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Campos do Jordão — Uma van equipada com um mini laboratório chega a uma cidade do interior. Dentro dela, um técnico responsável. Não carrega remédios para pessoas. Carrega microrganismos para o solo.
Em poucas horas, agricultores familiares recebem produtos biológicos feitos sob medida para a lavoura deles, com base em análises de solo, folha e microbiota.
Essa é a proposta do Instituto Regenera, apresentada por Alexandre Silva durante o 9º Conexidades, megaevento realizado entre os dias 15 e 19 de junho no Campos Hall, em Campos do Jordão, que reuniu mais de 10 mil participantes entre gestores públicos e empresários.
O modelo já está em operação em Porto Ferreira (SP), onde um programa municipal de agricultura regenerativa e bioeconomia atende dezenas de pequenos produtores.
O que são bioinsumos e por que isso importa?
Bioinsumos são produtos de origem biológica — microrganismos, extratos naturais, compostos orgânicos — usados para nutrir plantas, controlar pragas e recuperar a saúde do solo. Em vez de depender de fertilizantes químicos importados, o agricultor passa a produzir seus próprios insumos, com tecnologia acessível e rastreável.
O mercado brasileiro de bioinsumos atingiu R$ 6,2 bilhões em 2025, com crescimento de 15% em relação ao ano anterior, segundo a CropLife Brasil. A área tratada com produtos biológicos alcançou 194 milhões de hectares, um avanço de 28% sobre 2024. O setor cresce a uma taxa média anual de 22% — quatro vezes superior à média global.
A lei que mudou o jogo.
Em dezembro de 2024, foi sancionada a Lei nº 15.070/2024, o Marco Legal dos Bioinsumos. A legislação permitiu que os produtores rurais fabriquem seus próprios insumos biológicos dentro da propriedade — o chamado "on farm" — com registro simplificado e rastreabilidade garantida.
"A lei de bioinsumos permite que seja produzido na própria cidade. Uma van vai até o município, com técnico responsável e mini laboratório, e produz para aquele grupo de produtores os produtos necessários para o solo", explicou Alexandre Silva.
O impacto é especialmente relevante para a agricultura familiar. Pequenos produtores, que antes não tinham escala para acessar bioinsumos comerciais, agora podem produzi-los de forma compartilhada, reduzindo custos e aumentando a produtividade.
G10 Bio: as dez tecnologias que regeneram o solo.
O Instituto Regenera opera por meio da plataforma G10 Bio, nome que reúne dez tecnologias integradas de manejo regenerativo. O sistema começa com a análise do solo, da folha e da microbiota — procedimento desenvolvido em parceria com a Embrapa e o Instituto Biológico de São Paulo, centro de pesquisa fundado em 1927 e referência nacional em microbiologia aplicada ao agronegócio.
Com base no diagnóstico, são selecionados os microrganismos mais adequados para aquela cultura, solo e condição climática. A produção é feita no local, com equipamentos desenvolvidos para garantir qualidade e rastreabilidade exigidas pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).
"São microrganismos desenvolvidos no Instituto Biológico por grandes pesquisadores, com as melhores máquinas para produzir e um sistema de qualidade que garante aos órgãos regulamentadores que tudo tem rastreabilidade", afirmou Silva.
Porto Ferreira: o modelo que deu certo.
O programa municipal de agricultura regenerativa de Porto Ferreira é o carro-chefe do Instituto Regenera. A cidade, localizada na região central de São Paulo, foi a primeira a implantar o sistema de bioinsumos on-farm em escala municipal.
O modelo é 360 graus: o município passa a ter informação detalhada sobre o que está sendo produzido, por quem, com quais insumos e em que quantidade.
Com esses dados, a prefeitura consegue acessar recursos estaduais e federais para apoiar o pequeno produtor.
"A municipalidade precisa de informação. Saber o que está acontecendo com o pequeno produtor, qual a cultura, quanto está sendo usado de produto. Esse sistema leva ao município informação.
"Com a informação, o município consegue acesso a recursos federais e estaduais", explicou.
Agricultura regenerativa: o futuro do campo.
A agricultura regenerativa propõe restaurar a saúde do solo por meio de práticas ecológicas, com ênfase no uso de bioinsumos em substituição a agroquímicos.
O conceito vai além da sustentabilidade: busca reverter danos ambientais, aumentar a matéria orgânica do solo e recuperar a biodiversidade microbiana.
A Regeneration International aponta que os bioinsumos melhoram a nutrição vegetal, estimulam o microbioma do solo e reduzem o impacto ambiental da atividade agrícola. No Brasil, a adoção de bioinsumos cresceu 13% na safra 2024/2025, segundo a CropLife Brasil.
Globalmente, o mercado de bioinsumos deve atingir US$ 25 bilhões até 2030, com expansão de 10% ao ano, segundo a consultoria DunhamTrimmer.
A América Latina deve superar essa média, impulsionada pelo protagonismo brasileiro.
O desafio da regulamentação
Apesar do avanço, o setor enfrenta gargalos. A Lei 15.070/2024 foi sancionada, mas o decreto regulamentador ainda não foi publicado, mesmo após o vencimento do prazo. A Associação Brasileira de Bioinsumos (Abbins) e o setor produtivo pressionam o MAPA pela publicação do decreto para destravar investimentos e dar segurança jurídica à produção on-farm.
Em fevereiro de 2026, o Ministério da Agricultura informou que o objetivo é encaminhar o decreto à Casa Civil ainda no primeiro semestre. O tema foi um dos mais debatidos no BioSummit 2026, que reuniu especialistas e representantes do governo em Brasília.
Uma van, um laboratório, um país.
A imagem da van equipada com laboratório percorrendo cidades do interior pode parecer modesta diante dos números grandiosos do agronegócio brasileiro — que deve colher mais de 320 milhões de toneladas de grãos na safra 2025/2026. Mas é nessa escala humana que a revolução dos bioinsumos acontece.
O Instituto Regenera e a G10 Bio apostam que o futuro da agricultura brasileira passa pelo solo vivo, pelos microrganismos e pela autonomia do pequeno produtor. Em Porto Ferreira, o modelo já provou que funciona. Agora, o desafio é levar a van para cada vez mais municípios.
Os números da revolução silenciosa
Bio: Alexandre Silva.
Alexandre Silva é representante do Instituto Regenera e da plataforma G10 Bio, iniciativa que conecta produtores rurais, pesquisadores e poder público para viabilizar a produção de bioinsumos na agricultura familiar.
Com atuação direta no Programa Municipal de Agricultura Regenerativa e Bioeconomia de Porto Ferreira (SP), Alexandre trabalha na implantação de sistemas on farm que permitem aos pequenos agricultores produzir seus próprios insumos biológicos com tecnologia, rastreabilidade e assistência técnica.
Sua atuação no Conexidades reflete o movimento de aproximação entre inovação agrícola e gestão pública, mostrando que o futuro do campo passa pela regeneração do solo e pela autonomia do produtor. O site da iniciativa é g10.com.br e o Instagram @g10bio.

Por Robson Talber @robsontalber
Repórter Oscar Muller @oscarmulleroficial
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