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Alexandre de Moraes: a ascensão meteórica que transformou um jurista da USP no ministro mais poderoso — e mais contestado — do STF

Da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco à presidência do TSE, o paulistano de 54 anos acumulou cargos, polêmicas e inimigos nos dois extremos do espectro político. Entre o caso do hacker que chantageou Marcela Temer e as acusações de censura a bolsonaristas, Moraes virou o rosto mais divisivo do direito brasileiro na última década.
O nome e a origem
Alexandre de Moraes nasceu em São Paulo, em 13 de dezembro de 1968. O nome carrega uma herança simbólica: a junção do grego alexandros, "aquele que protege o homem", com o sobrenome ibérico de origem toponímica, derivado de uma localização geográfica onde havia amoras. O sobrenome Moraes, em suas variações com "s" ou "z", é o 45º mais comum do Brasil, presente em mais de 600 mil brasileiros.
Católico apostólico romano, corintiano, casado e pai de três filhos, Moraes construiu uma trajetória que seus críticos chamam de meteórica e seus defensores, de brilhante. Aos 22 anos, formou-se na Faculdade de Direito da USP; aos 23, tornou-se promotor de justiça; aos 30, doutor; aos 33, o mais novo secretário da Justiça da história de São Paulo, nomeado por Geraldo Alckmin.
A carreira antes do Supremo
A trajetória pública de Moraes é marcada por cargos de peso em diferentes áreas. Aos 37, virou uma espécie de super-secretário municipal de Transportes de São Paulo na gestão Kassab, acumulando funções que iam da iluminação da cidade à coleta de lixo. Aos 46, assumiu a Secretaria Estadual de Segurança Pública de São Paulo, outra vez sob Alckmin. Aos 47, chegou ao Ministério da Justiça do Brasil.
A nomeação para o Ministério da Justiça, porém, carrega um episódio curioso que marcou sua relação com o então presidente Michel Temer. Em abril de 2016, o telhadista autônomo Silvanei José de Souza obteve acesso aos dados sincronizados na conta do iCloud da primeira-dama Marcela Temer, incluindo fotos e backups de mensagens do WhatsApp. Com os arquivos em mãos, passou a chantageá-la, exigindo R$ 300 mil para não divulgar um material que, segundo ele, "jogaria o nome de Temer na lama".
O caso do hacker e a confiança de Temer
A operação para capturar Silvanei envolveu cinco delegados, 25 agentes e três peritos, com escutas telefônicas em tempo real. À frente dos esforços estava o então secretário estadual de Segurança Pública de São Paulo, Alexandre de Moraes. O hacker foi preso em maio de 2016 e condenado a cinco anos, dez meses e 25 dias de prisão em regime fechado pelos crimes de extorsão e estelionato.
O episódio foi decisivo para Moraes ganhar a confiança de Temer e ser nomeado ministro da Justiça. Em menos de um ano, o próprio Temer o indicou para o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal, após a morte do ministro Teori Zavascki, em janeiro de 2017, que abriu uma vaga inesperada na mais alta corte do país.
A chegada ao STF e as críticas da esquerda
A indicação de Moraes ao STF não foi pacífica. Antes mesmo da posse, em março de 2017, o nome do jurista enfrentou protestos de movimentos sociais no Rio e em São Paulo, e uma abaixo-assinado contra ele reuniu mais de 266 mil assinaturas. No Senado, o senador Randolfe Rodrigues (Rede) e a então senadora Gleisi Hoffmann (PT) criticaram a indicação, classificando-a como partidária e preocupante para os valores republicanos.
A relação de Moraes com o campo da esquerda sempre foi tensa. Em 2016, ele foi expulso de um protesto contra Dilma Rousseff na Avenida Paulista, xingado por manifestantes de "aproveitador" e "ladrão". Também foi chamado de "fascista" por grupos do campo progressista. Como ministro da Justiça, chegou a dizer que o Brasil precisava de "mais armas e menos pesquisas" e que as novelas da Globo "glamourizavam o tráfico de drogas".
As polêmicas com o campo bolsonarista
Nos últimos anos, Moraes se tornou persona non grata para a direita, em especial para o campo bolsonarista, que o acusa de prender e censurar opositores políticos por crimes de opinião. Durante os quatro anos do governo Bolsonaro, o ministro esteve em confronto direto com o Executivo, criticado por agir de maneira heterodoxa. Seus defensores dizem que, em tempos extraordinários, Moraes age de modo extraordinário para proteger a democracia.
As críticas, porém, não vêm apenas dos bolsonaristas. O jornal americano The New York Times já questionou os limites do poder de Moraes, e o jornalista Glenn Greenwald afirmou que o STF se tornou a principal ameaça à democracia brasileira. O ex-ministro do STF Marco Aurélio Mello disse que errou ao afirmar, em 2017, que Moraes estava preparado para o cargo, e o comparou a um "xerife". A revista The Economist, em setembro de 2026, publicou editorial afirmando que o STF se tornou uma ameaça à democracia e questionou os métodos do ministro.
O ativismo judicial e a defesa da democracia
Antes de chegar ao Supremo, Moraes sempre afirmou desaprovar a rota de colisão entre os poderes. Na sabatina para a vaga no STF, criticou o ativismo judicial, defendendo que os conflitos entre os poderes fossem resolvidos por uma "aplicação equilibrada e harmônica do princípio da separação de funções estatais". Em 2008, em entrevista ao site Consultor Jurídico, foi enfático: se o Judiciário interferisse demais nos outros dois poderes, estes deixariam de cumprir as decisões judiciais e o Judiciário perderia sua legitimidade.
Essa posição contrasta com a atuação recente do ministro, descrito por auxiliares como centralizador, detalhista, rígido, vaidoso e, por vezes, truculento. Para muitos, Moraes é o ministro do Supremo que mais se parece com um delegado à frente de uma ação policial. A Gazeta do Povo, em levantamento publicado em julho de 2026, mapeou 104 decisões do ministro que geram críticas sobre concentração de poder e censura no Brasil.
A obsessão por Alexandre, o Grande
Moraes sempre foi obcecado por outro Alexandre: Alexandre, o Grande, rei da Macedônia, xá da Pérsia e faraó do Egito, um homem de grandes feitos — inclusive o de nunca ter perdido uma batalha. Hoje, após a ascensão meteórica ao topo da Justiça, esse também parece o retrato de Moraes em Brasília: um sujeito invencível, acostumado a travar e vencer grandes batalhas, cada vez mais acostumado a aumentar seu território nos círculos de poder. A dúvida que fica é até quando.
Perfil: quem é Alexandre de Moraes
Alexandre de Moraes é ministro do Supremo Tribunal Federal desde 22 de março de 2017 e ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Graduado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP, turma de 1990), é doutor em Direito do Estado (2000), livre-docente em Direito Constitucional (2001) e professor titular da Faculdade de Direito da USP, onde chefiou o Departamento de Direito do Estado entre 2012 e 2014. Antes do STF, foi promotor de justiça, secretário estadual da Justiça e da Segurança Pública de São Paulo e ministro da Justiça e Segurança Pública do Brasil. É autor de obras de referência em Direito Constitucional e um dos protagonistas do cenário político-jurídico brasileiro contemporâneo.
Por Ralph Lichotti
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