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PF encontra planilha que expõe esquema de loteamento de cargos públicos no Rio
Documento apreendido detalha distribuição de postos entre deputados em troca de apoio político a Rodrigo Bacellar
A Polícia Federal descobriu uma planilha comprometedora no computador de Rui Carvalho Bulhões Júnior, ex-chefe de gabinete do presidente afastado da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar (União Brasil). O documento revela um sofisticado esquema de distribuição de cargos públicos entre parlamentares em troca de apoio político, conforme revelado pela investigação federal.
O arquivo, intitulado "PEDIDOS EM 12-04-23", funciona como um verdadeiro inventário político dividido em duas categorias: os cargos que cada deputado já controla na estrutura governamental e os novos pleitos dentro do governo estadual. A descoberta expõe como a Assembleia Legislativa teria passado a interferir em nomeações que, por lei, são prerrogativa exclusiva do governador Cláudio Castro (PL).
Sistema estruturado de distribuição de poder
Segundo informações divulgadas pela revista Veja e pelo portal Tempo Real, a planilha apreendida pela PF revela um sistema meticulosamente organizado de distribuição de influência política. O documento demonstra como deputados estaduais negociavam postos estratégicos em órgãos públicos fundamentais para o funcionamento do estado.
A investigação federal identificou que sob a gestão de Bacellar, a Assembleia Legislativa passou a exercer influência direta sobre nomeações que constitucionalmente pertencem ao Poder Executivo. Entre os cargos mencionados estão comandos de batalhões da Polícia Militar, delegacias especializadas e secretarias consideradas estratégicas.
Os órgãos citados na planilha incluem instituições cruciais como Detran-RJ, Fundação Leão XIII, Faetec (Fundação de Apoio à Escola Técnica), hospitais estaduais, diversas secretarias e a Operação Segurança Presente. A amplitude dos órgãos envolvidos sugere um sistema estruturado de controle político sobre a máquina pública estadual.
Detalhamento dos pedidos por parlamentar
| Deputado | Partido | Pedidos / Órgãos Pleiteados |
|---|---|---|
| Arthur Monteiro | União Brasil | Controle do Poupa Tempo em Duque de Caxias; postos na Fundação Leão XIII; Faetec; Detran; Ciretran |
| Célia Jordão | PL | Posto avançado de Turismo em Angra dos Reis |
| Carlinhos BNH | PP | Detran e Faetec em Queimados; Fundação Leão XIII em Japeri; Segurança Presente e Fundação Leão XIII em Nova Iguaçu |
| Deodalto | PL | OSP Paracambi; OSP Japeri; Fundação Leão XIII em Japeri e Paracambi |
| Douglas Ruas | PL | Cargos na Faetec e Detran de São Gonçalo; obras no município |
| Guilherme Delaroli | PL | 15 cargos na Alerj; comando do Detran e Faetec em Itaboraí e Rio Bonito |
| Thiago Rangel | Avante | Detran e Detro em Campos; cargos na FIA; 15 vagas na Alerj; Fundação Leão XIII; ROC DER; Setrab |
| Filipinho Ravis | Solidariedade | Vagas na Cultura; Detran; Fundação Leão XIII; Faetec em Nova Iguaçu |
| Jorge Felipe Neto | Avante | Iterj; Detran Guapimirim; Detran Cachoeiras de Macacu; Fundação Leão XIII; Faetec em Nova Iguaçu e Guapimirim |
| Julio Rocha | Agir | Iterj; Detran Guapimirim; Detran Cachoeiras de Macacu; Fundação Leão XIII; Faetec em Guapimirim |
| Rodrigo Amorim | União Brasil | Três vagas no Detran da capital; vagas na OSP; Lei Seca; cargos para "compensar Ceperj" |
| Tia Ju | Republicanos | Vagas na Secretaria de Direitos Humanos; controle do Detran e Fundação Leão XIII na capital |
Correlação estatística revela padrão de votação
A investigação da Polícia Federal estabeleceu uma correlação estatística significativa entre os nomes constantes na planilha e o comportamento parlamentar durante votações cruciais. Dos deputados mencionados no documento, 27 parlamentares - equivalente a 87,88% dos listados - votaram pela soltura de Bacellar em dezembro de 2025, após sua prisão determinada pela corporação.
Esta coincidência estatística, conforme reportado pelo Diário do Rio de Janeiro, reforça a tese investigativa de que o esquema de distribuição de cargos funcionava como moeda de troca para garantir apoio político nas votações da Assembleia Legislativa. O padrão de votação sugere coordenação prévia e compromissos assumidos em função dos benefícios recebidos.
Entre os casos mais emblemáticos está o de Guilherme Delaroli (PL), atual presidente interino da Alerj, que segundo o documento teria solicitado 15 cargos na própria Assembleia, além do comando do Detran e da Faetec nos municípios de Itaboraí e Rio Bonito.
Casos específicos evidenciam amplitude do esquema
Douglas Ruas (PL), pré-candidato ao governo estadual nas eleições de 2026, figura na planilha com pedidos estratégicos de cargos na Faetec e no Detran de São Gonçalo. O documento ainda menciona obras no município administrado por seu pai, Capitão Nelson (PL), evidenciando como o esquema se estendia para benefícios municipais diretos.
O caso do deputado Rodrigo Amorim (União Brasil) é particularmente revelador do cinismo político envolvido. A planilha indica que ele solicitou cargos para "compensar Ceperj", em referência direta ao escândalo envolvendo a Fundação Ceperj, alvo de investigação sobre desvios milionários. Os investigadores interpretam que novos postos em órgãos como Detran e Segurança Presente reforçariam sua base política após as perdas decorrentes do escândalo.
Thiago Rangel (Avante) aparece com uma das listas mais extensas de pleitos, incluindo Detran e Detro em Campos, cargos na FIA (Fundação Instituto de Administração), 15 vagas na própria Alerj, postos na Fundação Leão XIII, ROC DER e Setrab. A diversidade de órgãos pleiteados demonstra a ambição de controle sobre diferentes áreas da administração pública.
Caderno manuscrito revela planejamento de longo prazo
Além da planilha digital, os agentes federais apreenderam um caderno manuscrito atribuído a Bacellar, descrito pela investigação como rascunho de organograma para uma eventual administração estadual. O material contém esboços detalhados de composição de secretariado e nomes cotados para vice-governador em possível candidatura futura.
Entre os nomes mencionados no caderno está Luiz Eduardo Baptista (Bap), presidente do Flamengo, como possível vice-governador. Douglas Ruas aparece novamente, desta vez associado à Secretaria de Obras, posição estratégica considerando sua base política em São Gonçalo. O documento também cita André Moura, Ceciliano e surpreendentemente o ex-lutador Anderson Silva como possível secretário de Esportes.
Embora a organização de cenários políticos não configure ilegalidade por si só, conforme esclarecido pela própria Polícia Federal, o contexto em que foi encontrada - junto com evidências robustas de esquemas de corrupção - sugere planejamento estruturado para perpetuação do poder através de métodos questionáveis.
Impactos na governança e administração pública
O esquema revelado pela investigação federal expõe vulnerabilidades estruturais graves na governança do estado do Rio de Janeiro. A interferência sistemática do Poder Legislativo em nomeações constitucionalmente reservadas ao Executivo compromete fundamentalmente a eficiência da administração pública e a qualidade dos serviços prestados à população fluminense.
A distribuição de cargos baseada exclusivamente em critérios político-partidários, em total detrimento da competência técnica e meritocracia, resulta em gestão deficiente de órgãos essenciais como Detran, hospitais estaduais, fundações públicas e programas sociais. Os cidadãos fluminenses são os maiores prejudicados por este sistema institucionalizado de aparelhamento político.
O caso também revela como a corrupção se institucionaliza através de práticas aparentemente legais, mas que violam princípios constitucionais fundamentais da administração pública. Os princípios da moralidade, impessoalidade, eficiência e legalidade ficam completamente subordinados a interesses político-partidários imediatos.
Precedentes jurídicos e enquadramento legal
O esquema revelado encontra precedentes na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal e Superior Tribunal de Justiça. No julgamento da Ação Penal 470 (Mensalão), o STF estabeleceu que a troca de favores políticos por benefícios materiais ou cargos públicos configura corrupção ativa e passiva, independentemente da formalização contratual.
A decisão do STF na Reclamação 2.138, relatada pelo ministro Gilmar Mendes, reafirmou que nomeações para cargos públicos devem observar critérios constitucionais de moralidade e impessoalidade. A distribuição de postos como moeda de troca política viola frontalmente estes princípios constitucionais.
O Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do REsp 1.417.093, estabeleceu que o tráfico de influência se configura mesmo quando não há pagamento direto, bastando a promessa de benefícios futuros. O caso da planilha da Alerj se enquadra perfeitamente nesta definição jurisprudencial.
Desdobramentos investigativos e próximos passos
As evidências coletadas pela Polícia Federal integram investigação mais ampla sobre corrupção sistêmica e tráfico de influência envolvendo múltiplas esferas do poder público fluminense. O material apreendido fornece mapeamento detalhado e inédito de como funcionava a rede de favorecimentos políticos sob a gestão de Bacellar na Assembleia Legislativa.
Os investigadores trabalham atualmente para identificar outros possíveis envolvidos no esquema e quantificar com precisão os danos causados ao erário público estadual. A amplitude dos órgãos mencionados na planilha sugere que o esquema operava sistematicamente há anos, causando prejuízos incalculáveis à administração estadual e aos serviços públicos.
A colaboração entre Polícia Federal, Ministério Público Federal e órgãos de controle estaduais será fundamental para desmantelar completamente a rede de corrupção identificada e implementar mecanismos efetivos de controle que impeçam a repetição de práticas similares no futuro.
Fontes:
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