Reunião de líderes expõe tensão sobre supersalários e isola PL

Encontro no fim da manhã desta segunda-feira (09) teve irritação de Hugo Motta, cobrança ao governo e PL sem protagonismo

Reunião de líderes expõe tensão sobre supersalários e isola PL

A reunião de líderes partidários realizada no final da manhã desta segunda-feira (09), na Câmara dos Deputados, foi marcada por um clima de forte tensão interna, elevação do tom de voz e recados diretos do presidente da Casa, Hugo Motta. No centro do desconforto esteve o desgaste político provocado pela aprovação de projetos que ampliam pagamentos acima do teto constitucional, tema que, segundo relatos feitos à reportagem, deixou a Câmara isolada na linha de frente das críticas.

O encontro expôs não apenas o mal-estar entre a Presidência da Câmara e o governo, mas também o esvaziamento político do PL na reunião. Apesar do discurso público recorrente contra o Supremo Tribunal Federal e da defesa da anistia, a legenda não conseguiu pautar o debate e acabou à margem das decisões centrais.

Líder do PSOL na Câmara, o deputado Tarcísio Motta afirmou que a atuação do PL foi limitada e pouco incisiva. Segundo ele, o principal movimento do partido foi tentar pressionar o presidente da Câmara para que acionasse o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, com o objetivo de convocar uma sessão do Congresso Nacional para votar o veto ao projeto da dosimetria.

“Eles até falaram do STF e da anistia, como fazem sempre, mas não foi uma atuação forte. O foco deles era pressionar o Hugo Motta para pedir ao Davi Alcolumbre que marcasse uma sessão do Congresso para votar o veto ao PL da dosimetria. Isso não avançou”, afirmou Tarcísio Motta.

De acordo com o parlamentar, mesmo temas que a extrema direita costuma tratar como prioritários ficaram fora do centro da reunião. A CPI do Banco Master, por exemplo, não apareceu entre as primeiras a serem instaladas, indicando que o assunto segue sem consenso entre os líderes.

“Nem a CPI do caso Master entrou como prioridade. A reunião acabou girando muito mais em torno da pauta imediata e dos problemas políticos que a Câmara está enfrentando”, disse.

Tensão por supersalários

O momento mais tenso do encontro, no entanto, ocorreu quando o debate avançou sobre os chamados supersalários. Segundo Tarcísio Motta, Hugo Motta demonstrou irritação explícita com o fato de a Câmara ter ficado com o ônus político da aprovação dos projetos, enquanto decisões semelhantes tomadas por outros Poderes, pelo Senado ou por órgãos de controle não sofreram o mesmo nível de cobrança pública.

“Hugo estava muito chateado. Ele subiu o tom de voz e deu uma bronca no líder do governo, José Guimarães, dizendo que a Câmara ficou sozinha com o desgaste, sem que nem mesmo a base do governo tivesse saído em defesa do Legislativo”, relatou.

Ainda segundo o líder do PSOL, o presidente da Câmara fez referência a declarações de ministros que teriam criticado o projeto ou defendido publicamente o veto presidencial, o que aprofundou a sensação de isolamento político da Casa. Na avaliação de Hugo Motta, a ausência de uma defesa mais firme contribuiu para que a Câmara se tornasse o principal alvo das críticas.

Na tentativa de conter o embate, José Guimarães argumentou que o tema deveria ser tratado como uma questão interna do Legislativo e que o governo não deveria se envolver diretamente. A posição, porém, não encontrou consenso entre os parlamentares da base aliada.

Parte dos líderes defendeu que o Congresso precisa enfrentar o debate sobre o teto constitucional de maneira mais estruturada, evitando a aprovação recorrente de penduricalhos e benefícios que ampliem a remuneração acima do limite legal. A avaliação é que a estratégia de empurrar o tema gera desgaste político contínuo e fragiliza a imagem do Parlamento.

Uma das propostas apresentadas na reunião, segundo Tarcísio Motta, foi feita pela deputada Jandira Feghali. A ideia é construir projetos de lei que regulamentem o teto constitucional de forma ampla, alcançando todos os Poderes da República, como uma tentativa de transformar o impasse em uma agenda positiva para a Câmara dos Deputados.

“A avaliação de parte da base é que não dá mais para empurrar esse debate com a barriga. Ou o Congresso enfrenta de frente a regulamentação do teto constitucional para todos os Poderes, ou vai continuar pagando um preço político alto toda vez que esse assunto volta à pauta”, afirmou o deputado.

Por Jornal da República em 10/02/2026
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