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Em que pese a exaustiva e, por vezes, estéril advertência sobre a politização do carnaval em ano eleitoral (ou não) o que se viu na Marquês de Sapucaí com o desfile da Acadêmicos de Niterói foi a própria História do Brasil numa síntese potente. Para o desgosto daqueles que odeiam o protagonismo popular. A agremiação, com o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, não se limitou a homenagear uma figura política; ela traduziu em alegorias, samba e emoção a jornada de um povo, a resiliência de uma nação e as contradições que nos forjam.
Dos sertões áridos de Garanhuns, Pernambuco, emergiu a narrativa de um Brasil profundo, tantas vezes esquecido pelas elites litorâneas. A voz que se levantou não era apenas a de Luiz Inácio, o menino que sonhava um futuro melhor do alto de um pé de mulungu, mas a de milhões de retirantes que, como sua mãe, a corajosa Dona Lindu, embarcaram em paus de arara rumo a São Paulo, a terra prometida que se revelaria dura e desigual. A viagem de treze dias e treze noites, narrada com a força poética do samba-enredo, é a própria epopeia da migração nordestina, a saga dos que construíram a metrópole com suor e saudade, enfrentando o preconceito e a exploração.
Ali, na passarela do samba, as caricaturas carnavalescas assumiram um papel didático de rara clareza. O golpismo histórico das elites contra a força ascendente do povo trabalhador foi encenado sem meias palavras. A perseguição ao movimento sindical, a repressão da ditadura e as manobras políticas que buscaram silenciar a voz do operário foram traduzidas em alas e alegorias que dispensavam legendas. A escola de samba, em sua vocação de cronista popular, expôs as feridas abertas de uma luta de classes que pulsa sob o verniz da cordialidade brasileira. A figura de um palhaço aprisionado, com tornozeleira eletrônica violada e feição de espanto, foi a representação satírica e contundente do golpismo recente, a cara de pau do autoritarismo finalmente encenada com a didática necessária para que a memória autoritária do bolsonarismo seja devidamente narrada não apenas pelos historiadores, mas pela festa popular mais impressionante do mundo.
Essa força popular, no entanto, não se ergueu sozinha. Ela foi, e continua sendo, nutrida pela força das mulheres. Para além do incansável Paulo Vieira – representando Lula e todos os pretos e pardos do Brasil -, o desfile fez justiça a essa verdade ao dar protagonismo a Dona Lindu, a mãe-coragem que, interpretada com a dignidade de Dira Paes, simbolizou a resiliência e o sacrifício de tantas matriarcas brasileiras. Ao seu lado, a figura de Marisa Letícia, a companheira de vida e de jornada, vivida na avenida pela intrépida Juliana Baroni, lembrou que a trajetória de um líder se constrói com afeto, cuidado e a força inabalável dos laços pessoais. Elas representaram não apenas a base, o alicerce, mas a habilidade política na sua completude, numa revolução dos afetos, sobre a qual a esperança pôde florescer.
O desfile da Acadêmicos de Niterói, portanto, transcende a homenagem biográfica. Foi um ato de coragem e de memória, uma aula de História a céu aberto, que reafirmou o carnaval como um espaço de reflexão crítica e de celebração da identidade popular. Ao contar a história de Lula, a escola contou a História do Brasil, com suas dores, suas lutas e sua inesgotável capacidade de sonhar com um futuro mais justo. Naquela noite, o amor, como dizia o samba, venceu o medo, e a avenida ensinou, mais uma vez, que o povo é artífice e artista, que pode e deve ser autor do seu próprio destino.
Lula, o sindicalista | Crédito: Tata Barreto | Riotur
Na concentração da “Acadêmicos de Niterói”, Juliana Baroni e Paulo Vieira representando Marisa Letícia e Lula. Fonte: ICL.
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