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Imóvel que pertenceu a Clara Nunes entra na lista de bens indisponíveis por decisão do STF no inquérito que apura lavagem de dinheiro em apostas online
A decisão que travou o imóvel
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, tornou indisponível a Ilha Comprida, em Angra dos Reis, no litoral sul fluminense. O imóvel é objeto de uma disputa judicial que se arrasta desde 2020 e envolve o atacante Richarlison, da Seleção Brasileira, o advogado Willer Tomaz e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A ordem foi lançada na Central Nacional de Indisponibilidade de Bens (CNIB) em 26 de outubro e averbada pelo cartório de Angra dos Reis 48 horas depois.
Na prática, a medida impede qualquer venda, transferência, cessão ou oneração da propriedade enquanto a situação jurídica não for definida. O bloqueio alcança os bens da WT Administração de Imóveis e Bens, empresa ligada a Willer Tomaz, e foi determinado no âmbito do inquérito que investiga suspeitas de lavagem de dinheiro por meio de plataformas de apostas online.
Não se trata de uma decisão sobre quem é o dono da ilha. Trata-se de uma cautelar patrimonial: o imóvel fica congelado até que o STF conclua se há relação entre o bem e a prática de ilícitos investigados.
O inquérito que originou tudo
O inquérito foi aberto em 18 de outubro pelo próprio Moraes, que é o relator sorteado. A investigação começou na primeira instância da Justiça Federal no Rio Grande do Sul, onde se apuravam movimentações financeiras suspeitas. A Polícia Federal gaúcha quebrou o sigilo telemático de Willer Tomaz e encontrou e-mails que apontavam Flávio Bolsonaro como "usuário master" de uma conta bancária da empresa Alcazar Holdings.
A Procuradoria-Geral da República analisou os indícios e se manifestou favoravelmente à abertura da apuração. Segundo relatos da PF ao Supremo, foram identificados elementos indicativos de que Willer Tomaz exercia controle de fato sobre a Rede Loto, no Rio de Janeiro, e usava uma estrutura coordenada de empresas para ocultar a origem e o destino de valores no mercado de loterias. O período de maior movimentação coincide com o governo de Cláudio Castro (PL), aliado de Flávio.
O número que mais chama atenção está na movimentação em apostas: em uma única plataforma, Willer Tomaz teria apostado cerca de R$ 5 bilhões no ano passado. O deputado federal Rogério Correia (PT-MG), vice-líder do governo na Câmara, foi além em crítica pública nesta terça-feira (3): afirmou que o advogado "lavava dinheiro por meio de apostas" e que teria declarado prejuízo de R$ 200 milhões após movimentar R$ 6 bilhões e receber R$ 5,8 bilhões — números que ele atribui às apurações, não a uma condenação.
Tanto Flávio Bolsonaro quanto Willer Tomaz negam irregularidades.
Como começou a disputa pela ilha
A história da Ilha Comprida é anterior ao inquérito. Em outubro de 2020, em plena pandemia, Richarlison afirma ter adquirido direitos sobre a área em parceria com o deputado estadual Alencar da Silveira Júnior. O jogador sustenta ter investido aproximadamente R$ 10 milhões no total — R$ 4,66 milhões pagos a antigos ocupantes, além de reformas, segurança e manutenção.
O atacante afirma que Flávio Bolsonaro demonstrou interesse em comprar a propriedade, mas teve o pedido recusado. A partir daí, segundo a versão do jogador, o senador teria se aliado ao advogado Willer Tomaz para retirar dele os direitos sobre o imóvel "na mão grande". Richarlison diz ter perdido a posse sem receber de volta o valor investido.
Flávio Bolsonaro nega participação na disputa. Admite, porém, ter visitado a propriedade — e figura como testemunha no processo judicial que discute a posse da casa. A propriedade tem valor histórico adicional: pertenceu à cantora Clara Nunes.
Willer Tomaz rebate. Segundo ele, o jogador comprou a área de pessoas que não tinham direito de vendê-la, e a ocupação atual é legal. O advogado afirma ter pago cerca de R$ 3,6 milhões pelo imóvel.
O que já foi decidido na Justiça
A disputa corre em mais de uma frente. Em 30 de outubro, Richarlison obteve uma vitória no Distrito Federal. O juiz Giordano Resende Costa, da 4ª Vara Cível de Brasília, negou liminar pedida por Willer Tomaz e pela WT Administração de Imóveis que obrigaria o jogador a apagar publicações nas redes sociais sobre o caso.
O fundamento da decisão foi técnico e relevante: o magistrado entendeu que a proibição antecipada de novas manifestações configuraria risco de censura prévia. A ação principal, porém, segue em curso — a empresa e o advogado cobram R$ 200 mil por danos morais e exigem retratação pública.
| Frente judicial | Situação | Última movimentação |
|---|---|---|
| Inquérito no STF (lavagem de dinheiro) | Em apuração, sob relatoria de Moraes | Indisponibilidade da ilha em 26/10 |
| Ação civil em Brasília (posse e danos morais) | Em tramitação | Liminar negada a Willer Tomaz em 30/10 |
| Pedido de suspensão da transferência (SPU) | Em análise no STF | Petição de deputados do PT em 21/10 |
| Defesa de Flávio no inquérito | Requerimento protocolado | Pedido de impedimento de Moraes em 02/11 |
A pressão política em torno do processo
A ofensiva não é apenas jurídica. Em 21 de outubro, os deputados federais Rogério Correia (PT-MG) e Pedro Uczai (PT-SC) pediram a Moraes a suspensão imediata da transferência dos direitos de ocupação do imóvel, alegando irregularidades no processo conduzido pela Secretaria do Patrimônio da União (SPU). A petição sustenta que o procedimento foi concluído em pouco mais de dois meses, sem parecer ou decisão devidamente fundamentada.
A origem do imóvel reforça o argumento: trata-se de área da União, o que submete qualquer transferência a regras específicas de patrimônio público. Se houver vício no procedimento administrativo, a cadeia de titularidade pode ser questionada independentemente da disputa privada entre as partes.
Do outro lado, a defesa de Flávio Bolsonaro protocolou em 2 de novembro pedido para que o ministro André Mendonça assuma a relatoria do inquérito. Os advogados requerem também a declaração de impedimento de Moraes e a revogação das medidas cautelares impostas ao senador, que incluem apreensão de passaportes e proibição de contato com Willer Tomaz.
Richarlison e a ironia que virou munição
O jogador transformou a disputa em pauta pública. Em 17 de outubro, publicou vídeo pedindo investigação da Polícia Federal e afirmou que pretende doar parte do dinheiro recuperado a um hospital. Em 21 de outubro, expôs documentos que, segundo ele, comprovam a compra da área e os investimentos realizados.
Dias depois, quando Flávio Bolsonaro já estava nos Estados Unidos, Richarlison publicou uma frase curta que viralizou: "Então não tem ninguém na ilha, né?" O tom irônico deslocou o debate do campo jurídico para o campo político, associando a saída do país à disputa pelo imóvel.
É exatamente esse tipo de conversão narrativa que torna o caso sensível para o senador. A cada aparição pública do jogador, o assunto deixa de ser a validade de um contrato de cessão de direitos e passa a ser a conduta de um parlamentar sob investigação no Supremo.
O que a decisão de Moraes significa
Bloqueios patrimoniais em inquéritos de lavagem de dinheiro não são punição antecipada. São instrumentos para impedir que o produto de eventual ilícito seja dilapidado durante a apuração. No caso da Ilha Comprida, o efeito prático é duplo: protege o bem enquanto a Justiça define a titularidade e submete o imóvel ao regime de restrição caso se confirme o vínculo com os fatos investigados.
Para Richarlison, o bloqueio é conveniente. Impede que a propriedade seja transferida a terceiros antes de uma decisão definitiva sobre a posse. Para a defesa de Willer Tomaz, é mais um capítulo de uma ofensiva que considera injustificada. Para Flávio Bolsonaro, é o cruzamento de duas crises: a investigação sobre apostas e a saída do país após a derrota eleitoral.
O senador deixa o mandato em janeiro de 2027 e, com isso, perde o foro privilegiado pela primeira vez em 24 anos. A partir daí, o inquérito pode descer de instância, o que altera o ritmo e a dinâmica processual.
Bio de Richarlison
Richarlison de Andrade nasceu em Nova Venécia, no Espírito Santo, em 10 de maio de 1997, e construiu uma das trajetórias mais improváveis do futebol brasileiro recente. Revelado pelo América Mineiro, chegou ao profissional em 2015 e rapidamente chamou atenção pelo vigor físico e pela capacidade de finalização com as duas pernas. Passou por Fluminense, Watford e Everton antes de ser contratado pelo Tottenham, da Premier League, em 2022. Pela Seleção Brasileira, conquistou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021, e disputou as Copas do Mundo de 2018 e 2022, tendo marcado um dos gols mais bonitos do torneio no Catar — uma bicicleta contra a Sérvia. É reconhecido pelo engajamento em causas sociais, pela origem humilde em uma família de trabalhadores rurais e pelo financiamento de projetos comunitários em sua cidade natal. Fora dos gramados, tornou-se figura de destaque em debates públicos sobre transparência e uso de recursos, posicionamento que o levou ao centro da disputa pela Ilha Comprida.
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