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Rio de Janeiro, 21 de junho de 2026. Não era apenas mais uma bandeira estrangeira hasteada nos arredores da Lagoa Rodrigo de Freitas.
Quando Geolber Garcia Reyes, vice-cônsul da República Dominicana no Rio de Janeiro, atravessou o gramado do Estádio de Remo em direção às arquibancadas do Festival das Águas Dragon Boat Brasil 2026, ele carregava consigo o peso simbólico de uma nova geopolítica cultural que está redesenhando as alianças no Caribe e na América do Sul.
A presença de um diplomata dominicano em um festival chinês, em solo brasileiro, não foi uma coincidência de agenda.
Foi um gesto calculado de soft power — e um reflexo de como a China tem ampliado sua influência na América Latina por meio da cultura, do esporte e da aproximação diplomática com nações caribenhas que, até poucos anos atrás, mantinham relações formais com Taipei.
"Nosso consulado, por meio do nosso cônsul-geral da República Dominicana, senhor Roberto Rubio Cunillera, sempre tentamos participar e apoiar essas iniciativas culturais de países como a China e também outros países", afirmou Garcia Reyes, em entrevista ao Jornal da República.
O mergulho da China no Caribe
A presença de Garcia Reyes no Dragon Boat Brasil não pode ser compreendida sem o contexto das relações sino-dominicanas.
Em maio de 2018, a República Dominicana surpreendeu a comunidade internacional ao romper relações diplomáticas com Taiwan e estabelecer laços oficiais com Pequim.
O anúncio, feito em Pequim pelo chanceler dominicano Miguel Vargas, veio acompanhado de 18 acordos bilaterais e memorandos de entendimento nas áreas de agricultura, infraestrutura, energia e comércio.
Desde então, a China tem investido pesadamente na projeção de sua cultura no país caribenho. O Instituto Confúcio foi instalado em Santo Domingo, e a Rota da Seda chinesa ganhou um ramal no Caribe com a adesão dominicana à Iniciativa do Cinturão e Rota (Belt and Road).
O comércio bilateral entre os dois países saltou de US$ 1,2 bilhão em 2018 para mais de US$ 3 bilhões em 2025, segundo dados do Ministério de Relações Exteriores da República Dominicana.
A presença de Garcia Reyes no Rio de Janeiro, portanto, insere-se em uma estratégia mais ampla de aproximação entre a China e os países da América Central e do Caribe — região que o Conselho de Estado chinês, em junho de 2026, reafirmou como prioritária para ampliação de cooperação.
O esporte como vetor de integração multilateral
O Dragon Boat Brasil 2026, que ocupou o Estádio de Remo da Lagoa durante todo o fim de semana com provas de 200 metros, categorias femininas, masculinas, mistas e as emocionantes Remadoras Rosas, foi mais do que uma competição esportiva.
Foi um palco de integração diplomática que reuniu representantes dos consulados da China, da República Dominicana e de outras nações, além de autoridades do governo do estado do Rio de Janeiro.
Garcia Reyes não escondeu a admiração pela organização. "Está muito ótimo, toda a organização, o evento." Parabéns ao governo do Estado, à prefeitura, à Associação de Kung Fu do Estado e também à federação.
"É um evento que tem todas as condições para dar esse pulinho que a cultura precisa sempre", afirmou.
O elogio à estrutura do evento, que contou com patrocínio da State Grid (uma das maiores empresas de energia do mundo, de capital chinês) e apoio institucional da Confederação Brasileira de Canoagem, reflete um movimento observado por analistas de relações internacionais:
A China tem utilizado cada vez mais eventos culturais e esportivos como plataformas de conexão com países da América Latina, em uma estratégia que o Conselho de Relações Internacionais dos Estados Unidos (CFR) classifica como "diplomacia do dragão" — soft power combinado com investimento em infraestrutura e energia.
De 1911 a 2026: a parceria silenciosa entre Brasil e República Dominicana.
A relação entre Brasil e República Dominicana, estabelecida em 1911, completa 115 anos em 2026 sem o destaque midiático que merece, mas com números que impressionam. Em julho de 2025, os dois países realizaram um encontro bilateral no Itamaraty, que resultou no fortalecimento de acordos de cooperação técnica, defesa e comércio.
O fluxo comercial entre as duas nações cresceu consistentemente na última década, com o Brasil exportando principalmente carnes, açúcar, máquinas e produtos químicos para o país caribenho.
A presença de um representante consular dominicano no Dragon Boat Brasil, portanto, não é apenas um gesto de cortesia à China.
É também uma afirmação de presença no cenário carioca e fluminense — onde a comunidade dominicana, embora menor do que as comunidades haitiana e venezuelana, tem crescido e se organizado.
O Consulado Geral da República Dominicana no Rio de Janeiro, sob a liderança de Roberto Rubio Cunillera, tem se destacado por uma atuação ativa em eventos culturais e consulares. Garcia Reyes, encarregado dos Serviços Consulares, é peça-chave nessa engrenagem.
Em agosto de 2025, representou o consulado em reunião bilateral sobre serviços consulares; em outubro do mesmo ano, realizou gestão consular a distância para cidadãos dominicanos impossibilitados de comparecer presencialmente; e, em dezembro de 2025, fez uma visita de cortesia ao Ministério da Cultura da República Dominicana para fortalecer a cooperação institucional.
O pulinho que a cultura precisa.
A fala de Garcia Reyes sobre o Dragon Boat — "um evento que tem todas as condições para dar esse pulinho que a cultura precisa sempre" — pode parecer despretensiosa, mas carrega um significado mais profundo.
O "pulinho" mencionado pelo vice-cônsul é exatamente o que a diplomacia cultural busca: criar conexões que transcendem os acordos comerciais e atingem o imaginário coletivo.
Dados do Ministério das Relações Exteriores do Brasil indicam que, desde 2009, a China é o principal parceiro comercial do país, com uma corrente de comércio que atingiu US$ 171 bilhões em 2025.
O Brasil mantém consulados-gerais em Xangai, Cantão, Hong Kong e Chengdu, enquanto a China mantém postos no Rio de Janeiro, São Paulo e Recife.
Em 2024, o presidente Xi Jinping visitou o Brasil para a Cúpula do G20 no Rio de Janeiro, ocasião em que foram assinados 37 acordos bilaterais.
A presença de diplomatas de terceiros países — como a República Dominicana — em eventos promovidos pela China no Brasil sinaliza que o soft power chinês não se limita à relação bilateral.
Ele contamina positivamente todo o ecossistema diplomático regional.
O Caribe na Lagoa
O Dragon Boat Brasil 2026 entrou para a história como o primeiro grande festival da modalidade no estado do Rio de Janeiro.
O projeto de lei do deputado Danniel Librelon, que tramita na Alerj, pretende transformar junho no mês oficial do Dragon Boat no calendário fluminense.
Para as próximas edições, a presença de diplomatas estrangeiros tende a se ampliar — e a República Dominicana já garantiu seu lugar na arquibancada.
"Todo o apoio de vocês vale para que aconteçam novos eventos desse tipo aqui", disse Garcia Reyes, em um convite que transcendeu as formalidades diplomáticas e tocou no essencial: quando a cultura se encontra com o esporte, as fronteiras se tornam menos importantes do que os remos.
Ao deixar o Estádio de Remo da Lagoa, sob o sol de inverno carioca, o vice-cônsul dominicano levava consigo a imagem dos barcos-dragão deslizando sobre as águas — a mesma imagem que, do outro lado do mar, também chegará à televisão chinesa, às telas do Caribe e, quem sabe, a uma nova edição do festival no ano que vem.
Geolber Garcia Reyes
Geolber Garcia Reyes é vice-cônsul encarregado dos Serviços Consulares do Consulado Geral da República Dominicana no Rio de Janeiro, Brasil.
Membro da carreira diplomática dominicana, integra o consulado sob a chefia do cônsul-geral Roberto Rubio Cunillera desde antes de 2022, conforme registros da Memória Institucional do consulado para o biênio 2022-2023.
Em suas funções, Garcia Reyes é responsável pela prestação de serviços consulares à comunidade dominicana no Rio de Janeiro e pela representação diplomática do país em eventos culturais, institucionais e bilaterais.
Ao longo de sua atuação no Brasil, participou de reuniões de cooperação consular, gestões a distância para cidadãos dominicanos, visitas institucionais ao Ministério da Cultura da República Dominicana e solenidades diplomáticas.
Em agosto de 2025, representou o consulado em reunião sobre serviços consulares; em outubro do mesmo ano, realizou atendimento consular remoto para cidadão impossibilitado de comparecer presencialmente; e, em dezembro de 2025, visitou o Ministério da Cultura dominicano para fortalecer a cooperação institucional.
Garcia Reyes mantém presença ativa nas redes sociais, onde registra sua atuação diplomática e o trabalho do consulado. O Consulado Geral da República Dominicana no Rio de Janeiro pode ser acompanhado pelo Instagram @consuladordrio.

Por Robson Talber @robsontalber
Repórter Renata Barbosa @beleza.naotemidade
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