Assine nossa newsletter e fique por dentro de tudo que rola na sua região.
Desde que foi anunciada a liquidação do Banco Master, seguida da prisão do proprietário, Daniel Vorcaro, por suspeita de fraudes, o assunto mobiliza o mundo da política e da Justiça. Em meio ao imbróglio, a participação do Tribunal de Contas da União (TCU), que também passou a examinar o assunto, tem sido questionada, já que é completamente atípica. No TCU, o relator do caso Master é o ministro Jhonatan de Jesus.
Nesta segunda-feira (5), Jhonatan determinou inspeção no Banco Central (BC) para analisar documentos que tratam da liquidação do Master. Em resposta, entidades do setor financeiro, de bancos e crédito publicaram uma nota conjunta de apoio ao BC. Sem citar o tribunal, o texto reforça que é um risco que “outros atores institucionais tenham a possibilidade de invalidar o mérito técnico” das decisões do BC. E declara, ainda, que isso traz “graves impactos para o próprio funcionamento da economia brasileira e enfraquecimento da autoridade financeira”.
Documentos públicos consultados pela coluna ajudam a traçar o perfil de Jhonatan, uma figura com carreira na política que somente atraiu atenção quase três anos após assumir o cargo vitalício de ministro do tribunal de contas. Ele vem aumentando o cerco ao Banco Central e fazendo cobranças públicas à instituição de forma que especialistas consideram inadequada.
Olhar com atenção o controvertido currículo do ministro relator do caso no TCU ajuda a entender o que está acontecendo. Ex-deputado federal, Jhonatan de Jesus tem emendas na malha fina de Flávio Dino desde setembro de 2025. Eleito ministro em 2023, com aprovação da Câmara e Senado, ele exercia o quarto mandato quando renunciou para assumir no TCU. A conquista envolveu negociação do aliado e ex-presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), com votos também da bancada governista.
Na atuação como deputado, Jhonatan deixou clara a proximidade com o Lira e seu sucessor na presidência da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Das proposições assinadas por ele, desde que assumiu o mandato, em 2011, nada menos que 187 são assinadas em parceria com Arthur Lira e 106 com Motta. Os dois são os principais parceiros em projetos coletivos, em especial os requerimentos do colegiado de líderes.
Já dentre os partidos, o principal parceiro nas articulações e encaminhamentos é o PP, com 501 parcerias. Os números o colocam como parte do bloco do Centrão, que também entrou na mira no Caso Master por conta das conexões de políticos com o banqueiro Daniel Vorcaro.
Formado em Medicina, Jhonatan foi líder da bancada do Republicanos na Câmara dos Deputados por dois anos consecutivos — 2019 e 2020, sendo sucedido pelo atual presidente da Casa, Hugo Motta. Recentemente, Jhonatan chamou atenção ao arquivar, no TCU, um processo contra Motta, de apuração de rachadinha e de cargos fantasmas no seu gabinete.
O agora ministro é parte de uma oligarquia familiar do estado de Roraima. Seu pai, Mecias de Jesus, foi eleito senador em 2018, quando o filho já era veterano na Câmara e ele acumulava experiência como vereador e deputado estadual. Hoje, é conselheiro do Tribunal de Contas de Roraima, cargo que assumiu em agosto do ano passado.
Já a esposa esteve lotada no gabinete do deputado Gabriel Motta (Republicanos-RR), mas foi exonerada após uma reportagem do Estado de São Paulo averiguar que ela não participava da rotina de trabalho. Já a madrasta, Vanderleia Vieira Mendes, é assistente na superintendência jurídica da Companhia de Águas e Esgoto de Roraima desde 2022.

Lira e Jesus (Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados)
É este personagem que agora quer analisar os documentos do Banco Central (BC) que tratam da liquidação do Master
Na avaliação de Luiz Henrique Cadermatori, professor do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina, esta é uma situação inédita na história da República. Ele explica que nunca aconteceu de uma espécie de órgão fiscalizador exercer controle sobre outro órgão fiscalizador, em poderes independentes.
Para o professor, o caso cria um conflito político: “Os membros do Tribunal de Contas são escolhas políticas movidas por critérios políticos. O técnico faz a avaliação, mas o ministro é quem decide, então é diferente do Banco Central, onde todos os cargos são eminentemente técnicos. Isso traduz uma certa situação incomum e questionável politicamente”.
Cadermatori reforça que a liquidação de bancos ou definição de critérios sobre sua atuação envolve decisões técnicas. Ele adverte que a repercussão do caso no TCU é moralmente e politicamente questionável, mas que juridicamente não há um impedimento prévio a esse tipo de situação. “Não haveria uma limitação, a priori, de que órgãos o Tribunal de Contas estaria impedido de fiscalizar”.
Emendas na mira de Dino
O rigor com que Jhonatan agora se dispõe a usar na análise dos pareceres do BC nem sempre foi usado em seus tempos de deputado.
As emendas que ele direcionou para a cidade de Iracema, que tem cerca de 14 mil habitantes, foram fiscalizadas pela Controladoria Geral da União em relatório público de maio de 2025. Quatro meses depois, o ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino suspendeu os repasses à cidade por ter constatado irregularidades em relação à transparência e à rastreabilidade.
A pequena Iracema foi a quinta cidade do Brasil que mais recebeu emendas pix entre 2020 e 2024. Jhonatan destinou cerca de R$ 11,7 milhões ao município entre 2020 e 2023, para as áreas de energia e transporte. As conclusões da CGU sobre dois desses repasses auditados referem-se a um contrato de R$ 2,98 milhões e um de R$ 799 mil, para implantação de rede elétrica e iluminação pública em LED.
As obras foram entregues, mas com inconsistências no plano de trabalho, inexistência de publicação no portal de compras públicas e barreiras nos processos de licitação que desestimularam a competitividade. O portal de transparência do município também não deu clareza ao processo, dificultando a rastreabilidade dos recursos.
Apesar de serem alvo da auditoria da CGU, cujo relatório foi encaminhado por Dino à Polícia Federal, as emendas do atual ministro do TCU não têm seu nome nos documentos, sendo identificadas somente pelo número. O cruzamento entre o número da emenda e o nome do parlamentar pode ser feito no portal da transparência ou de transferências especiais.
De pai para filho
Uma emenda do pai de Jhonatan também está sob o núcleo de investigações do STF e da CGU. Um repasse de R$ 2,2 milhões do ex-senador Mecias de Jesus para o município de São Luiz do Anauá foi utilizado para a folha de pagamento, o que é constitucionalmente vedado. A controladoria concluiu que o plano de trabalho apresentado não refletia um planejamento prévio real.
Em 2021, o nome do ex-senador foi listado pelo jornal O Globo entre os 290 parlamentares que fizeram os maiores repasses do orçamento secreto, com R$ 22 milhões recebidos. Em 2023, o UOL identificou Mecias como um dos que recebeu recursos do Programa Calha Norte, que teria possibilitado que o senador direcionasse verbas do Ministério da Defesa a obras em sua área de interesse. Hoje, o programa tem uma auditoria em curso no TCU, na qual Jhonatan também é relator.
O ex-deputado e o pai também foram alvo de críticas na crise vivida pelo povo Yanomami ao longo do governo Bolsonaro. Então deputado, Jhonatan recebeu cerca de R$ 37 milhões para investimentos no território via orçamento secreto, segundo levantamento feito pelo Metrópoles, em 2023.
De acordo com relatório da organização Transparência Brasil, o Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami tinha influência política de Jhonatan e Mecias. O documento relata que o Ministério Público Federal (MPF) instaurou um inquérito para investigar indícios de participação do ex-senador num possível favorecimento em contrato, além de denúncia de propina por parte de uma empresa inabilitada na concorrência para prestar serviços aéreos.
Sem empréstimo de bancos públicos
Na Câmara, o último feito de Jhonatan foi ser o relator do projeto que concedeu ao piloto Lewis Hamilton o título de cidadão honorário do Brasil, em junho de 2022.
O período mais produtivo na casa foi entre 2019 e 2021, ápice do governo Bolsonaro, mas o parlamentar também se destacou durante o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.
Jhonatan de Jesus fez parte da Comissão Especial que abriu o processo após aceite de Eduardo Cunha. Na época, além de votar a favor do impeachment, ele indicou o que pensa a respeito de bancos públicos. “O governo não pode tomar empréstimo de bancos públicos”, disse. A persistir esse posicionamento, o agora ministro deveria condenar a compra do Master pelo BRB, um banco público, rejeitada pelo Banco Central.
Anos depois, logo após indicado ao cargo no TCU, o ministro parece ter mudado de posição sobre a responsabilização de agentes públicos em seus atos. Ele afirmou que os erros nos processos administrativos, muitas vezes, ocorrem por falta de conhecimento e orientação e se colocou à disposição para ser uma ponte entre as prefeituras e o tribunal.
Agenda conservadora
Apenas três projetos com autoria do parlamentar foram transformados em norma jurídica em 12 anos: a concessão de terras da União ao Estado de Roraima (criticado pela esquerda por aumentar conflitos e atividade de mineração), a definição do rateio de um leilão de pré-sal e o aproveitamento de créditos do ensino profissional na educação superior.
Quando parlamentar, Jhonatan de Jesus também encampava projetos de lei com viés conservador e foco nos interesses evangélicos. É dele, por exemplo, uma proposta para a criação do Dia Nacional do Pastor Evangélico, a ser comemorado anualmente no segundo domingo do mês de junho. Outra proposta foi a não incidência de IPTU sobre templos de qualquer culto.
Ele também assinou projeto para proibir uso de recursos públicos na aquisição ou manutenção de equipamentos, serviços ou atividades que tenham relação, direta ou indiretamente, com o “aborto provocado”.
Além disso, acenou para o extremismo em outras agendas, como coautor de projeto sobre “doutrinação” nas escolas e apoiador da anulação de portarias do Ministério da Educação que instituíam comitês de gênero.
Na questão indígena, Jonathan foi autor de um projeto para excluir uma área urbana da Reserva Indígena de São Marcos. Em maio de 2024, o PL teve parecer do relator pela aprovação na Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais.
Cerco ao BC
Quando tomou posse no TCU, em março de 2023, o ministro afirmou que suas decisões seriam pautadas na ética, na transparência, no respeito à legislação e na isonomia, prometendo “assegurar aos cidadãos uma vida mais digna, segundo a prevalência do bem comum e do constante desenvolvimento nacional”.
No órgão, Jhonatan também é responsável por acompanhar as ações do governo federal no combate à lavagem de dinheiro no mercado de bets e determinou, no início de dezembro, que o Ministério da Fazenda tomasse providências para garantir à Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) recursos humanos, tecnológicos e orçamentários compatíveis com as atribuições de regulação e fiscalização.
O TCU passou a ocupar as manchetes junto ao Master em dezembro, quando Jhonatan de Jesus pediu explicações ao Banco Central quanto ao processo de liquidação. A última movimentação diz respeito à inspeção por parte do tribunal em documentos sigilosos relacionados ao processo. Em despacho publicado nesta segunda-feira, o relator apontou uma necessidade de “formação de convencimento” de que a liquidação extrajudicial determinada pelo BC foi coerente.
A bancada do PSOL é uma das que tem se manifestado sobre o Caso Master e seus impactos na política. O deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ) teme que, com este episódio, as operações fraudulentas do banco deixem de ser investigadas. Ele lembra que Jhonatan de Jesus foi apadrinhado por Lira para chegar à corte de contas.
“É preciso que o caso do Banco Master, como outras falcatruas do grande capital financeiro, das quais pouquíssimos se escapam, sejam investigadas”, aponta. O parlamentar lembra que o banqueiro acabou sendo libertado pouco tempo após ser preso e argumenta que o sigilo imposto pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, nas investigações, também é ponto de questionamento. “Há sobradas razões para a gente achar que esse caso Master vai acabar sendo acobertado, minimizado e desaparecer do horizonte das investigações sérias”.
Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar!