Anselmo Leal detalha recuperação de 301 bilhões de litros, redução de perdas de 65% para patamar abaixo de 45% e projeto Apura, que transforma esgoto em água para indústria

Em evento da TCM Conecta,

O diretor-presidente da Águas do Rio, Anselmo Leal, foi entrevistado durante o evento da TCM Conecta sobre tecnologia e sustentabilidade. A conversa começou pelo tema que domina o debate atual: o consumo de água por data centers.

"A gente vai falar muito que os data centers demandam água. E a Aegea tem uma unidade de negócio chamada Apura, que funciona exatamente para receber o esgoto das nossas estações, processá-los em membranas e produzir água de reúso."

O ciclo fechado que muda a lógica

A explicação do modelo foi didática. "Pensando em sustentabilidade, é como se esse ciclo da água nunca acabasse. A água coletada no manancial, tratada, entregue para as casas, as casas geram esgoto, a gente trata esse esgoto transformando em água possível para usar pela indústria."

O raciocínio tem um objetivo declarado: evitar competição pelo recurso. "Nada mais sustentável do que reutilizar a própria água, que pareceu um bem tão abundante. E hoje a gente tem visto, nessas mudanças climáticas, ela cada dia mais escassa."

"Então a gente se preparou como companhia para ser uma fonte de fornecimento de água ininterrupta e não permitir com que o consumo industrial compita com o consumo humano."

O primeiro projeto já em operação

O modelo não é teórico. Em projeto no Rio de Janeiro, a Águas do Rio trata o esgoto coletado e o converte em água para uso industrial no Complexo de Energias Boaventura. A substituição da captação em manancial por água de reúso poupa volume suficiente para abastecer uma população inteira.

É a mesma lógica que a indústria de data centers precisa resolver. Um levantamento da Brasscom mostra que cerca de 80% do parque brasileiro já opera com circuito fechado de resfriamento, com abastecimento único de água, e a projeção é chegar a 90% até 2030. Os 20% restantes ainda usam torres de resfriamento com consumo contínuo — estimativa de 1.500 litros por MWh.

Os números do esgoto no Rio

Ao ser questionado sobre despoluição da Baía de Guanabara, Anselmo deslocou o eixo da resposta.

"O nosso grande trabalho, na verdade, é cuidar das pessoas. Hoje existem 90 milhões de brasileiros que convivem com o esgoto dentro de casa. Aqui no Rio de Janeiro, apenas 45% do esgoto é coletado, e do que coleta, metade trata."

O dado nacional confirma a escala. Segundo o Trata Brasil, com base no SINISA (ano-base 2024), aproximadamente 90 milhões de pessoas não têm acesso à coleta de esgoto no país, e apenas 51,8% do esgoto gerado é tratado antes de retornar ao meio ambiente.

Indicador Dado
Brasileiros sem coleta de esgoto ~90 milhões
Esgoto tratado no Brasil 51,8%
Esgoto coletado no Rio de Janeiro 45%
Tratamento sobre o coletado no RJ cerca de 50%
Colaboradores da Águas do Rio ~8.000
Municípios atendidos 27
Bairros da capital 124
Fluminenses atendidos 12 milhões

 

A despoluição como consequência, não como objetivo

A formulação do presidente é precisa e incomum no setor. "O nosso trabalho é garantir que o esgoto produzido pelo São João, pela dona Maria, seja de fato coletado, levado às nossas estações para tratamento. E como efeito colateral, esse esgoto para de cair na Baía de Guanabara."

"E assim a gente vai vendo praia do Botafogo balneável, praia do Flamengo balneável — mas através de cuidar das pessoas, levando rede coletora de esgoto nas casas. Nós temos um efeito colateral que é essa beleza, que é a despoluição da baía."

A inversão de prioridade tem consequência prática. Programas de despoluição que começam pela orla produzem resultado visual e midiático, mas revertem com a primeira chuva. Os que começam pela rede domiciliar são mais lentos, mais caros e mais duradouros.

Inteligência artificial no combate às perdas

Sobre o uso de tecnologia, a resposta foi concreta. "A gente usa muito a parte de inteligência artificial, seja no processamento dos nossos dados de volumetria de água. Nós temos modelagens de gêmeo digital para inferir cenários futuros de abastecimento. Dimensionamos sistemas com uso de inteligência artificial, imageamento de satélite. Isso já está bastante aderido ao nosso negócio."

O dado que sustenta essa adoção é expressivo: cerca de 45% do volume distribuído pela companhia já é monitorado por medição inteligente, índice que chega a 65% na operação do Rio de Janeiro. A rede conta com 200 válvulas inteligentes distribuídas em pontos estratégicos.

O satélite que procurava água em Marte

O ponto mais notável da entrevista veio quando o assunto foi vazamento.

"O que nós encontramos quando recebemos o sistema foram perdas superiores a 65%. A gente perdia muito mais água do que a capacidade de entregar água na casa das pessoas. E a gente tem usado o que tem de mais moderno no mundo: usamos o mesmo satélite que a NASA usou para procurar água em Marte. É o que nós usamos aqui agora para procurar água na Terra."

A tecnologia, adaptada por uma empresa israelense, identifica a assinatura espectral do cloro no subsolo — substância presente na água tratada, mas ausente em água de chuva, esgoto ou lençol freático. Em uma única passagem orbital, mapeia áreas de até 350 km², o equivalente a cerca de 49 mil campos de futebol, detectando problemas em tubulações até 3 metros de profundidade.

Resultado do satélite Dado
Vazamentos detectados (2024) 2.726 possíveis
Confirmados em campo 2.144
Assertividade ~80%
Vazamentos ocultos reparados (2025) 1.161
Água poupada só em 2025 21,8 bilhões de litros
Total recuperado em 4 anos 301 bilhões de litros
Rede monitorada 17 mil km de tubulações

 

"A gente consegue detectar vazamentos até 3 metros de profundidade usando satélite. Isso já nos ajudou a reduzir em mais de 20% as perdas de água da região metropolitana. Mas a gente tem uma longa jornada pela frente, porque até 2033 essas perdas deverão estar em 25%."

A água que já existe

A síntese do modelo aparece na frase final sobre perdas. "A água que vai melhorar o abastecimento dos fluminenses não é uma produção nova, é perder menos. O desafio do Rio de Janeiro é abastecer as pessoas com a água que já está aqui, sem precisar de um novo manancial."

A afirmação tem peso técnico. No Brasil, a cada três litros de água tratada que saem de uma estação de saneamento, um desaparece antes de chegar à torneira. Reduzir perdas custa menos que construir nova captação — e não depende de chuva.

Os investimentos

Sobre o horizonte da empresa, Anselmo apresentou os números. "A gente acredita muito no estado do Rio de Janeiro. Já investimos mais de R$ 6 bilhões no estado, sendo R$ 16,6 bilhões de outorga e quase R$ 7 bilhões em obras realizadas. A gente acredita que até 2033 vamos ter uma profunda transformação do Rio de Janeiro através do saneamento."

No consolidado do grupo, a Aegea investiu R$ 7,3 bilhões em 2025 e mais R$ 1,6 bilhão no primeiro trimestre de 2026, encerrando o ano anterior com atendimento a mais de 39 milhões de pessoas em 893 municípios.

Bio de Anselmo Leal

Anselmo Leal é diretor-presidente da Águas do Rio, concessionária do grupo Aegea Saneamento responsável pelo abastecimento de água e esgotamento sanitário em 27 municípios do estado do Rio de Janeiro e em 124 bairros da capital, atendendo cerca de 12 milhões de fluminenses com um quadro de aproximadamente 8.000 colaboradores. Sua gestão se consolidou sobre quatro frentes técnicas que se tornaram referência nacional no setor. A primeira é o combate às perdas: quando a concessionária assumiu a operação, em 2021, o índice de água tratada perdida superava 65%. Com um programa que combina monitoramento por satélite — tecnologia originalmente desenvolvida para localizar água no subsolo de Marte, adaptada para detectar a assinatura espectral do cloro no subsolo —, válvulas inteligentes e telemetria, a companhia já recuperou 301 bilhões de litros em pouco mais de quatro anos, com redução superior a 20 pontos percentuais nas perdas da região metropolitana. A segunda é a economia circular: sob seu comando, a Aegea estruturou a unidade de negócio Apura, que trata esgoto em membranas e produz água de reúso para fins industriais, modelo já aplicado no Complexo de Energias Boaventura, no Rio, com o objetivo explícito de evitar que o consumo industrial compita com o abastecimento humano. A terceira é a inteligência artificial aplicada ao negócio, com modelagem de gêmeo digital para simular cenários futuros de abastecimento e dimensionamento de sistemas. A quarta é a expansão da rede coletora, que ele trata como prioridade social antes de ambiental: "o nosso grande trabalho é cuidar das pessoas", afirma, ao lembrar que cerca de 90 milhões de brasileiros vivem sem coleta de esgoto. Sua posição sobre a despoluição da Baía de Guanabara é técnica e direta — a recuperação de praias como Botafogo e Flamengo é consequência, não ponto de partida. Em 2026, levou os resultados da operação ao Water Loss 2026, maior congresso mundial sobre eficiência hídrica, e apresentou o modelo carioca em eventos de tecnologia e sustentabilidade. Sua tese central dispensa metáfora: "A água que vai melhorar o abastecimento dos fluminenses não é uma produção nova, é perder menos."

Por Jornal da República em 04/11/2026
Aguarde..