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Dossiê, ataques digitais e questionamentos: os bastidores do caso BelfordRoxo24h envolvendo Eduardo Paes

Uma entrevista ao podcast No Ritmo Com Você colocou em evidência os bastidores de um caso que reúne dossiê, divulgação política em páginas de notícias, contratos, dezenas de denúncias de direitos autorais e uma sequência de contas desativadas no ecossistema do BelfordRoxo24h. No programa, o jornalista Ronaldo Cunha apresentou registros reunidos para apuração e detalhou o que afirma ter identificado como um padrão coordenado de distribuição de conteúdos por diferentes canais de informação no estado do Rio de Janeiro. A entrevista também contou com a participação do Dr. Ralf e do Dr. Leonardo, que analisaram aspectos jurídicos e eleitorais relacionados aos relatos e documentos apresentados.
O caso envolve alegações, questionamentos e interpretações dos participantes. A responsabilidade por eventuais irregularidades e a autoria dos ataques dependem de investigação e conclusão das autoridades competentes. O que se sabe, até o momento, é que o material foi preservado e entregue para apuração, e que uma ação judicial já tramita na Justiça Eleitoral fluminense.
A posição jurídica apresentada no debate
A declaração de maior impacto ocorre logo no início da entrevista. Ao comentar os fatos apresentados na denúncia, o Dr. Leonardo afirma: "O Eduardo Paes não pode ser candidato. O Eduardo Paes, se for candidato, não pode ser eleito. Mas, se ele for eleito, ele não pode tomar posse." O advogado informa ter ajuizado uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral para levar os fatos ao conhecimento da Justiça Eleitoral e buscar sua apuração.
A declaração representa a posição jurídica apresentada durante o podcast. Não se trata, por si só, de decisão da Justiça Eleitoral impedindo eventual candidatura de Eduardo Paes. A fala, contudo, reflete um movimento concreto que já está em curso: no dia 18 de agosto, foi distribuída no Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro a AIJE nº 0602520-36.2026.6.19.0000, proposta pelo candidato a deputado estadual Leonardo José do Patrocínio Aragão dos Santos Lau.
A ação que pede cassação e inelegibilidade
A Ação de Investigação Judicial Eleitoral contra Eduardo da Costa Paes, candidato ao Governo do Estado nas eleições de 2026, pede a cassação do registro de candidatura e a declaração de inelegibilidade por suposto abuso de poder político e econômico. O pedido se ampara na Lei Complementar nº 64/1990, que disciplina o combate ao abuso de poder econômico e político no processo eleitoral.
Em agosto, o TRE-RJ negou a liminar pedida na ação, mas manteve a AIJE em tramitação. A decisão reconheceu que as alegações apresentadas merecem apuração aprofundada, sem que isso represente, neste momento, qualquer juízo definitivo sobre o mérito. A ação envolve a suposta utilização de verba de publicidade do projeto Partiu Rio, da Prefeitura do Rio de Janeiro, em favor da campanha de Paes.
O relato de uma possível distribuição coordenada
Outro ponto central apresentado no programa é a forma como conteúdos seriam distribuídos para diferentes páginas. Ronaldo relata que peças eram encaminhadas por WhatsApp e também disponibilizadas em um ambiente do Google, permitindo que diferentes canais tivessem acesso aos mesmos materiais. Durante a entrevista, links, prints e exemplos de conteúdos semelhantes publicados em diferentes páginas são apresentados aos participantes.
Segundo o relato, parte dessas publicações teria sido posteriormente apagada. Em determinado momento, Ronaldo afirma: "Entre 10 canais de notícia no Rio de Janeiro, 9 estão trabalhando pelo lado do Paes." Os registros apresentados integram o material que, segundo ele, foi preservado para apuração. A verificação dessa alegação depende da análise técnica dos conteúdos e da cadeia de distribuição.
O que motivou a elaboração do dossiê
A entrevista também apresenta os acontecimentos que levaram Ronaldo a reunir documentos e procurar as autoridades. Ele relata ter participado do projeto Partiu Rio, inicialmente realizando divulgação institucional através de outro veículo sob sua responsabilidade. Segundo sua versão, posteriormente teria sido abordado para continuar no projeto mediante participação em campanha política para Eduardo Paes, o que ele afirma ter recusado.
Algum tempo depois, segundo ele, contas de seu ecossistema digital começaram a receber sucessivas denúncias relacionadas a supostas violações de direitos autorais. Ao ser questionado sobre uma possível conexão entre os acontecimentos, Ronaldo faz uma ressalva fundamental: "Eu não vou falar que foram eles." A entrevista, portanto, apresenta uma sequência temporal considerada relevante para investigação, mas não comprova que os responsáveis pelos ataques tenham relação com as pessoas ou empresas mencionadas.
Caracteres japoneses e a origem das denúncias
Entre os elementos considerados atípicos no material estão notificações relacionadas aos ataques contendo caracteres japoneses. O detalhe levou os participantes a questionarem se alguma etapa das ações poderia ter ocorrido fora do Brasil. A utilização de outro idioma, entretanto, não determina a origem geográfica de uma denúncia nem identifica seu responsável. Essa conclusão dependeria da obtenção e análise de dados técnicos.
Na sequência, o Dr. Leonardo apresenta sua interpretação sobre uma possível instrumentalização das plataformas digitais para "controle de narrativas" e defende que os mecanismos investigativos disponíveis sejam utilizados para identificar os responsáveis. O tema remete a um debate mais amplo sobre o uso de robôs e a plataformas para interferir no alcance de páginas críticas durante o período eleitoral.
A ausência de motivação financeira
Esse é um dos principais questionamentos levantados durante a entrevista. Ronaldo explica que existem situações de derrubada de contas em que posteriormente ocorre uma tentativa de cobrança financeira para uma suposta recuperação do perfil. Segundo seu relato, isso não aconteceu no caso do BelfordRoxo24h. Ele afirma que diferentes contas de e-mail estiveram envolvidas nas denúncias, mas que não houve pedido de dinheiro para devolver as páginas.
A ausência de uma aparente motivação financeira muda a pergunta: se ninguém pediu dinheiro, qual seria o objetivo das derrubadas? A resposta depende da identificação dos responsáveis. Na sequência, o Dr. Leonardo direciona a discussão para o campo eleitoral e apresenta sua interpretação jurídica sobre os limites da atuação de canais de notícias em campanhas políticas, defendendo que os fatos sejam submetidos à análise da Justiça Eleitoral.
Publicações apagadas e a preservação de registros
Outro comportamento descrito no podcast envolve o tempo de permanência de determinadas publicações. Segundo Ronaldo, alguns conteúdos políticos seriam publicados e, aproximadamente quatro ou cinco dias depois, retirados do ar. O relato aumenta a importância da preservação de prints, links, datas e demais registros digitais, especialmente quando o conteúdo pode deixar de estar publicamente disponível.
Durante a discussão, o Dr. Ralph aborda a necessidade de velocidade na análise de fatos relacionados ao processo eleitoral e menciona a maior celeridade do rito eleitoral. A preservação de provas digitais é um ponto crucial na prática forense, pois a volatilidade dos conteúdos online exige agilidade na coleta e no armazenamento de evidências.
O alcance das desativações
O Dr. Ralf também pergunta durante a entrevista se a situação continuava. Ronaldo responde: "Eu não tenho mais rede [...] Até a minha conta pessoal está fora. Eles derrubaram tudo." Segundo seu relato, as desativações ultrapassaram as páginas jornalísticas e chegaram também à sua conta pessoal. No final do corte, Ronaldo mostra seu celular aos participantes, exibindo contas que aparecem desativadas.
O momento permite visualizar parte da dimensão do problema relatado durante o programa. A extensão das desativações, que teriam atingido desde páginas institucionais até o perfil pessoal do jornalista, é um dos elementos que reforçam, segundo os participantes, a necessidade de investigação técnica aprofundada.
A Coplan no centro dos questionamentos
A empresa Coplan também ocupa espaço importante na entrevista. Ronaldo relata ter mantido relação contratual com a empresa durante sua participação no projeto e questiona a dificuldade encontrada para localizar uma contratação direta da Coplan pela Prefeitura do Rio de Janeiro. O Dr. Leonardo apresenta então uma explicação sobre a estrutura que, segundo ele, consta da denúncia.
A discussão abre três questões que precisam de verificação documental: qual seria a cadeia de contratação, de onde vieram os recursos e como ocorreram os pagamentos mencionados durante a entrevista. As afirmações apresentadas no podcast precisam ser confrontadas com contratos, notas fiscais, pagamentos e outros documentos para que seja possível estabelecer conclusões.
Duas ondas de ataques e novos desdobramentos
O BelfordRoxo24h informa que os ataques foram identificados em duas ondas descritas pelo canal como coordenadas. Na primeira, segundo o canal, ocorreram mais de 40 denúncias relacionadas a direitos autorais, atingindo contas do BelfordRoxo24h. O canal informa que uma ação judicial foi apresentada e que houve decisão favorável determinando a reativação das contas abrangidas pela medida.
Posteriormente, uma segunda onda teria atingido outras páginas pertencentes ao ecossistema digital, levando à adoção de novas medidas jurídicas. Esses detalhes complementares sobre as duas ondas e as novas medidas judiciais são informações apresentadas pelo BelfordRoxo24h e não aparecem integralmente na primeira parte de aproximadamente 30 minutos da transcrição analisada da entrevista.
A pergunta que permanece sem resposta
Dezenas de denúncias, diferentes endereços de e-mail, páginas atingidas em momentos distintos e, segundo o relato, nenhuma tentativa de cobrança para recuperação das contas. O conjunto deixa uma questão central: se não era dinheiro, qual era o objetivo? Responder a essa pergunta exige identificar os responsáveis pelas denúncias, analisar os registros digitais e verificar tecnicamente se os diferentes episódios possuem ou não conexão.
O BelfordRoxo24h afirma ter preservado prints, links, notificações, endereços de e-mail e outros registros digitais relacionados aos episódios. Parte desse material foi mostrada durante o podcast. As informações apresentadas abrem diferentes frentes de apuração: eventual coordenação na distribuição de conteúdos, cadeia de contratação mencionada durante a entrevista, origem dos pagamentos, identidade dos responsáveis pelas denúncias e eventual relação entre esses acontecimentos.
Até que as investigações avancem, não é possível atribuir a autoria dos ataques a Eduardo Paes, à Coplan ou a outras pessoas e empresas mencionadas no contexto político da entrevista. O objetivo declarado do dossiê é permitir que os fatos sejam investigados e que os responsáveis pelas ações, sejam eles quem forem, possam ser identificados. O BelfordRoxo24h mantém espaço aberto para manifestação de Eduardo Paes, da Coplan e dos demais citados, e eventuais respostas poderão ser incorporadas e destacadas nesta reportagem.
Por Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Doutor Honoris Causa em Direito e Ciências Políticas, Acadêmico da ABRASCI , Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ
Repórter Antonio Lemos @djportugues
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