Delaroli ou Anderson Moraes.

No Rio de Janeiro, a disputa pela presidência da Assembleia Legislativa ganhou um nome com peso de histórico. Reeleito deputado estadual nas eleições de outubro com 70.628 votos — o 21º mais votado do estado, segundo o G1 —, André Ceciliano (PT) está de volta ao plenário onde exerceu por quatro anos o comando da Casa. E não volta como mero espectador. Em entrevista ao jornal O Globo, o petista revelou que já foi procurado por parlamentares para tratar da sucessão da presidência da Alerj, deixando a condição no ar: "Já fui procurado por alguns parlamentares para tratar da presidência. Mas, para ser candidato, é preciso ter um mínimo de consenso na Casa. Se houver uma união entre a oposição, dá para disputar a eleição".

A frase resume a estratégia de quem conhece a Casa como poucos. Ceciliano presidiu a Alerj de fevereiro de 2019 a 2023, eleito com 49 votos em chapa única, segundo a Agência Brasil — em um dos momentos mais delicados da história do estado. Ao assumir, foi direto ao ponto: "É urgente resgatar a imagem do Parlamento. Disso depende a democracia", declarou na posse. Foram quatro anos conduzindo os trabalhos no auge da crise fiscal e política fluminense, período em que o Legislativo precisou equilibrar o socorro financeiro ao estado com a fiscalização do Executivo. A ficha oficial da Alerj o batiza com apelido que virou marca: "cidadão da Baixada, presidente de diálogo".

A saída de Brasília e a jogada que não deu certo

O retorno de Ceciliano ao Legislativo tem gosto de revanche silenciosa. Em fevereiro de 2023, o presidente Lula o nomeou secretário Especial de Assuntos Federativos da Secretaria de Relações Institucionais do governo federal, segundo o Poder360 — o articulador do Palácio do Planalto com os estados. Em março deste ano, porém, ele deixou o cargo no governo Lula, em meio à expectativa, registrada pelo O Globo, de que o então governador Cláudio Castro renunciasse e abrisse espaço para um mandato-tampão no Palácio Guanabara. O plano, porém, foi atropelado: em eleição contestada, com boicote da oposição e questionamento do PDT no Supremo Tribunal Federal sobre o voto aberto, o deputado Douglas Ruas (PL) foi eleito presidente da Alerj em 17 de abril, com 44 votos favoráveis e uma abstenção, conforme registros da própria Alerj e do G1. Ruas, depois, venceu a eleição para governador.

A conta que abre a porta para o retorno

A aritmética da nova legislatura é o que sustenta as chances de Ceciliano. O PL elegeu 21 deputados e arma a candidatura de continuidade em torno de Guilherme Delaroli, atual vice-presidente da Mesa. Mas o partido do governador eleito não tem maioria própria. Segundo levantamento do Agenda do Poder, a base do governo soma 42 deputados — e a oposição, com PT, PCdoB, PSOL, PSD, PDT e PSB, reúne 28. Para vencer a eleição da presidência, em 1º de fevereiro, serão necessários 36 votos. O cálculo fecha apenas com a união da oposição e a adesão de um punhado de nomes da própria base — e é justamente aí que o nome de Ceciliano ganha valor: o veterano que já costurou majorias na Casa, conhece cada regimento e cada rival, e lidera o partido com maior presença histórica na esquerda fluminense.

O fiel da balança, no entanto, vive seu momento mais frágil. A federação entre PP e União Brasil, com nove cadeiras somadas, é peça decisiva para o PL fechar a conta — e seu principal nome, o deputado Márcio Canella, segundo mais votado do estado, está preso desde a quinta-feira (15), suspeito de integrar organização criminosa que teria lavado bilhões, conforme a Polícia Federal. Uma federação abalada juridicamente e uma bancada do PP que rompeu com o PL durante a campanha, quando Dr. Luizinho se aproximou de Eduardo Paes, conforme o O Globo, são exatamente o tipo de rachadura que Ceciliano aprendeu a explorar em quatro anos na presidência.

O que está em jogo

Resta ao PL a articulação para segurar a Casa com Delaroli; à oposição, a tarefa que Ceciliano próprio definiu como condição: consenso mínimo. Nos bastidores, o discurso do petista é o de quem não se lança por vaidade, mas por conta: sem união, não há candidatura; com união, a eleição se torna viável. A Alerj que tomará posse em 1º de fevereiro terá 28 rostos novos e um plenário mais dividido do que em qualquer legislatura recente. E, pela primeira vez desde 2019, a pergunta que atravessa os corredores da Casa não é se o governo manterá a presidência — é se a oposição conseguirá se unir em torno de quem já demonstrou que sabe comandá-la.

Bio de André Ceciliano

André Luiz Ceciliano nasceu em 28 de fevereiro de 1968, em Nilópolis, e construiu toda sua trajetória política na Baixada Fluminense — tanto que a própria Alerj o apresenta como "cidadão da Baixada, presidente de diálogo". Foi eleito deputado estadual pela primeira vez em 1998, com 19.122 votos, e, ainda no primeiro mandato, assumiu a terceira vice-presidência da Mesa Diretora. Em seguida, foi prefeito de Paracambi, onde deixou marcas de gestão na cidade que até hoje é seu reduto eleitoral — em 2026, foi o município onde mais votou: 10.716 sufrágios. De volta à Alerj, somou quatro mandatos e, em fevereiro de 2019, foi eleito presidente da Assembleia com 49 votos, conduzindo a Casa por quatro anos no período mais duro da crise fiscal do Rio. Em 2022, disputou o Senado pelo PT e recebeu quase 987 mil votos, a quinta maior votação daquela disputa. Nomeado em 2023 pelo presidente Lula como secretário Especial de Assuntos Federativos da Secretaria de Relações Institucionais, tornou-se o articulador do governo federal com os estados. Reeleito deputado em outubro de 2026 com 70.628 votos, retorna ao Legislativo com o prestígio de quem já presidiu a Casa, a confiança do palanque nacional e uma família enraizada na política fluminense: seu filho, Andrezinho Ceciliano, é prefeito de Paracambi desde 2025.

Por Jornal da República em 18/10/2026
Aguarde..