Assine nossa newsletter e fique por dentro de tudo que rola na sua região.
No 68º Congresso da Associação Paulista de Municípios, a deputada estadual Carla Morando trouxe à tona duas questões que dividem a agenda pública brasileira com urgência: a proteção das mulheres vítimas de violência doméstica e a ainda insuficiente presença feminina nas estruturas de poder político do país.
A discussão transcendeu o discurso teórico. Morando apresentou um projeto de lei em tramitação que prevê a obrigatoriedade de tornozeleiras eletrônicas em agressores no momento em que é expedida medida protetiva contra mulheres. Não se trata de uma simples monitoração passiva. O sistema funcionaria com alertas em tempo real: se o agressor se aproximar da vítima, o celular dela emite aviso instantâneo e a polícia recebe simultaneamente a localização da tornozeleira.
"Muitas vezes ele não cumpre a medida protetiva e acaba cometendo o feminicídio ou uma nova agressão", explicou a deputada. A lógica é preventiva: enquanto a legislação educativa produz mudanças culturais de longo prazo, a tecnologia oferece proteção imediata.
O paradoxo da independência feminina e a reação violenta
Morando ofereceu uma análise sociológica perturbadora sobre o aumento dos casos de feminicídio mesmo com expansão legislativa. Segundo ela, a maior independência econômica das mulheres contemporâneas – que saem de casa para trabalhar, trazem renda para o núcleo familiar e exercem autonomia nas decisões – provocou um choque geracional com homens que ainda operam sob o modelo patriarcal tradicional.
"O homem ainda não entendeu esse novo momento da mulher e muitas vezes não aceita", afirmou a parlamentar. A mudança estrutural dos papéis de gênero nos últimos trinta anos criou tensão: antes, a mulher permanecia no lar enquanto o homem era provedor; hoje, ela trabalha, estuda, se movimenta socialmente. Esse rearranjo de poder doméstico se traduz, em alguns casos, em explosões de violência.
A deputada enfatizou a necessidade de educação de meninos e homens desde a infância, cultivando cultura de não agressão e compreensão de que homem e mulher "estão ali para somar, não para causar atrito". Mas reconheceu que enquanto essa transformação cultural não se consolida, medidas imediatas como as tornozeleiras eletrônicas são indispensáveis.
Apoio governamental e implementação parcial
O governo estadual já sinalizou apoio concreto. O governador Tarcísio de Freitas comprometeu-se a contratar cinco mil tornozeleiras eletrônicas antes mesmo da aprovação final do projeto de lei. Morando reconheceu que a quantidade ainda é insuficiente diante da magnitude do problema – milhares de mulheres sob risco de agressão a cada mês – mas considerou o passo inicial importante.
A medida representa evolução tecnológica da proteção estatal. Diferentemente de simples ordens de afastamento, a tornozeleira oferece rastreamento em tempo real e acionamento automático de órgãos de segurança. É um compromisso entre a impossibilidade de vigilância humana contínua e a necessidade urgente de proteção.
A sub-representação feminina nas casas legislativas
A segunda pauta do diálogo tocou em estrutura política que persiste como masculina em seus ritmos, protocolos e cultura. Morando apontou que a Assembleia Legislativa de São Paulo conta com apenas 20% de deputadas mulheres – número recorde, mas ainda profundamente desproporcionaldo em relação aos 52% de mulheres eleitoras no Brasil.
Um aspecto raramente mencionado em análises sobre representação política feminina é o calendário institucional. A deputada revelou que sessões extraordinárias começavam após as 19h30, estendendo-se frequentemente até madrugada – duas ou três da manhã. Para mulheres com responsabilidades de cuidado familiar – ainda concentradas principalmente nelas – participar plenamente da legislatura significava abdicar de tempo com filhos, gerenciamento doméstico e repouso.
Morando conquistou mudança importante nos horários de funcionamento da Assembleia, permitindo que mais mulheres consigam "chegar um pouco mais cedo em casa para poder cuidar dos filhos e ter ali a sua vida junto da família". Essa vitória aparentemente administrativa revela como o patrimonialismo institucional se cristaliza em detalhes que parecem neutros, mas que excluem mulheres sistematicamente.
Trajetória de Carla Morando: do cuidado à representação política
A própria trajetória de Morando ilustra essa transição de papéis. Formada em fisioterapia, trabalhou por mais de cinco anos em saúde da mulher, reabilitação pós-cirúrgica de mastectomia e tratamento de câncer de colo de útero. Depois migrou para empresariado e, simultaneamente, para a política institucional.
Na 19ª Legislatura, foi a deputada que mais destinou emendas parlamentares para entidades sociais do Estado de São Paulo. Reeleita com 177.773 votos, tornou-se a mais bem votada da história de São Bernardo do Campo, município onde é casada com o prefeito Orlando Morando. Sua atuação parlamentar não se restringe a temas de gênero: é membro titular de comissões de infraestrutura e atividades econômicas, criou frentes parlamentares sobre desenvolvimento social, econômico e de setores específicos como o supermercadista e automotivo.
Em 2023, relatou a CPI da Enel na Assembleia Legislativa com aprovação unânime. Em 2024, preside a CPI das Empresas de Telecomunicações. Sua agenda legislativa alcança desde Lei de Identificação Prévia de Técnicos de Serviços Públicos – medida antifraude que obriga empresas de água, luz, gás, telefonia e internet a enviarem dados de identificação antes do atendimento domiciliar – até a campanha "Quem Ama Vacina" e regulamentação de terras.
A incompletude da proteção legal
O paradoxo que emerge da fala de Morando é inescapável: apesar de expansão legislativa nos últimos quinze anos – Lei Maria da Penha, Lei do Feminicídio, medidas protetivas, penas mais severas – a violência contra a mulher não diminui. Aumenta. Os números são eloquentes: a quantidade de mulheres mortas por parceiros íntimos mantém escalada preocupante.
A deputada sugere que a lei, sozinha, é ferramenta insuficiente quando enfrenta estruturas culturais enraizadas há séculos. A lei pune, mas a educação transforma. A lei constrange, mas a mudança de mentalidade liberta. Enquanto essa transformação geracional não ocorre, tecnologias de monitoramento e protocolos de resposta rápida são ponte necessária entre o presente violento e o futuro que se deseja construir.
Perspectiva política e os próximos passos
O governador Tarcísio de Freitas já sinalizou além das tornozeleiras: a agenda de Carla Morando parece integrada ao programa estatal de segurança pública. A questão será se, uma vez implementadas essas tornozeleiras, outros elementos da cadeia de proteção funcionarão adequadamente – resposta policial rápida, suporte psicossocial contínuo, alternativas de acolhimento para mulheres que precisem deixar seus lares.
A presença de Morando no 68º Congresso da APM, discutindo simultaneamente segurança pública e representação política feminina, reflete movimento importante: mulheres parlamentares não mais separando suas pautas em compartimentos estanques, mas articulando-as como sistema integrado. Segurança, educação, trabalho, política – tudo conectado pela lente da igualdade de gênero.
A deputada estadual, que abandonou a fisioterapia para entrar na arena política, demonstra que a mudança começa quando mulheres deixam de apenas sofrer as estruturas e passam a reformá-las. As tornozeleiras eletrônicas são importante, mas insuficientes. O verdadeiro avanço será quando não forem mais necessárias.

Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ
Por Robson Talber @robsontalber
Notícias exclusivas e ilimitadas.
O Última Hora Online reforça o compromisso com o jornalismo profissional e de qualidade.
Nossa redação produz diariamente informação responsável e que você pode confia.
Fontes
Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar!