Arquiteta Alessandra Passos revela os bastidores do projeto que materializou meses de trabalho na nova Clínica Transformação

Responsável pelo projeto arquitetônico das duas unidades, ela conta como o conceito inicial de Caxias se transformou no espaço da Barra da Tijuca colorido, arejado, com luz natural e estímulos planejados

Os jornais Última Hora e Jornal da República estiveram no coquetel de comemoração da nova unidade da Clínica Transformação, na Barra da Tijuca, que reuniu médicos, amigos e colaboradores convidados por Paola Ferreira.

Entre os presentes estava a arquiteta Alessandra Passos, responsável pelo projeto arquitetônico da rede.

"É um prazer estar aqui hoje, depois de ver materializado meses de trabalho desde o conceito inicial, desde a clínica de Caxias. E agora realizando o sonho não só do time da Transformação, mas de tantas famílias, tantas vidas aqui da Barra da Tijuca", afirmou.

O que o olho treinado vê primeiro

Ao descrever o espaço, Alessandra entregou o que orientou cada decisão de projeto. "Projeto colorido, amplo, arejado, com bastante luz natural, muitos estímulos, muito bem montado, aparelhado pelos investidores daqui. Acho que é um grande presente para a sociedade ter a Transformação num espaço desse, adequado, aqui na Barra."

A lista não é decorativa — é técnica. A literatura acadêmica brasileira sobre arquitetura para o TEA converge em diretrizes semelhantes: iluminação natural, entendida como elemento fundamental para humor e redução de ansiedade; cores e texturas como mediadores sensoriais; organização espacial com zoneamento claro; e amplitude, para que comportamentos repetitivos ocorram sem risco de machucado.

Projeto que nasceu em Caxias e amadureceu na Barra

O detalhe mais relevante da fala da arquiteta é a continuidade. O projeto da Barra não foi concebido do zero: é a evolução de um conceito testado na primeira unidade, em Duque de Caxias — aberta em 2015 e que se tornou referência regional.

A sequência importa porque revela método. Uma clínica de desenvolvimento infantil é, na prática, uma usina de dados sensoriais: salas de terapia ocupacional com integração sensorial, consultórios de fonoaudiologia que exigem tratamento acústico, espaços de psicomotricidade com piso adequado, ambientes de espera que não podem ser nem monótonos demais nem estimulantes em excesso.

Somar tudo isso em um único edifício, com mais de 20 salas de atendimento e uma cidade ABA com mais de cinco casas cenográficas, demanda zoneamento rigoroso — o que a literatura chama de "compartimentalização" e "zoneamento sensorial", diretrizes que separam áreas de alto e baixo estímulo.

O cuidado que virou detalhe

A fala de Alessandra encontra eco no que outros convidados destacaram durante a mesma noite. A fundadora do Instituto Leal, Fernanda Leal, observou que as portas têm vidro para que os pais acompanhem o processo terapêutico, e que existem salas de acolhimento para escuta das famílias, independentes da terapia infantil.

São decisões de arquitetura que respondem a demandas concretas de quem vive a maternidade atípica — e que raramente aparecem nos projetos do setor.

Nas diretrizes projetuais publicadas em anais acadêmicos brasileiros, são justamente os itens "espaço de fuga" (para regulação sensorial), "transições" (evitar mudanças bruscas entre ambientes) e "segurança" que definem a qualidade de um centro terapêutico para autismo.

Vale registrar um ponto de contexto normativo: a NBR 9050, norma brasileira de acessibilidade, não abrange recomendações específicas para pessoas com TEA. Isso significa que projetos como o da Transformação vão além da exigência legal — e dependem de iniciativa do contratante.

Um gargalo de mercado pouco discutido

Há um ângulo econômico na fala da arquiteta que merece atenção. "Muito bem montado, aparelhado pelos investidores daqui" — a frase aponta para o custo real de um projeto desse tipo.

Ambientes terapêuticos adequados exigem tratamento acústico, iluminação controlável com dimmers, pisos específicos, mobiliário ergonômico e materiais de baixa emissão.

O resultado é um investimento por metro quadrado significativamente superior ao de uma clínica convencional. Em um país com 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com TEA — 1,2% da população, segundo o Censo 2022 do IBGE e uma oferta de atendimento especializado concentrada em poucos endereços, a arquitetura se torna, ela mesma, uma barreira de acesso.

É exatamente por isso que a ampliação anunciada por Paola Ferreira, de mais cinco clínicas nos próximos anos, tem peso que vai além do comercial: cada unidade nova representa mais espaço construído com esse padrão.

Como contratar um projeto do tipo

Perguntada sobre como interessados podem buscar um trabalho semelhante, Alessandra indicou dois caminhos: o site da Transformação, que acompanha toda a expansão da rede e funciona como vitrine do trabalho da equipe, e a rede social da própria arquiteta, divulgada durante a entrevista.

O modelo de referência tem precedente no mercado de arquitetura. Em 2025, a arquiteta Marcia Urbano apresentou na CASACOR diretrizes de projeto para o TEA baseadas em cinco eixos silêncio, ludicidade, organização, limites espaciais e contato com a natureza, com elementos como a mesa circular, que delimita o ambiente sem restringir o movimento, e espaço livre ao redor do mobiliário.

É a mesma lógica que sustenta a cidade ABA da nova unidade: o ambiente ensina antes de a terapia começar.

Diretrizes projetuais para ambientes com TEA

Diretriz Aplicação prática Por que importa
Luz natural Janelas e aberturas amplas Reduz ansiedade e regula humor
Zoneamento sensorial Separação entre áreas de alto e baixo estímulo Evita sobrecarga sensorial
Acústica Tratamento de paredes e pisos Previne desconforto auditivo
Cores e texturas Paleta suave e materiais táteis Mediação entre estímulo e regulação
Espaço de fuga Ambiente de recolhimento Permite autorregulação em crises
Compartimentalização Ambientes com função definida Reduz ambiguidade e confusão
Segurança Circulação livre sem riscos Viabiliza estereotipias sem lesão
Transparência Portas e janelas internas Envolve a família no processo

Bio de Alessandra Passos

Alessandra Passos é arquiteta e responsável pelo projeto arquitetônico da Clínica Transformação, rede de neurociência infantil que atua no Rio de Janeiro.

Sua trajetória profissional se entrelaça à da própria clínica: foi ela quem desenvolveu o conceito inicial da unidade de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e quem agora assina o projeto da segunda unidade, na Barra da Tijuca — resultado de meses de trabalho que ela descreve como a materialização de um sonho compartilhado entre a equipe clínica e as famílias atendidas.

Seu trabalho se insere no campo da neuroarquitetura e do design sensorialmente sensível, área que estuda como o ambiente construído afeta o comportamento, a regulação emocional e o desenvolvimento cognitivo de pessoas neurodivergentes.

Sua abordagem parte de princípios que a literatura acadêmica brasileira sobre arquitetura e autismo consolida como essenciais: iluminação natural abundante, amplitude e ventilação, paleta cromática com intenção terapêutica, zoneamento sensorial claro e ambientes que permitem autorregulação segura.

Na nova unidade, esse repertório se traduz em mais de 20 salas de atendimento e na cidade ABA — estrutura cenográfica com mais de cinco casas voltada ao treino de habilidades cotidianas e profissionais de adolescentes autistas.

Em entrevista durante o coquetel de inauguração, em outubro de 2026, resumiu o propósito do próprio trabalho com uma frase que dimensiona o alcance do que faz: "É um grande presente para a sociedade ter a Transformação num espaço desse, adequado."

Seu trabalho é acompanhado publicamente pelos canais da clínica, que documentam toda a expansão da rede e servem de referência para outros empreendedores do setor.

Por Robson Talber @robsontalber 

Repórter Renata Barbosa @beleza.naotemidade

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Por Jornal da República em 30/10/2026
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