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Cláudio Carneiro lança livro sobre colapso da alta performance e apresenta ciclo de palestras sobre saúde mental na advocacia
A advocacia brasileira enfrenta crise silenciosa de saúde mental que se aprofundou após a pandemia de covid-19. Enquanto a profissão vive transformação digital acelerada e pressões crescentes de produtividade, muitos profissionais chegam ao colapso físico e emocional. Cláudio Carneiro, tributarista respeitado e ex-presidente da OAB Barra da Tijuca, dirige olhar crítico para essa realidade e oferece proposta de enfrentamento através de duas frentes: lançamento de livro que integra performance, saúde mental e fé cristã, e ciclo de palestras coordenado pela comissão de Conselho Seccional da OAB do Rio de Janeiro.
A iniciativa chega em momento decisivo. A profissão jurídica, historicamente marcada por demandas emocionais e pressão constante, agora enfrenta velocidade de transformação sem precedentes. Digitalização de processos, redes sociais como ferramenta de captação de clientes, exigência de atualização jurisprudencial permanente e intensidade do stress cotidiano criaram ambiente que muitos profissionais descrevem como insustentável.
O livro e sua estrutura tripla
O título escolhido por Carneiro é provocador e direto: "Quando a Alta Performance Adoece". O livro fundamenta-se em tripé que combina três pilares: alta performance profissional, saúde mental e fé cristã. A proposta não é apenas diagnóstico do problema, mas oferecimento de caminho prático para que profissionais mantenham desempenho sem sacrificar integridade física e emocional.
Carneiro construiu obra fundamentada tanto em experiência pessoal quanto em pesquisa acadêmica rigorosa. Incorpora aprendizados de principais universidades do mundo sobre performance humana, complementando com princípios bíblicos frequentemente ignorados pelo secularismo profissional. Muitos desses princípios, segundo Carneiro, já são seguidos por profissionais sem que percebam sua origem nas escrituras — demonstrando que sabedoria espiritual antiga permanece relevante para desafios contemporâneos.
A perspectiva integradora é deliberada. Carneiro reconhece que abordagem puramente técnica ou exclusivamente espiritual fracassa. O profissional que deseja manter alta performance sem adoecer precisa equilibrar três dimensões: capacidade técnica (como executar bem), resistência emocional (como suportar pressão) e ancoragem existencial (por que realizar o trabalho).
O testemunho pessoal como fundação
Carneiro não escreve a partir de abstração acadêmica. Sua autoridade vem de ter vivenciado processo de adoecimento profundo. Essa experiência pessoal — transformada em aprendizado — confere ao livro autenticidade que discursos genéricos sobre produtividade não possuem. Ele conhece, não apenas intelectualmente mas existencialmente, o colapso que descreve.
Essa vulnerabilidade é significativa porque rompe com cultura de silêncio que permeia classe jurídica. Advogados, frequentemente retratados como figuras de autoridade e competência inquestionável, raramente expõem fragilidades. Carneiro quebra padrão ao admitir adoecimento próprio e transformar sofrimento em material educacional que beneficia pares.
O ciclo de palestras: resposta institucional à crise
Além do livro, Carneiro coordena iniciativa institucional de maior amplitude. Como presidente da comissão de Conselho Seccional da OAB do Rio de Janeiro, ele promove ciclo de palestras dedicado especificamente a saúde mental e alta performance na advocacia. A agenda reconhece que profissão inteira enfrenta desafio que ultrapassa indivíduos — é questão estrutural, institucional, coletiva.
A iniciativa é resposta ao reconhecimento de que advocacia "vem adoecendo sobretudo depois da pandemia". O isolamento social forçado, a transformação abrupta de processos para formato digital, a incerteza econômica — tudo isso deixou marcas duradouras na profissão. Muitos advogados nunca se recuperaram plenamente.
O ciclo de palestras busca criar espaço onde profissionais possam dialogar sobre sofrimento compartilhado. Não oferece soluções simplistas, mas facilita reconhecimento mútuo de que pressão vivida é real, válida e requer atenção coletiva.
As transformações estruturais que aceleraram a crise
Carneiro identificou com precisão os vetores de pressão que transformaram advocacia nos últimos anos. A introdução de tecnologia digital alterou velocidade de trabalho. Quando processos eram físicos e comunicação era via correspondência, ritmo era necessariamente mais lento. Agora, com digitalização completa, expectativa de resposta imediata torna-se padrão não escrito.
As redes sociais adicionam dimensão nova de pressão. Advogados agora precisam manter presença digital, gerar conteúdo, responder comentários — atividades que expandem jornada de trabalho para além dos limites tradicionais. O que era profissão com horário agora é profissão 24 horas, onde presença online comunica competência e falta de presença comunica irrelevância.
A ansiedade derivada dessa transformação manifesta-se em burnout crescente. Muitos profissionais relatam sensação de nunca estar atualizados o suficiente, nunca ter publicado conteúdo bastante, nunca ter rede profissional ampla o necessário. A comparação constante com pares, facilitada por redes sociais, alimenta ciclo de inadequação.
A metáfora do "esgoto da sociedade"
Carneiro retomou caracterização histórica feita por mestres do direito: o advogado vive no "esgoto da sociedade". Profissão lida constantemente com conflitos, fraudes, crimes, traições, corrupção. Enquanto a maioria das profissões enfrenta desafios técnicos, advocacia enfrenta carga emocional densa derivada de natureza do trabalho — sempre lidando com sofrimento, ganância, violência dos casos que chegam.
Essa carga negativa cumulativa não é cicatrizada através de pausas ou férias. Requer compreensão sistêmica de que advocacia é profissão inerentemente pesada, e profissionais precisam de ferramentas específicas para processar esse peso. Religiões tradicionais, ao longo de séculos, desenvolveram essas ferramentas — rituais, comunidade, narrativas de significado. Carneiro propõe recuperar essas sabedorias, não de forma dogmática, mas pragmática.
A mudança jurisprudencial como fonte perpétua de ansiedade
Outra dimensão que Carneiro destaca é imperativo de atualização contínua. Jurisprudência muda, legislação muda, interpretações evoluem. O advogado que descansa no conhecimento que possuía há cinco anos está, na realidade, desatualizado. Essa exigência de aprendizado perpétuo, enquanto necessária para competência, cria ansiedade estrutural que é raramente nomeada ou endereçada.
Instituições de educação continuada (como a OAB) oferecem palestras e cursos, mas raramente reconhecem impacto emocional dessa exigência interminável de atualização. Carneiro traz isso para centro do debate: não apenas "como atualizar-se" mas "como permanecer humano enquanto se atualiza constantemente".
As redes sociais como nova fonte de pressão profissional
A emergência de figuras públicas do direito — advogados influenciadores, magistrados com presença digital, comentaristas jurídicos em mídia tradicional — criou novo padrão de sucesso profissional. Tradicionalmente, sucesso era medido por clientes, receita, reputação entre pares. Agora, adiciona-se métrica de followers, likes, visualizações, alcance digital.
Essa métrica nova é particularmente insidiosa porque é quantificável de forma diferente de métrica tradicional. Um advogado pode ter prática jurídica excelente mas presença digital fraca, o que, aos olhos de geração mais jovem, o torna "irrelevante". O inverso também é verdadeiro: influenciador jurídico com grande audiência pode ter prática jurídica fraca mas desfrutar de percepção de sucesso.
Essa confusão de métricas gera ansiedade especialmente entre profissionais em transição de carreira ou em início de prática. Precisam construir, simultaneamente, competência jurídica sólida e presença digital atraente — tarefa que multiplica demandas de tempo e energia.
A resposta coletiva através da OAB
A comissão de Conselho Seccional da OAB do Rio de Janeiro, sob liderança de Carneiro, reconhece que resposta individual — cada advogado procurando terapia isoladamente — é insuficiente. O problema é institucional; a resposta deve ser também institucional. Um ciclo de palestras destinado a toda classe cria espaço de reconhecimento coletivo de sofrimento compartilhado.
A OAB, instituição responsável por regulamentação e representação da profissão, tem responsabilidade de não apenas garantir competência técnica mas também zelar pela saúde profissional de seus membros. Iniciativa de Carneiro reafirma essa responsabilidade de forma prática e tangível.
A fé cristã como ferramenta pragmática
O papel da fé cristã no livro de Carneiro merece atenção especial. Não se trata de proselitismo ou imposição religiosa, mas reconhecimento pragmático de que tradições espirituais desenvolveram, ao longo de milênios, técnicas para lidar com sofrimento, ansiedade e busca de significado. Princípios como perdão, aceitação de limitações humanas, comunidade, serviço ao próximo — todas têm fundamentos em escrituras cristãs e todas oferecem suporte psicológico real para profissionais sob pressão.
Carneiro não nega relevância de ferramentas seculares — terapia, medicação, técnicas de produtividade. Mas adiciona dimensão que muitas abordagens contemporâneas negligenciam: a necessidade existencial de significado que transcenda sucesso material ou reconhecimento social.
O impacto esperado e as próximas etapas
O ciclo de palestras promete impacto significativo na população de advogados fluminenses. Abrindo espaço para diálogo sobre saúde mental, a OAB-RJ sinaliza que sofrimento profissional é tema legítimo, digno de atenção institucional. Essa sinalização, por si só, quebra silêncio que envolve a questão.
Próximas etapas incluem palestras específicas sobre técnicas de autodescoberta, integração de princípios bíblicos em rotina profissional, e compartilhamento de experiências entre advogados que enfrentaram adoecimento e conseguiram recuperação. Forma esperada é transformar sofrimento individual em conhecimento coletivo que beneficie classe inteira.

Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ
Por Robson Talber @robsontalber
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Fontes: Transmissão ao vivo Jornal da República — Última Hora (24 de março de 2026); Evento ABM com apoio Instituto Silva Neto; OAB Barra da Tijuca; Comissão de Conselho Seccional da OAB Rio de Janeiro; Pesquisa sobre saúde mental em profissões jurídicas; Estudos de universidades internacionais sobre performance e saúde mental; Documentação sobre transformação digital no setor jurídico.
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