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Walter Felix Cardoso Junior
wfelixcjr3.carrd.co
Tenho um Irmão de armas que sustenta uma ideia que dá o que pensar: a lei, mesmo quando se apresente como expressão da vontade de governos estranhos ao sentimento arraigado da Nação, alcança a forma; mas o arquétipo da Força Terrestre, herdeira de tantas glórias, ainda sustenta o fundo.
A caneta normativa insensível pode constranger condutas, subtrair direitos consagrados, afrontar a lógica e deformar temporariamente a ordem das coisas. O que ela não consegue, por si só, é substituir os símbolos, os sentidos e a memória já entranhados no inconsciente coletivo.
A letra da norma age sobre a superfície das relações; o arquétipo, sobre as camadas profundas da alma nacional.
É por isso que a reflexão se impõe: por que esse Exército ainda não reagiu àquilo que o afronta tão injustamente, inclusive em aspectos que tangenciam a própria soberania nacional?
Não me refiro, claro, a viradas de mesa, golpes de Estado ou outras rupturas brutais, quase sempre desastrosas e raramente fecundas no amadurecimento dos homens e das instituições. Refiro-me a outra coisa: à reação moral, à firmeza interior, à capacidade de uma Força multicentenária de reconhecer o próprio definhamento e de não se resignar passivamente a ele.
Porque o que se vê é uma instituição que sangra em praça pública, debilitada pela incúria governamental e pela hostilidade de setores ditos progressistas da sociedade, e que, ainda assim, prossegue mancando, esforçando-se por manter a compostura da frente enquanto perde, aos poucos, vigor, voz e substância.
Talvez a resposta esteja justamente no drama das instituições que vivem entre a memória do que foram e a hesitação diante do preço de ainda serem.
O arquétipo permanece. A honra herdada permanece. A imagem profunda permanece. Mas, entre essa reserva simbólica e a conduta concreta dos homens encarregados de encarná-la, abriu-se uma distância dolorosa.
E talvez seja nessa distância — entre o símbolo que resiste e a vontade que vacila — que se esconda a explicação mais amarga para a passividade atual da elite militar.
Uma instituição não reage apenas porque possui passado, tradição ou prestígio. Ela reage quando os homens que a dirigem ainda se sentem interiormente obrigados a pagar o preço de serem coerentes com a grandeza que receberam por herança. Quando essa disposição enfraquece, o símbolo continua de pé, mas já não encontra, na mesma medida, quem o sustente com inteireza.
É possível que esteja ocorrendo exatamente isso. O Exército ainda conserva, no fundo da consciência nacional, uma densidade histórica que nenhuma medida administrativa consegue apagar. Continua associado, no imaginário profundo do país, a ideias como disciplina, honra, hierarquia, camaradagem, permanência, defesa, sacrifício e compostura. Mas a força dos símbolos não dispensa a coragem dos homens. E, sem essa coragem, o arquétipo resiste mais como memória do que como conduta.
Talvez resida aí o paradoxo doloroso do momento: a Nação ainda reconhece, em alguma camada funda de si mesma, o significado histórico do Exército, mas já não enxerga com a mesma nitidez esse significado encarnado na prática por aqueles que deveriam guardá-lo. A forma permanece. O uniforme permanece. A cadeia de comando permanece. Mas o país percebe, ainda que confusamente, que há algo vacilando no interior daquilo que deveria transmitir firmeza.
Isso ajuda a entender por que não houve rebelião, nem mesmo no sentido nobre e institucional do termo. Não faltam razões objetivas para indignação. O que parece faltar é a convergência moral necessária para transformar indignação difusa em reação coerente. Entre o desconforto íntimo e a atitude pública instalou-se um intervalo feito de cálculo, prudência degradada, temor funcional e adaptação ao ambiente.
Chama atenção, aliás, que esse intervalo seja frequentemente apresentado pelos chefes militares como maturidade, responsabilidade ou compromisso institucional. Talvez aí esteja um dos nomes mais elegantes da decadência: chamar de prudência aquilo que já é capitulação administrada. Porque há momentos em que a contenção é virtude; mas há também momentos em que a contenção prolongada, diante do aviltamento, deixa de ser sabedoria e passa a ser cumplicidade passiva.
No fundo, a pergunta talvez seja ainda mais severa: quanto tempo uma instituição pode sobreviver apenas do prestígio de seu arquétipo, quando seus quadros dirigentes e seus interlocutores civis já não parecem dispostos a honrá-lo com a energia moral correspondente? A história sugere que nenhuma herança simbólica, por mais forte que seja, permanece indefinidamente viva se não voltar a ser confirmada no mundo concreto.
É por isso que a questão não é apenas militar. Ela é moral, civilizatória. Quando uma Força armada de tamanha densidade histórica vai sendo enfraquecida por fora e tolerando por dentro esse enfraquecimento sem reação proporcional, o problema ultrapassa a caserna. O que se põe em risco já não é apenas o prestígio de uma instituição, mas a própria confiança nacional na permanência de referências que, em tese, deveriam resistir ao capricho dos governos e às modas ideológicas do tempo.
A caneta pode ferir a forma. Pode humilhar, adiar, constranger e mutilar. Mas não apaga sozinha aquilo que uma longa experiência histórica gravou no espírito de um povo. O que pode, sim, matar essa herança é outra coisa: a aceitação prolongada de sua deformação pelos próprios encarregados de guardá-la.
E talvez seja exatamente aí que a dor se torne mais funda. Não quando o inimigo fere por fora, mas quando os herdeiros, por cálculo, fadiga ou acomodação, vão deixando de defender por dentro aquilo que receberam com o dever de honrar.
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