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Siro Darlan, advogado, jornalista, Vice-Presidente da Academia Brasileira de Letras do Cárcere.
O escritor Eduard Louis, escritor francês que em sus livros retrata as injustiças de classe, o preconceito e uma crítica social e politica bastante afiada e como num mundo de desigualdades enfrentou o preconceito e a violência e reinventou sua vida através da literatura. Encontramos na Academia Brasileira de Letras do Cárcere escritores com semelhantes características, que tendo enfrentado as dores da crueldade e violência das prisões superaram e encontraram na literatura sua redenção Vale a pena ler Igor Mendes, Sagat, Amanda Caroline, André Borges, Marcio Santos Nepomuceno, Angela Franzeres, entre outros.
Jean=Paul Sartre dizia que o teatro é uma ferramenta política e filosófica de engajamento. Ele acreditava que o palco deve confrontar o espectador com as escolhas existenciais extremas, forçando a refletir sobre sua própria liberdade e responsabilidade. Dizia Sartre que o teatro originalmente estava ligado à coletividade, mas que ao longo do tempo, foi apropriado pela burguesia. É fácil compreender em nossos tempos a razão porque os MCs estão sendo perseguidos por aparatos policiais, tendo um Secretário de Policia afirmado que as letras dos funks são muito mais perigosas do que os fuzis usados pela policia fluminense para matar pretos e pobres.
Sartre dizia que houve um roubo dessa expressão de arte popular pela burguesia. Podemos afirmar, concordando com Sartre, que o mesmo ocorreu com o samba. Antes a maior expressão de cultura popular que desfilava a preços populares pelas ruas das cidades, foram apropriadas por empresários da aristocracia transformando o maior espetáculo da terra em apresentações de luxo, accessível apenas aos endinheirados que podem pagar fortunas para ver os atores populares e favelados, nem sempre originais, muitos compram fantasias para se misturar como o povo, verdadeiros artistas do espetáculo, que desfilam pelo prazer de manter viva essa cultura trazida dos escravizados e hoje roubada pela burguesia. O Carnaval precisa voltar a ser do povo que o produz.
Sartre dizia que o teatro deixou de ser uma forma de expressão popular, acessível e politicamente viva. Passou a ser controlado por uma classe que o transformou em produto cultural voltado ao entretenimento e à manutenção de valores dominantes. O público também mudou: de um público amplo e heterogêneo para uma elite que consome teatro como distinção social. Podemos afirmar que outra arte popular que já teve sua expressão maior, quando praticado por favelados e jogadores pobres e que tantas glorias deu ao Brasil é o futebol de Garrincha, Pelé, Jairzinho, Zico, Romário, todos grandes futebolistas reconhecidos internacionalmente que ganharam tudo para o Brasil com sua arte, hoje está dominado por jogadores estrelados, milionários, que não trazem mais vitórias para o povo brasileiro. Não só o futebol foi roubado das classes populares, como esses foram impedidos pelos preços exorbitantes cobrados para assistir as partidas de futebol de frequentar os estádios. Acabaram os “geraldinos” e “arquibaldos” que tão bem batizados pelo inesquecível Washington Rodrigues, sumiram dos estádios.
Precisamos promover um projeto para reaproximar o público dos grandes espetáculos populares, trazendo o povo para sua realidade social para restabelecer o direito à felicidade, sendo mais politicamente engajados, para romper com o conformismo burguês. É preciso acordar o povo para sua realidade porque isso impactará diretamente em sua participação politica, da qual se afastaram. Se as artes foram capturadas por interesses de classe e perderam seu potencial crítico coletivo é preciso resgatar para o povo essas artes originariamente criadas pelas classes populares. O teatro do oprimido precisa trazer de volta a reflexão e participação popular.
Não há nenhum compromisso politico com o resgate das artes nesses tempos pré-eleitoreiros, mas se a burguesia conseguiu transformar as artes em mercadoria e instrumento ideológico, assim como fizeram com as igrejas, é preciso retomar esses espaços “domesticados” para entreter e reforças os valores dominantes em lugar de reflexão crítica que deve revelar contradições da sociedade e estimular a liberdade, não servir como entretenimento alienante. Quando a burguesia domina o teatro e as artes, ela neutraliza seu potencial transformador — convertendo algo que poderia libertar em algo que apenas distrai e mantém as coisas como estão.
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