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A corrida presidencial de 2026 entrou em uma nova fase. Com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) confirmados no segundo turno, as campanhas enfrentam um desafio que vai além de mobilizar seus tradicionais apoiadores: conquistar os brasileiros que não escolheram nenhum dos dois candidatos na primeira votação.
Segundo dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Flávio encerrou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula conquistou 45,16%. A diferença de menos de dois pontos percentuais reforça a importância das movimentações políticas e das estratégias de comunicação nesta etapa da disputa.

Na avaliação do jornalista, publicitário e estrategista digital Janiel Kempers, a batalha pela Presidência também está sendo travada na maneira como os candidatos se apresentam, constroem suas narrativas e estabelecem conexões com o público nas plataformas digitais.
"O grande desafio de Lula e Flávio não é apenas convencer o eleitor de que um projeto é melhor que o outro. É fazer com que pessoas que não escolheram nenhum dos dois no primeiro turno encontrem motivos reais para confiar em uma dessas alternativas. E isso exige muito mais do que repetir discursos para quem já está convencido", analisa Kempers.
Duas estratégias, um mesmo objetivo
Ao observar a comunicação digital dos presidenciáveis, Kempers identifica abordagens distintas na tentativa de ampliar o alcance das campanhas.
Lula tem apostado em conteúdos com linguagem mais informal, vídeos curtos e uma comunicação voltada à proximidade, explorando aspectos pessoais, realizações do governo e programas sociais.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, tem buscado transmitir uma imagem de maior espontaneidade, com vídeos em tom de conversa e abordagens sobre questões cotidianas, como segurança pública, custo de vida e família.
Para o estrategista, embora os formatos apresentem diferenças, ambos procuram reduzir a distância entre a figura política e o cidadão comum.
"Lula tenta transformar sua experiência e suas entregas em uma comunicação mais próxima e acessível. Flávio procura construir uma imagem de naturalidade, conversando com o eleitor de maneira menos formal. São caminhos diferentes, mas que buscam despertar uma sensação semelhante: a de que existe alguém do outro lado da tela que compreende a realidade de quem está assistindo", observa.
Segundo Kempers, a mudança acompanha uma transformação mais ampla na própria lógica do marketing político, em que discursos excessivamente institucionalizados disputam espaço com conteúdos mais simples e adaptados à dinâmica das redes sociais.
O eleitor que não escolheu nenhum dos dois
Um dos pontos centrais da análise está no comportamento dos brasileiros que votaram em outros candidatos, optaram pelo voto branco ou nulo ou não compareceram às urnas no primeiro turno.
Kempers ressalta que esse público não deve ser interpretado como um grupo homogêneo, tampouco necessariamente como um eleitorado de centro ou indiferente à política.
Há diferentes motivações envolvidas, que vão desde preferências partidárias até insatisfação com as alternativas apresentadas.
"Existe um erro recorrente na comunicação política: acreditar que todo eleitor que ainda pode mudar de posição está esperando apenas um discurso mais bonito. Não está. Há pessoas preocupadas com o emprego, com a renda, com a segurança da família e com a própria qualidade de vida. A comunicação precisa demonstrar de maneira concreta como cada proposta se conecta com essas preocupações", afirma.
Para o jornalista, o excesso de confrontos digitais também representa um desafio para as campanhas, especialmente quando o objetivo é ampliar o diálogo para além dos grupos de apoiadores já consolidados.
Comunicação não é apenas viralização
Autista, Janiel Kempers atua nas áreas de jornalismo, publicidade e estratégia digital. Em sua análise sobre o atual cenário eleitoral, ele chama atenção para a necessidade de distinguir popularidade nas plataformas digitais de capacidade efetiva de convencimento político.
O especialista considera que indicadores como visualizações, compartilhamentos e engajamento são importantes para compreender o alcance de uma mensagem, mas não devem ser confundidos automaticamente com intenção de voto.
"Um vídeo pode alcançar milhões de pessoas e não conquistar um único novo eleitor. Viralizar é uma coisa; convencer é outra. Uma estratégia eleitoral eficiente precisa ir além do algoritmo e construir uma narrativa que faça sentido fora da internet, na vida cotidiana das pessoas", pontua.
Na avaliação de Kempers, a busca pela naturalidade também impõe outro desafio: evitar que a tentativa de parecer espontâneo seja percebida como uma encenação.
"O eleitor está cada vez mais exposto a conteúdos políticos. Por isso, não basta parecer próximo. É preciso demonstrar coerência entre aquilo que se comunica, o comportamento do candidato e as propostas que ele apresenta. A confiança não se constrói apenas com uma boa edição de vídeo", acrescenta.
Afinal, quem leva vantagem?
Apesar das diferenças entre as estratégias de Lula e Flávio, Kempers considera precipitado apontar um vencedor apenas a partir do desempenho das campanhas nas redes sociais.
Para ele, o segundo turno exigirá das duas candidaturas a capacidade de combinar comunicação emocional, credibilidade e respostas concretas às preocupações da população.
O estrategista também destaca que a disputa não se resume à conquista de novos votos. A manutenção das bases eleitorais, a transferência dos votos dos candidatos derrotados e a participação dos eleitores no dia da votação são fatores igualmente relevantes.
"No primeiro turno, cada candidatura trabalha muito para consolidar sua identidade e mobilizar sua base. No segundo, a disputa exige ampliar essa conversa. Quem insistir em falar exclusivamente para os próprios apoiadores corre o risco de desperdiçar oportunidades de diálogo com quem ainda pode fazer outra escolha", avalia.
Para Kempers, a eleição de 2026 evidencia uma mudança importante na comunicação política: a necessidade de transformar narrativas em conexões que ultrapassem o ambiente digital.
E conclui:
"A grande disputa não está apenas nas telas dos celulares, nos discursos ou nas provocações entre adversários. Está na capacidade de fazer o eleitor acreditar que aquilo que está sendo prometido pode, de fato, melhorar sua vida. No fim, a eleição será decidida nas urnas, não nos comentários das redes sociais."
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