'Michelle Bolsonaro precisa matar o Flávio politicamente', diz João César de Castro Rocha

Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro (fotos: Zack Stencil/Partido Liberal; Andressa Anholete/Agência Senado)

'Michelle Bolsonaro precisa matar o Flávio politicamente', diz João César de Castro Rocha

Escritor e historiador compara Michelle Bolsonaro a Lady Macbeth, analisa carta de Marco Rubio e defende que soberania será o tema da eleição

A semana passada foi marcada pela publicação de um vídeo de quase meia hora em que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro relatou ter sido desrespeitada e humilhada pelo enteado e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, durante uma desavença sobre estratégias eleitorais do PL no Ceará — caso em que Michelle defendia uma aliança diferente da adotada pelos filhos de Jair Bolsonaro. No Matinal desta segunda-feira (29), Beatriz Bulla e Talita Fernandes conversaram com o historiador, escritor e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) João César de Castro Rocha sobre o episódio, que se soma à resposta do governo americano sobre as tarifas ao Brasil em mais um episódio de crises para o filho 01 de Jair Bolsonaro.

Castro Rocha recorreu à literatura para analisar a briga interna do clã: “Como é que nós compreendemos a Michelle Bolsonaro? A Michelle é a Lady Macbeth do clã Bolsonaro. Ela é a Lady Macbeth da política brasileira, com um potencial muito mais perigoso do que a da Lady Macbeth shakespeariana”.

Para o professor, a diferença em relação ao restante da família está na natureza do projeto de poder.

“Para a franquia Bolsonaro, Bolsonaro e os filhos, o projeto de poder é puramente pessoal. Do que se trata é apenas um projeto de poder que propicia um enriquecimento ilícito através de formas diversas, em graus distintos de rachadinha“, afirmou, citando como exemplos os valores depositados na conta da própria Michelle Bolsonaro por Fabrício Queiroz.

O professor sustentou que o que torna o caso da ex-primeira-dama mais preocupante é a combinação entre ambição política e fanatismo religioso. Ele recuperou um discurso da presidente do PL Mulher em Copacabana, em fevereiro de 2025, em que ela afirmou que política e religião não deveriam estar separadas.

“O projeto de poder da Michelle Bolsonaro é, em alguma medida, mais consistente do que o projeto de poder do restante da franquia Bolsonaro. Ela se acredita ungida para chegar ao poder. Isso é perigosíssimo, porque quando uma pessoa com fanatismo religioso chega ao poder, não existe espaço algum para divergência”, disse.

Michelle Bolsonaro em vídeo publicado no dia 24 de junho

Michelle Bolsonaro em vídeo publicado no dia 24 de junho / Foto: Reprodução

Para o professor, a contradição central do vídeo está em Michelle reivindicar voz política enquanto segura, segundo ele, uma caneta Bic — símbolo do esposo — durante toda a gravação.

“O tempo todo ela segura uma caneta porque ela está caminhando no fio da navalha pelos preceitos difundidos pelo seu tipo de religiosidade. O que ela está dizendo é: eu sou mulher, portanto submissa a meu marido, mas não posso aceitar os desmandos do filho do marido. Ela se projeta, mas se projeta sob a liderança da caneta Bic, ou seja, do Bolsonaro”, analisou.

Sobre o motivo de separar as duas esferas, o professor foi categórico: “Quando eu tenho uma religião, eu não posso fazer concessão. Não há possibilidade de eu fazer uma concessão em relação à minha fé. (…) Agora, política só faz sentido se for a arte da concessão possível. (…) Se eu trago a religião para a política, é incompatível”.

‘Michelle precisa matar o Flávio politicamente’

Voltando à analogia shakespeariana, Castro Rocha detalhou o enredo de “Macbeth” para sustentar sua leitura sobre o papel da ex-primeira-dama na crise familiar. Segundo ele, assim como Macbeth recebe de três bruxas a profecia de que um dia será rei e escreve à esposa contando o que ouviu, Michelle Bolsonaro estaria, na vida real, diante de um obstáculo concreto para seu próprio projeto de poder.

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João Cezar de Castro Rocha em entrevista ao Matinal

João Cezar de Castro Rocha em entrevista ao Matinal

“Ele escreve uma carta para a esposa, a Lady Macbeth, dizendo que o que aconteceu é que ele pode vir a ser rei. Só há uma forma dele ser rei: ele tem que matar o rei Duncan. A Michelle Bolsonaro precisa politicamente matar o Flávio Bolsonaro”, afirmou.

O professor descreveu ainda o momento da peça em que Macbeth hesita diante do plano e é pressionado pela esposa a seguir adiante — trecho que usou para reforçar o paralelo com a delação do tenente Mauro Cid, segundo a qual Michelle Bolsonaro teria sido uma das principais incentivadoras da tentativa de golpe após a apresentação do chamado memorando golpista.

Para o professor, o risco do projeto político de Michelle Bolsonaro vai além da disputa interna ao clã.

“Ela é a Lady Macbeth da política brasileira, mas ela é muito mais perigosa, porque a Michelle Bolsonaro acirrará o fanatismo religioso. Quando o fanatismo religioso é acirrado, não há opção. É guerra civil e genocídio.”

A carta de Marco Rubio e o tema da soberania

A apresentadora Talita Fernandes trouxe à conversa o segundo abalo na campanha de Flávio Bolsonaro na mesma semana: a resposta do secretário de Estado americano, Marco Rubio, à carta em que o senador pedia a suspensão de novas tarifas sobre produtos brasileiros. Rubio elogiou o apoio do senador à classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, mas manteve a posição americana sobre as tarifas, decisão que pode ser confirmada em até duas semanas.

Para Castro Rocha, o episódio reforça uma mudança de eixo na disputa eleitoral de 2026.

Trump recebe Fla?vio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e o blogueiro Paulo Figueiredo no Sala?o Oval

Trump recebe Fla?vio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e o blogueiro Paulo Figueiredo no Sala?o Oval, na semana passada

“Em 2022, quem venceu as eleições não foi individualmente o presidente Lula, nem o Partido dos Trabalhadores. Foi uma frente ampla, cujo eixo era a defesa da democracia. Em 2026, me parece que o tema decisivo da eleição não será mais a democracia. O tema decisivo será a soberania”, afirmou.

Segundo o professor, esse deslocamento já teria beneficiado o governo Lula diante do chamado tarifaço e da sanção pela Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, movimento atribuído por ele a Eduardo Bolsonaro.

“O governo ganhou rumo, ganhou atração, e o presidente Lula aumentou a sua popularidade graças à óbvia tentativa de interferência norte-americana no cenário político brasileiro”, disse, citando ainda os resultados eleitorais na Colômbia e a expectativa em torno do Peru como fatores que reforçariam a imagem do Brasil como referência progressista na região.

Uma ‘viralatice’ inédita

Para o professor, o trecho mais grave da carta de Rubio não é a recusa às tarifas, mas um oferecimento feito pelo próprio Flávio Bolsonaro: a disposição de montar, em caso de vitória eleitoral, uma equipe de transição para lidar com o governo americano.

Castro Rocha recorreu a um episódio histórico para ilustrar o risco político do gesto. Lembrou o caso do governador baiano Otávio Mangabeira, cuja carreira foi praticamente encerrada após uma fotografia, tirada sob ângulo desfavorável durante visita do presidente americano Dwight Eisenhower ao Brasil, sugerir que ele estaria beijando a mão do mandatário estrangeiro.

“A carreira do Otávio Mangabeira quase acabou. Ele passou a vida inteira explicando que o ângulo da fotografia era desfavorável. Agora, nós temos um candidato que promete, para a maior potência do planeta, que criará uma equipe de transição com o governo norte-americano. Não há exemplo na história recente do mundo de uma sabugice, de uma viralatice desta qualidade”, afirmou.

Flávio Bolsonaro e Donald Trump

O senador Flávio Bolsonaro e o presidente dos EUA, Donald Trump (Foto: Divulgação)

O verdadeiro temor do Planalto

Questionado pelas apresentadoras sobre os possíveis efeitos eleitorais dos episódios, o professor defendeu que o real receio do governo é a desistência da candidatura de Flávio Bolsonaro antes das convenções partidárias — não sua eventual vitória.

“O grande receio do Palácio do Planalto hoje é que a candidatura do Flávio caia. É esse o grande receio do Planalto: que a candidatura do Flávio não se sustente até as convenções”, disse, avaliando que o gesto de Michelle Bolsonaro seria uma tentativa de garantir influência política antes que o cenário eleitoral se consolidasse.

Para Castro Rocha, o senador petista enfrentaria, numa eventual disputa direta com Lula, um obstáculo retórico difícil de superar.

“Se num debate ele disser: ‘Presidente Lula, o senhor jamais quis considerar o Comando Vermelho e o PCC organizações terroristas’, o presidente Lula possivelmente vai responder: ‘E por que seu pai não fez isso entre 2019 e 2022?’ Isso nos devolve a uma polarização radicalizada Lula-Bolsonaro — o que mais interessa ao Palácio do Planalto”, afirmou.

Segundo o professor, a verdadeira disputa que preocupa a extrema-direita neste momento não seria mais a Presidência, mas o Senado. Ele citou o caso da pré-candidatura de Priscila Costa no Ceará — nome defendido por Michelle Bolsonaro e preterido pelos filhos do ex-presidente — como estopim da crise pública.

“Boa parte da extrema direita já considera que a eleição presidencial é perdida. Então a verdadeira energia política está sendo canalizada para o Senado. O Senado é, de fato, a verdadeira disputa desta eleição de 2026”, disse, lembrando o risco de novas indicações ao Supremo Tribunal Federal a depender da composição da Casa.

Por Jornal da República em 29/06/2026
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