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Terras raras, imigração e protecionismo dividem Brasil e potências do G7 em Évian
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarca neste domingo em Évian, na França, para participar da 52ª Cúpula do G7, que começa nesta segunda-feira (15) e se estende até quarta-feira (17). Pela décima vez convidado ao seleto grupo das sete maiores economias industrializadas do mundo — Estados Unidos, Alemanha, Japão, Reino Unido, França, Itália e Canadá, além da União Europeia —, o Brasil chega com uma posição firme: não deve subscrever a maioria dos documentos finais propostos pelos negociadores franceses.
Segundo apuração do ICL Notícias e de outras fontes diplomáticas, o governo brasileiro avalia que os textos preparados pela presidência francesa não refletem as preocupações do Sul Global e, em diversos pontos, representam um alinhamento dos países ricos contra interesses estratégicos do Brasil e de economias emergentes.
A estratégia da fragmentação: Macron tenta salvar a cúpula
Diante do risco de um impasse generalizado — sobretudo pela postura do presidente americano Donald Trump, que já impôs tarifas comerciais e endureceu o discurso contra aliados —, o presidente francês Emmanuel Macron optou por fragmentar a declaração final da cúpula em sete textos separados. A manobra visa garantir que ao menos alguns acordos sejam firmados, mesmo sem consenso total.
A estratégia, no entanto, é alvo de críticas dentro e fora do bloco. Para analistas do *Atlantic Council*, a decisão de enfraquecer diversos textos para acomodar Trump expõe a fragilidade do consenso entre as democracias ocidentais e levanta dúvidas sobre a efetividade do G7 como fórum de coordenação global.
Terras raras: a soberania que o Brasil não negocia
Um dos documentos mais sensíveis trata das terras raras — grupo de 17 minerais essenciais para a produção de baterias, turbinas eólicas, veículos elétricos e equipamentos de defesa. O Brasil detém uma das maiores reservas do planeta, com destaque para nióbio, lítio e terras raras pesadas.
A visão do Itamaraty é de que o texto do G7 configura uma aliança dos países desenvolvidos contra a China, maior processadora global desses minerais. Em maio, durante visita ao Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, Lula foi categórico: "Aqui pode vir chinês, alemão, francês, japonês, americano. Pode vir quem quiser, desde que tenham consciência de que os minerais críticos são nossos, as terras raras são nossas."
Em fevereiro, Brasil e Índia assinaram um acordo de cooperação em terras raras, consolidando uma aliança estratégica no âmbito dos BRICS. Em maio, Lula esteve na Casa Branca e afirmou a Trump que o beneficiamento dos minérios **permanecerá em solo brasileiro** — sinal de que o país não aceitará ser transformado em mera reserva de matéria-prima para as potências industrializadas.
Imigração: o fechamento de fronteiras que o Brasil rejeita
Outro texto classificado como "complicado" pela diplomacia brasileira é a declaração sobre imigração. A Europa, seguindo os passos de Washington, aprofunda políticas de fechamento de fronteiras. Trump, por sua vez, amplia as deportações em massa — em maio, durante seu discurso do Estado da União, o republicano celebrou o que chamou de "número recorde" de deportações de imigrantes irregulares.
Para o governo Lula, o documento ignora a dimensão de direitos humanos do fenômeno migratório. O Brasil, que abriga comunidades significativas de venezuelanos, haitianos e refugiados de diversas nacionalidades, defende uma abordagem que concilie controle migratório com proteção humanitária.
Narcotráfico: tema incômodo em Brasília
A França também propôs um texto específico sobre o combate ao narcotráfico. O tema, no entanto, levanta desconfianças em Brasília. Nos últimos anos, o Brasil tem sido alvo de pressões internacionais por sua posição sobre a descriminalização de drogas — tema que divide o governo, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal.
A avaliação de integrantes do governo é que o texto francês pode conter cláusulas que interfiram na autonomia brasileira sobre políticas de segurança pública e saúde, além de ignorar o papel do consumo nos países ricos como motor do tráfico internacional.
Economia global: o protecionismo que não aparece no papel
Tampouco há disposição do Brasil em assinar a principal declaração do G7 sobre a situação econômica global. O texto fala em "crescimento desequilibrado", mas, na avaliação brasileira, não aborda de forma suficiente temas estruturais como o **protecionismo comercial**, o unilateralismo e a crise da dívida dos países em desenvolvimento.
Lula deve usar seu discurso em Évian para criticar as medidas protecionistas adotadas por Washington e por alguns países europeus — sem necessariamente citar Trump nominalmente, segundo a CNN Brasil. O presidente brasileiro tem repetido que o protecionismo dos ricos "condena milhões à pobreza" e que o mundo precisa de uma nova governança global.
Parcerias internacionais: ajuda ao desenvolvimento terceirizada?
Outro texto rejeitado pelo Brasil é o de "parcerias internacionais". A proposta dos países ricos prevê que parte da ajuda ao desenvolvimento — drasticamente cortada nos últimos anos — seja transferida para o setor privado, por meio de parcerias público-privadas e investimentos de fundos internacionais.
Para o governo Lula, a proposta é insuficiente e representa uma terceirização da responsabilidade histórica dos países desenvolvidos com o Sul Global. Dados da Agência Brasil indicam que os cortes na ajuda oficial ao desenvolvimento (AOD) atingiram os níveis mais baixos em duas décadas, afetando programas de combate à fome, saúde pública e educação em dezenas de nações africanas e latino-americanas.
O que o Brasil pode apoiar
Dois textos, no entanto, podem receber o aval brasileiro. O primeiro trata da proteção de menores nas redes digitais, Na terça-feira (16), Lula participa de um almoço com líderes das maiores plataformas digitais do mundo — entre elas Meta, Google, TikTok e X (antigo Twitter) — e deve apresentar o Estatuto Digital criado no Brasil, que estabelece regras para proteção de crianças e adolescentes no ambiente online.
O segundo tema que pode ganhar o apoio brasileiro é uma iniciativa global de combate ao câncer. Ambos os documentos, contudo, ainda aguardam definição final por parte da presidência francesa.
Lula como ponte entre o G7 e os BRICS
Os organizadores da cúpula querem que Lula atue como uma **ponte diplomática** entre o G7 e os BRICS — bloco que o Brasil integra ao lado de Rússia, Índia, China e África do Sul, além dos novos membros como Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes. A expectativa é que o presidente brasileiro leve a Évian as demandas do Sul Global e ajude a evitar um racha ainda maior entre as economias desenvolvidas e emergentes.
O *World Economic Forum* classificou esta edição do G7 como o "momento das potências médias", destacando que países como Brasil, Índia e Indonésia têm papel crescente na reconfiguração da ordem global.
A tradição brasileira
Pelas regras do bloco, países convidados podem comentar os textos negociados, mas **não podem vetar trechos nem modificar artigos**. O Brasil tem tradição de não assinar documentos dos quais não participou plenamente da elaboração — posição mantida desde governos anteriores e reforçada pela gestão Lula.
Sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Luiz Inácio Lula da Silva, 80 anos, é uma das figuras políticas mais reverenciadas da história recente do Brasil e do mundo. Nascido em Caetés (PE) e criado no interior de São Paulo, foi líder sindical, fundador do Partido dos Trabalhadores e presidente da República por três mandatos. Sob seus governos, o Brasil reduziu a pobreza a patamares históricos, conquistou o pré-sal, ampliou o acesso ao ensino superior e projetou-se como liderança global em diplomacia ambiental e multilateralismo. No plano internacional, Lula é reconhecido por sua defesa intransigente da democracia, dos direitos humanos e da integração do Sul Global. Em 2024, foi incluído pela revista *Time* na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo. Pai de cinco filhos, avô e bisavô, mantém uma rotina intensa de trabalho e segue como a principal liderança política do Brasil, com aprovação popular expressiva e trânsito em todas as regiões do país.
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