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Via Weslley Neto
A revista “Placar” publicou a histórica manchete “Sócrates: Eu, governador” em outubro de 1982. Na ocasião, as eleições para o governo do estado de São Paulo se aproximavam, e o craque do Corinthians atendeu a um pedido da publicação para elaborar suas propostas, simulando ser um candidato.
Outros jogadores entrevistados citaram medidas simples e diretas, como o combate à fome e o aumento do salário mínimo. Sócrates foi além, montando um detalhado plano de governo. Entre as bases estavam projetos envolvendo a valorização dos professores, ensino profissionalizante, ações regionalizadas para gerar novas moradias, regularização de transporte de produtos agrícolas e, principalmente, a democracia como direito fundamental.
Em 1982, a ditadura estava em seus estertores, mas ainda demoraria três anos para que um presidente civil fosse eleito (no Colégio Eleitoral) e sete até que os brasileiros voltassem a escolher diretamente o ocupante do Palácio do Planalto..
Sócrates teve em quem se inspirar. Leônidas da Silva, conhecido como “Diamante Negro”, posicionou-se de forma explícita na véspera das eleições gerais de 1945 (no fim de outra ditadura, a do Estado Novo, de Getúlio Vargas), sendo o primeiro a tomar essa atitude. Principal referência da seleção brasileira na época, o atacante declarou apoio a Yedo Fiúza, do Partido Comunista do Brasil (PCB). “Sou comunista, sim, senhor. Sou do povo e me fiz entre o povo, como, pois, ficar separado do povo?”, disse ao jornal “Tribuna Popular” na época.
O cenário é composto por exceções, levando em consideração o grande número de jogadores de futebol ativos no Brasil, segundo Juca Kfouri, figura proeminente do jornalismo esportivo brasileiro, no qual milita há 56 anos. Em geral, o jogador de futebol nunca participou efetivamente da discussão política, analisa o comentarista em entrevista ao Amado Mundo.
“Em regra, o jogador de futebol é um cara muito voltado para si mesmo, para o próprio umbigo. Ele fica preocupado em não dar declarações para não ser atacado do lado oposto ao lado que ele se posicionou. O jogador de futebol sabe que tem uma carreira curta, está sempre preocupado com o desempenho e, no máximo, com seus parceiros mais próximos. Tem muito pouca consciência social.”
‘Falar em despolitização é um pouco balela, um pouco preconceituoso’
O historiador e professor Rael Fiszon, que elabora uma tese sobre as relações entre o futebol brasileiro e a África, discorda da existência de uma despolitização dos atletas no futebol. Para ele, há outros motivos que impedem que as manifestações políticas dos jogadores sejam mais constantes — o que reduz qualquer impacto causado pelos jogadores nas eleições presidenciais de 2026.
“Sempre tivemos jogadores se posicionando. Ver o jogador como uma pessoa despolitizada é um pouco balela, e um pouco preconceituoso também. Podem achar que o atleta é ignorante, o que gera um preconceito contra pessoas pobres”, opina, em conversa com a reportagem do Amado Mundo.
“Ao se posicionar, o atleta acaba se envolvendo em uma polêmica que, para a maioria dos jogadores, pode ser uma roubada. Isso ocorre em relação aos patrocínios, ou no trato com uma diretoria que tem um posicionamento contrário ao seu. Eu entendo o jogador não querer expor a sua posição política”, completa o historiador.
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Reações diante da polarização
No futebol, a discussão política abandonou o debate de ideias e passou a se resumir a posicionamentos simplórios. Como fez Renato Gaúcho, em coletiva de imprensa realizada no dia 11 de outubro. “Eu não deveria dizer, mas é por isso que eu sou Bolsonaro”, afirmou o técnico do Grêmio ao responder sobre um problema judicial enfrentado por um de seus auxiliares, Alexandre Mendes, que chegou a ser detido temporariamente por alegadamente descumprir medida protetiva da ex-companheira. Mendes foi acusado oito vezes de violência contra a mulher.
“Não é que seja fácil para o jogador consagrado falar, mas é totalmente diferente. É muito mais fácil para quem tem costas largas. Ninguém vai tirar do futebol quem já tem uma carreira consolidada. […] Os exemplos mais óbvios realmente são o Neymar e o Felipe Melo. Tanto faz para eles, pois já estão consagrados, com dinheiro e a história construída”, pontua Rael Fiszon.
Daniel Alves e Robinho, ambos condenados por crimes de violação sexual — o segundo ainda preso, enquanto o primeiro responde em liberdade –, também apoiaram a família Bolsonaro publicamente. O mesmo ocorreu com Bruno, ex-goleiro do Flamengo que permaneceu detido por nove anos pelo assassinato da ex-namorada Eliza Samudio.
“As restrições que eu faço ao Neymar nunca foram pelo posicionamento político, mas pelo descuido com a carreira. Embora possa parecer contraditório, eu diria que o descuido dele com a carreira vai até o ponto em que ele se posicionou tão firmemente a favor do Bolsonaro”, comenta Kfouri.
Antes das eleições de 2022, o zagueiro Thiago Silva, do Fluminense; o atacante Lucas Moura, do São Paulo; e Rivaldo, campeão do mundo com a seleção brasileira, declararam apoio a Jair Bolsonaro, pai de Flávio. Neymar publicou um vídeo no Instagram em que confirmou o voto no ex-presidente.
No outro campo, Raí, Juninho Pernambucano, Neto e Casagrande estão entre os boleiros que se posicionaram publicamente a favor da continuação de Lula na presidência do Brasil, e repetidamente demonstram posições progressistas, identificadas com a esquerda. O último, destaque da democracia corintiana, já criticou publicamente o silêncio dos jogadores de futebol em relação aos temas políticos. “Não consigo entender essa falta de entendimento social”, disse o ex-atleta no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 2022.
“Hoje, você se manifestar significa levantar hostilidade do outro lado. Veja o que aconteceu com o Chico Buarque de Hollanda. Era aquele cara que todas as mães queriam que a filha se casasse. Com o surgimento das redes sociais, Chico abriu o Twitter e descobriu que era um ‘filho da put*’ porque se manifesta politicamente e diz votar na esquerda”, lembra Kfouri.
Entre os atletas que jogam atualmente, o atacante Paulinho, do Palmeiras, já fez publicações nas redes sociais apoiando a candidatura de Lula nas eleições deste ano, destacando a importância das políticas sociais. É a mesma posição já defendida por Artur, atleta do São Paulo, e Raphinha, atacante do Barcelona e da seleção brasileira.
De Pelé a Julião
O racismo também é um dos fatores que pesam na análise, segundo Fiszon. “Quando uma pessoa negra se expõe, a tendência é de que ela tome mais porrada, independentemente da opinião. E em muitos casos, também é muito criticada quando não se manifesta. O maior exemplo sempre foi o Pelé, que era cobrado para falar sobre racismo, entre outros temas. Ninguém mantinha uma cobrança como essa em relação ao Zico, ou qualquer outro jogador branco.”
Atualmente, o lateral-direito Igor Julião, que defende o Marítimo de Portugal, é um dos poucos atletas em atividade no futebol que debatem abertamente sobre política. Declaradamente de esquerda, o ex-atleta do Fluminense comentou sobre a maioria dos atletas serem de direita durante participação no podcast Boppismo, apresentado por Lucas Bopp, em junho de 2025.
“Você pega um cara que passava fome, sofria bullying na escola por ser muito pobre, fora dos padrões, e você dá pra ele muito dinheiro de maneira rápida. No fim, você admite que ele tem muito dinheiro, mas não aceita que ele faça parte da elite burguesa, por eles saírem de um lugar em que se pensa e vive diferente. Como o jogador encontra uma maneira de entrar nessa elite? Replicando o que a elite pensa. É uma necessidade de pertencimento”, opinou o jogador.
Futebol tem longa convivência de mãos dadas com a política
A história do futebol brasileiro sempre esteve entrelaçada com o momento político vivido pelo país. Entre os exemplos estão a Copa do Mundo de 1970, quando a seleção do Brasil vencedora do tricampeonato mundial foi usada como cartaz pela ditadura militar vigente, e o mundial de 1994, quando a euforia do tetra nos Estados Unidos se confundia com a esperança oriunda da implementação do Plano Real.
O ponto alto dessa relação ocorreu em 1982, quando o trio formado por Sócrates, Wladimir e Casagrande liderou a democracia corintiana. Os atletas se manifestavam publicamente contra o regime militar, participavam de passeatas favoráveis ao movimento “Diretas Já” e pediam comprometimento da população com a mudança de sistema político.
O envolvimento foi tão forte que o Corinthians utilizou a frase “Dia 15 Vote” em suas camisas com o objetivo de incentivar a população a participar das eleições diretas para governador em 1982 — as mesmas em que Sócrates apresentou um plano de governo.
Mesmo diante do silenciamento das ditaduras militares, o futebol teve um papel importante enquanto resistência. É o que mostra a série documental “Memórias do Chumbo – O Futebol nos Tempos do Condor”, dirigida pelo jornalista Lúcio de Castro e lançada em 2012. A obra explora a relação entre o futebol e os governos autoritários na América do Sul ao longo de três décadas, incluindo os momentos em que as repressões foram mais severas.
O último movimento coletivo e politizado protagonizado pelos jogadores de futebol ocorreu em 2013. Em meio às manifestações que tomavam o Brasil contra o aumento dos preços do transporte público e da revolta com a realização da Copa do Mundo de 2014, os atletas criaram o “Bom Senso Futebol Clube” para fazer suas reivindicações, chegando a realizar protestos durante partidas do campeonato brasileiro. A iniciativa durou pouco, mas mostrou que a classe ainda podia seguir uma mesma direção.
O crescimento da extrema direita no Brasil mostra que o egoísmo, citado por Kfouri entre os jogadores de futebol, também afeta diretamente a sociedade em que vivemos. Para o comentarista, o desencanto com a falta de perspectivas de realizar sonhos, ao mesmo tempo em que as redes sociais reforçam estilos de vida baseados na ostentação, gera uma revolta nem sempre positiva para quem precisa analisar cenários do ponto de vista político.
“Com frequência, o jogador de futebol repete o discurso do poder, da meritocracia. ‘Se ele tivesse se dedicado como eu, ele não estaria na esquina, poderia estar aqui no meu carro importado, blindado, morando num condomínio de segurança’. É assim que a maioria se comporta. A gente conta nos dedos quantos são militantes políticos de alguma maneira, ou fazem questão de deixar claras as suas posições”.
“Eu temo que a alienação se espalhe, vire uma regra definitiva, ao mesmo tempo que eu tenho esperança inversa, que as pessoas passem a se posicionar, a defender o seu país, não apenas com a bola no pé. […] Espero ver sociedades cada vez mais politizadas para tomarem os seus destinos nas mãos. Mas não sei se vai prevalecer essa coisa egoísta de estar voltado para o próprio umbigo”, conclui o comentarista.
Quem se posiciona pelo mundo?
A discussão sobre a despolitização dos atletas também ganha força internacionalmente. O astro francês Kylian Mbappé e os espanhóis Borja Iglesias e Hector Bellerín costumam se posicionar, não somente em discussões políticas, mas também em relação aos problemas sociais enfrentados em França e Espanha. O mesmo faz Jackson Irvine, capitão da seleção da Austrália na Copa do Mundo, que já defendeu causas LGBTQIA+ e manifestou apoio a Lula em suas redes sociais.
“Partidos da extrema direita têm medo da notoriedade de jogadores de futebol e artistas. E é por isso que tentam dizer: ‘Fiquem no seu lugar, não falem’. Às vezes, alguns caem na armadilha e não falam. Por que eu, por exemplo, falo? Porque não nasci jogador de futebol. Fui pobre e sei que, em geral, não se ouve a voz dos pobres na TV. Por isso, é preciso dar voz a quem relata a violência da sociedade. E é por isso que tenho muito orgulho dos jovens de hoje”, comentou Lilian Thuram, ex-zagueiro da seleção da França, em entrevista à plataforma 3Cat no dia 9 de outubro.
O futebol feminino serve de exemplo. Figuras como a norte-americana Megan Rapinoe e a norueguesa Ada Hegerberg se tornaram conhecidas não só pelo talento em campo, mas também pelo forte posicionamento na busca pela igualdade salarial de gênero. No Brasil, Marta se destaca como embaixadora da Organização das Nações Unidas (ONU). Ary Borges e Byanca Brasil usam as redes sociais para se posicionar contra a homofobia e defender pautas da esquerda brasileira.
Os craques do seu time viraram candidatos
A partir dos anos 1990, ex-jogadores de futebol passaram a habitar o campo da política institucional com maior frequência. Zico foi nomeado secretário nacional de Esportes em 1991 por Fernando Collor de Mello. Pelé assumiu o cargo de ministro do Esporte em janeiro de 1995, permanecendo no cargo até abril de 1998, no primeiro mandato de FHC.
A dupla do tetracampeonato também entrou de vez na política. Bebeto foi deputado federal pelo Rio de Janeiro por três mandatos seguidos, entre 2010 e 2018. Atualmente, Romário, que deixou o PL neste ano, ocupa uma das cadeiras do Senado Federal, em seu segundo mandato.
O movimento se tornou comum entre os ex-atletas. Pelo menos 15 boleiros concorreram a cargos nas eleições de 2026. Vanderlei Luxemburgo (Podemos-TO), Edmundo (PSDB-RJ), Luís Fabiano (MDB-SP), Marcelinho Carioca (Republicanos-DF), Washington “Coração Valente” (MDB-DF), Dinei (Avante-SP) e Donizete Pantera (PL-RJ) não foram eleitos. Danrlei (PSD-RS), ídolo do Grêmio, tornou-se deputado federal, enquanto Bobô (PCdoB-BA), figura histórica do Bahia campeão brasileiro em 1988, foi eleito deputado estadual.
Nenhum dos candidatos citados se destacou pelo posicionamento político enquanto ainda jogava futebol profissionalmente.
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