Vorcaro, o Banqueiro Republicano

Por Filinto Branco

Vorcaro, o Banqueiro Republicano

Tem escândalo que começa pequeno e vai crescendo até ficar grande demais para caber numa manchete. Começa com um banqueiro, passa por um contrato milionário, encontra algumas mensagens, descobre um encontro reservado e, quando a gente percebe, já tem ministro do Supremo, político, advogado, avião, filme e milhões de dólares disputando espaço na mesma história.

O dono do Banco Master já aparecera associado a uma impressionante rede de relações políticas, empresariais e jurídicas. Agora, as revelações começam a atingir em cheio o Supremo Tribunal Federal. Primeiro vieram as mensagens entre Vorcaro e Alexandre de Moraes. Depois, veio à tona o contrato de cerca de R$ 130 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. R$ 130 milhões. É uma quantia que, para a maioria dos brasileiros, não é exatamente um contrato. É quase uma biografia financeira. E a história ainda ganhou novos capítulos com informações sobre um segundo contrato, envolvendo aeronaves e despesas de voo, que o escritório nega ter existido.

Até aí, poderíamos imaginar que a história estava concentrada em Alexandre de Moraes. Só que não. Agora aparecem conversas e registros de um encontro reservado entre Vorcaro e outro ministro do Supremo: André Mendonça. O encontro aconteceu em março de 2025, em São Paulo. Mendonça confirmou que recebeu o banqueiro e afirmou que a conversa tratou de uma questão relacionada a precatórios que estava em julgamento no STF. Perfeito. Reuniões são parte da vida pública. Ministros recebem advogados, empresários, políticos e sabe-se lá mais quem. Afinal, o STF não é um mosteiro. O problema aparece quando começamos a olhar a fotografia inteira. Porque foi justamente André Mendonça quem determinou a retirada do sigilo de parte dos documentos que permitiram conhecer as relações de Vorcaro com Alexandre de Moraes. E agora descobrimos que o mesmo Vorcaro também havia procurado Mendonça. É quase uma história de mistério em que o detetive abre a porta secreta e descobre que já tinha tomado café com o suspeito.

Mas vamos com calma. Uma reunião não é crime. Uma conversa não é crime. Um contrato de advocacia não é crime. Nem mesmo conhecer muita gente poderosa é crime. O problema está em outra parte: na aparência. Ministros do Supremo precisam ser independentes. Mas não basta ser independente. É preciso também parecer independente. Porque Justiça não vive apenas de decisões corretas. Vive de confiança. E confiança, ao contrário de contratos bancários, não tem cláusula de renovação automática.

Vorcaro, pelo que vai aparecendo, tinha acesso. Acesso a ministros, a políticos, a advogados, a empresários. E o mais curioso é que ele não tinha a velha mania brasileira de escolher um lado. Enquanto seu nome aparece relacionado a ministros do Supremo, surgem também revelações sobre sua relação financeira com a família Bolsonaro. A história do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, já era suficientemente curiosa. Agora apareceu mais um capítulo: um relatório do Coaf identificou um novo repasse de US$ 1,6 milhão para um fundo ligado ao financiamento do filme, levando os valores identificados destinados ao projeto para algo em torno de US$ 12,3 milhões. Doze milhões de dólares. Para se ter uma ideia, O Agente Secreto, um dos grandes filmes brasileiros recentes, custou cerca de US$ 5,3 milhões. Ou seja, os repasses atribuídos a Vorcaro para Dark Horse passam de duas vezes o orçamento de O Agente Secreto. Doze milhões de dólares. Para um filme. Talvez Hollywood esteja realmente mais cara do que eu imaginava.

O mais curioso é que Flávio Bolsonaro, de um lado, era um dos mais duros críticos de Alexandre de Moraes. Vorcaro, de outro, aparentemente não precisava escolher. Conversava com um, conversava com outro, fazia negócios aqui, negociava ali, financiava um projeto acolá. Ou seja, enquanto nós, pobres mortais, passamos horas discutindo se somos de esquerda ou de direita, há gente no topo da pirâmide que parece preferir uma posição mais confortável: em cima da própria pirâmide.

Além do Supremo e da família Bolsonaro, tem o senador do PT Jaques Wagner. A Polícia Federal identificou contatos frequentes do senador com Augusto Lima, sócio de Vorcaro, e mensagens em que Wagner surge como possível interlocutor para levar recados a Lula. Ele nega irregularidades, e a investigação dirá até onde foram essas relações. Não sobra ninguém.

É aqui que a polarização brasileira começa a parecer uma piada de mau gosto. Porque talvez este não seja um caso de esquerda contra direita. Talvez seja um caso de dinheiro circulando com uma desenvoltura que faria inveja a muito político profissional. Não estou dizendo que todos cometeram crimes. Seria irresponsável afirmar isso antes que as investigações terminem. A lama de que estou falando é outra. É a lama da desconfiança. É aquela camada espessa que aparece quando interesses privados, dinheiro, relações pessoais e instituições públicas começam a se aproximar demais.

O cidadão olha para tudo isso e pergunta, com toda razão: como um banqueiro consegue ter tanta gente importante no celular? Como alguém que está no centro de uma investigação pode circular com tanta desenvoltura entre diferentes núcleos de poder? E, sobretudo, por que parece tão fácil chegar aonde o cidadão comum jamais conseguiria chegar? Talvez ainda não saibamos a resposta. Mas já sabemos uma coisa: a história está ficando grande demais para ser explicada como simples coincidência.

E não adianta tentar resolver tudo com a velha fórmula brasileira: “Não aconteceu nada.” Pode até não ter acontecido crime. Mas alguma coisa aconteceu. A confiança diminuiu. E isso, numa democracia, já é bastante coisa. Instituições não podem depender apenas de não cometer ilegalidades. Elas precisam cultivar distância, transparência e prudência, principalmente quando lidam com dinheiro. Muito dinheiro. Dinheiro suficiente para produzir filme, contratar escritórios, fretar aeronaves e, aparentemente, manter uma agenda social que faria inveja a qualquer colunista de sociedade.

No fim, talvez o caso Vorcaro não revele apenas os segredos de um banqueiro. Talvez revele um velho problema brasileiro: o poder gosta de dizer que é republicano, mas não dispensa uma boa amizade particular. E aí voltamos à pergunta que permanece pendurada no ar: por que Vorcaro conhecia tantas portas de entrada para o poder? E, mais importante ainda, quem abria essas portas?

Porque uma coisa é certa: quando começamos a investigar o Banco Master, procurávamos respostas sobre um banco. Agora estamos encontrando perguntas sobre o sistema.

Filinto Branco

 

Cronista de ideias

Por Jornal da República em 04/09/2026
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