Fernanda Leal apresenta o Instituto Leal e aponta os detalhes que as famílias atípicas cobram das clínicas

Fundadora de organização que já atendeu mais de mil famílias em Campo Grande, ela visitou a nova unidade da Clínica Transformação e elogiou o modelo transversal, das portas de vidro às salas de escuta para os pais

Os jornais Última Hora e Jornal da República estiveram no coquetel de comemoração da nova unidade da Clínica Transformação, na Barra da Tijuca, que reuniu médicos, amigos e colaboradores convidados por Paola Ferreira.

Entre os presentes, a educadora Fernanda Leal, fundadora do Instituto Leal, apresentou o trabalho que desenvolve na zona oeste do Rio e avaliou a estrutura da clínica sob a ótica de quem atende a mesma população há sete anos.

"Eu sou a fundadora do Instituto Leal. O Instituto atua no território da zona oeste raiz, em Campo Grande especificamente, atendendo famílias vulneráveis — crianças, jovens e adolescentes — na promoção ao mercado de trabalho desses jovens com deficiência, auxiliando também as famílias dentro desse atendimento", explicou.

O conceito de inclusão real

O eixo que sustenta o Instituto está no que Fernanda chama de inclusão real, e ele depende de um arranjo específico. "Nosso ambiente é amplo, a gente consegue fazer ali o processo de inclusão, que a gente chama de inclusão real, porque fazemos tudo em paralelo com a própria comunidade.

Tanto pessoas típicas quanto atípicas fazem parte desse projeto junto com a gente, colaborando e somando."

A formulação é relevante porque desmonta um modelo ainda comum no terceiro setor: o de espaços exclusivos para pessoas com deficiência, que protegem, mas isolam.

Ao misturar os públicos no mesmo ambiente, o Instituto treina a convivência na vida como ela é — e não em uma redoma.

Os detalhes que a clínica acertou

Convidada a avaliar a nova unidade, Fernanda começou pelo que costuma ouvir como queixa das famílias. "O local é incrível, espaço amplo.

Percebi que eles se preocuparam com detalhes muito importantes, que a gente vê muitas queixas das famílias atípicas como, por exemplo, segurança."

E listou o que identificou na visita. "As portas têm vidro, para que os pais possam acompanhar o que está acontecendo no processo terapêutico. E há salas de acolhimento para escuta dos pais, independente de terapia."

Os dois pontos são precisos. Além dos vidros — que a clínica descreve como transparência deliberada, com o argumento de que "nada é escondido" —, a existência de um espaço de escuta separado da terapia infantil responde a uma demanda historicamente negligenciada: o cuidado com o cuidador.

Mães e pais de crianças neurodivergentes frequentemente adoecem em silêncio, e a rede de apoio raramente cria estrutura física para atendê-los.

A adolescência como o gargalo do sistema

O terceiro elogio foi o mais técnico. "Uma coisa que achei muito interessante é a questão de eles trabalharem de forma transversal, da infância até a fase adulta.

Geralmente, quando chega naquela fase da adolescência, a gente já começa a encontrar um pouco de dificuldade para encontrar terapias. E aqui eles atendem até a vida adulta."

O diagnóstico de mercado é exato. A rede de atendimento a pessoas com autismo no Brasil é robusta na primeira infância e se estreita justamente quando os desafios aumentam.

Dados do Censo 2022 apontam 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com TEA no país, com prevalência mais alta na faixa de 5 a 9 anos — ou seja, a maior coorte de pacientes está agora entrando na adolescência.

Do outro lado, apenas 7,1% dos adultos autistas concluíram o ensino superior, e cerca de 85% dos adultos com TEA estão fora do mercado de trabalho, conforme audiência pública na Comissão de Direitos Humanos do Senado em abril de 2026.

É precisamente essa lacuna que a cidade ABA da nova unidade tenta preencher, com mais de cinco casas cenográficas para treinar habilidades do cotidiano e da rotina profissional.

"Profissionais muito capacitados"

Fernanda encerrou a avaliação com um balanço. "Como eu falei, foi pensado em tudo: um espaço incrível, muito estruturado, profissionais muito capacitados. Fiquei muito impactada e muito feliz de conhecer o espaço novo."

E acrescentou o que considera o ponto decisivo. "Não tem tanta clínica desse padrão que atende tantas crianças e pensou em todos os detalhes — com terapia, com acompanhamento, com tudo. Isso é muito importante: a gente ter esse centro de desenvolvimento."

Sete anos e mil famílias

O Instituto Leal acumula, segundo sua própria prestação de contas pública, mais de mil famílias atendidas em sete anos de trabalho. A atuação inclui três frentes declaradas: educação inclusiva, com defesa de acesso, permanência e aprendizagem dos estudantes com deficiência e valorização do Atendimento Educacional Especializado; autonomia de jovens e adultos com deficiência, com ampliação de acesso a educação, qualificação profissional, esporte e cultura; e apoio direto às famílias.

A fundadora é educadora, especialista em neurodesenvolvimento e mãe atípica de dois filhos — Gabriel e Íc, origem que declara como o motor de sua militância. Seu lema público resume o método: "Inclusão se faz com participação."

O cruzamento que dá sentido ao encontro

A presença de Fernanda no coquetel não foi apenas protocolar. O Instituto Leal e a Clínica Transformação atuam em pontos complementares da mesma cadeia: um prepara e insere jovens com deficiência no mercado de trabalho em Campo Grande, na zona oeste; a outra treina habilidades laborais em ambiente cenográfico na Barra Olímpica.

O Brasil tem 1,6 milhão de vagas de cota previstas pela Lei 8.213/91 em empresas com 100 ou mais empregados, e ainda assim a taxa de ocupação das pessoas com deficiência é de apenas 28,3%, contra 66,3% da população geral.

O gargalo não está só na lei — está na preparação, no transporte, na escola, na terapia que continua. Enquanto essas duas pontas conversam, a conversa é barata; quando se encontram, produz efeito.

Comparativo de modelos

Aspecto Instituto Leal Clínica Transformação
Natureza Organização social / terceiro setor Clínica privada multidisciplinar
Território Campo Grande (zona oeste) Duque de Caxias e Barra Olímpica
Foco Inclusão produtiva e educacional Desenvolvimento e autonomia clínica
Método Inclusão real — típicos e atípicos juntos Terapia intensiva + cidade ABA
Alcance +1.000 famílias em 7 anos +20 salas, atendimento até a vida adulta
Faixa etária Crianças, jovens, adolescentes e adultos 1 a 14 anos + novo eixo adolescente/adulto

Bio de Fernanda Leal

Fernanda Leal é educadora, especialista em neurodesenvolvimento, mãe atípica de Gabriel e Íc e fundadora do Instituto Leal, organização que atua em Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro, com foco na inclusão de pessoas com deficiência em suas dimensões educacional, social e produtiva.

Sua militância nasce da maternidade: a experiência de criar dois filhos neurodivergentes a levou a estudar o tema em profundidade e a transformar a vivência privada em projeto coletivo.

Em sete anos de trabalho, o Instituto acumula mais de mil famílias atendidas, atuando em três frentes — a defesa da educação inclusiva, com ênfase em acesso, permanência e aprendizagem dos estudantes com deficiência, valorização da formação dos profissionais e do Atendimento Educacional Especializado; a promoção da autonomia de jovens e adultos com deficiência, com ampliação do acesso à qualificação profissional, esporte, cultura e programas de geração de renda; e o suporte direto às famílias em situação de vulnerabilidade social.

Sua proposta metodológica — que ela chama de inclusão real — sustenta que o processo inclusivo só funciona quando acontece em paralelo com a comunidade, reunindo pessoas típicas e atípicas no mesmo ambiente, "colaborando e somando", em vez de isolando o público em espaços exclusivos.

Sua comunicação pública se organiza em torno de uma convicção simples e verificável: "inclusão se faz com participação".

Em outubro de 2026, participou do coquetel de inauguração da nova unidade da Clínica Transformação, na Barra Olímpica, onde avaliou a estrutura clínica sob a ótica de quem atende a mesma população — destacando a transparência das salas, a existência de espaços de escuta para os pais e, sobretudo, o atendimento transversal que chega à adolescência e à vida adulta, fase em que a oferta de terapias costuma murchar. Instagram: @a_fernandaleal e @institutoleal.rj.

Por Robson Talber @robsontalber 

Repórter Renata Barbosa @beleza.naotemidade

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Por Jornal da República em 30/10/2026
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