'IA não substitui, ela complementa': CEO do Maravalley Daniel Barros aponta produtividade como o gargalo real do Brasil

Maravalley chega a 160 empresas e mostra a força do ecossistema carioca

CEO do Maravalley Daniel Barros diz que inteligência artificial é a chance de o país corrigir o desempenho ruim nos rankings de produtividade e vê o Rio com os ativos necessários para receber a indústria de data centers; evento Conecta TMC debateu tecnologia e o amanhã sustentável

O debate sobre inteligência artificial começou pelo lugar-comum — a pergunta sobre se a máquina vai tomar o lugar do humano — e terminou no ponto que realmente importa para a economia brasileira. Ao participar do Conecta TMC, no Rio, o CEO do Maravalley, Daniel Barros, recusou o alarmismo e deslocou a discussão para a produtividade.

"A inteligência artificial não substitui, ela complementa, ela aumenta a produtividade", afirmou. E foi além: "A gente tem um grande problema enquanto país, que é produtividade. A gente fica muito mal nos rankings de produtividade, e mais uma ferramenta, mais uma oportunidade que a gente possa usufruir para melhorar a nossa produtividade enquanto país, enquanto entrega".

O dado que sustenta a afirmação é conhecido e incômodo. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, o Brasil ocupa a 94ª posição entre 184 países no ranking de produtividade do trabalho, com o trabalhador brasileiro produzindo, em média, US$ 21,2 por hora — abaixo de Uruguai (US$ 38), Chile (US$ 34,4) e Argentina (US$ 33,8). É esse retrovisor que a IA precisaria ajudar a corrigir.

O evento e a pergunta que organiza o debate

O Conecta TMC, realizado entre 3 e 4 de novembro no Rio, reuniu autoridades, especialistas e lideranças dos setores público e privado em torno do tema "Tecnologia, IA e o Amanhã Sustentável". O painel do primeiro dia, mediado pelo jornalista Fernando Molica, foi "O Brasil está pronto para a Revolução Artificial?" — e é essa questão que dá sentido à fala de Barros.

A resposta dele é uma reavaliação das prioridades. Em vez de discutir o fim dos empregos, o executivo sugere olhar para as competências que a transformação exige e para a capacidade de o país absorver a tecnologia. "Falamos um pouco de que competências você precisa saber, como se preparar, e se substitui ou não o trabalho do ser humano", resumiu sobre o painel.

Por que o Rio pode receber a indústria de data centers

Questionado se o estado do Rio tem condições de abrigar a infraestrutura que a IA demanda, Barros listou os ativos que, na avaliação dele, colocam a cidade na disputa: energia, conectividade, espaço e água.

"A cidade tem vários elementos para receber essa indústria — seja energia, seja conectividade, seja espaço, água. Tem elementos que nos colocam, ou colocam a cidade, como um potencial receptor dessa indústria", disse.

Os números do setor confirmam que a disputa é real. O Rio se consolidou como a segunda região de data centers do Brasil, atrás apenas de São Paulo, com 76 MW de capacidade instalada, segundo a associação que representa o segmento. O estado trabalha ainda com projetos de grande porte, como o hub na Barra da Tijuca, estruturado para atrair cadeia de IA, nuvem, telecomunicações e cibersegurança, com capacidade inicial de 1,5 GW em energia renovável e potencial de expansão até 3,2 GW.

É uma indústria intensiva em eletricidade — daí a insistência de Barros na energia como ativo. No plano nacional, projetos de data centers já somam 26,3 GW em pedidos de conexão à rede com horizonte até 2038, conforme dados da Empresa de Pesquisa Energética. Para quem observa o setor, a disputa entre estados por esses empreendimentos será decidida menos por marketing e mais por disponibilidade energética e agilidade regulatória.

A Maravalley em números: dois anos e 160 empresas

O executivo aproveitou para apresentar a operação que dirige. Instalado na região portuária da capital e nascido de uma iniciativa da Prefeitura do Rio dentro do projeto Porto Maravilha, o Maravalley está sediado num galpão de 10 mil metros quadrados que une startups, empresas de tecnologia, universidades e investidores.

"Tem dois anos de operação, cerca de 160 empresas com a gente entre startups, empresas de tecnologia, nossos patrocinadores e apoiadores. A gente faz muito evento como esse, muito debate, promove essas conexões, encurta esses encontros", afirmou.

Os resultados acumulados dão substância à fala. Ao encerrar 2025, o hub somava 100 empresas residentes — sendo mais de 100 startups — e as residentes haviam captado R$ 250 milhões em investimentos. No ano anterior, o dado consolidado indicava R$ 154,9 milhões captados por 44 startups.

O alcance do ecossistema ficou mais claro com o Panorama das Startups Cariocas, estudo divulgado em junho de 2026 no Web Summit Rio, em parceria entre Prefeitura, Invest.Rio, Riotur e Maravalley: cerca de 600 startups em operação na cidade, faturamento estimado entre R$ 5,3 bilhões e R$ 5,8 bilhões por ano, 14,4 mil empregos e o equivalente a 1,3% do PIB carioca. O valor equivale ao movimentado pelo carnaval.

As três razões de existir do hub

Barros explicou a lógica de atuação do Maravalley de forma direta. "Basicamente, a gente existe por três grandes razões. Uma é fazer com que as pessoas empreendam mais aqui no Rio de Janeiro, desenvolver o ecossistema de tecnologia e inovação que aqui existe." A segunda é atrair empresas que queiram fazer negócio com a cidade ou com as indústrias vocacionais cariocas. A terceira, ser porta de entrada.

Ele foi honesto sobre a expansão para o interior do estado: "Não está no nosso plano muito recente, mas a gente tem uma ótima relação com várias cidades, tem parcerias e relações com outras iniciativas como essa pelo estado".

É uma fala que revela tanto ambição quanto limite. A concentração no Centro e na região portuária é justificada pelos dados: o Centro é o principal polo de concentração do ecossistema, e a maior parte das startups atua em Tecnologia da Informação e Software. Interiorizar essa dinâmica exige outras condições — capital humano, conectividade, universidades próximas — e é ali que os hubs costumam encontrar seu teto.

O gargalo da produtividade e o papel da IA

A leitura de Barros sobre produtividade encontra respaldo em números recentes. Indicadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas mostram que, no primeiro trimestre de 2026, a produtividade por hora efetivamente trabalhada caiu 0,5%, com crescimento de apenas 0,5% na produtividade por hora habitualmente trabalhada e de 0,4% por população ocupada. Ou seja: o país trabalha, mas produz pouco por hora, e a evolução é próxima do estagnado.

É exatamente aí que ele situa a oportunidade da inteligência artificial. Não no terreno especulativo do desemprego em massa, mas no da eficiência. A tese tem defensores e críticos no debate econômico — especialistas lembram que adoção de tecnologia, isoladamente, não resolve produtividade sem investimento em qualificação, infraestrutura e ambiente de negócios. Ainda assim, o diagnóstico de que o Brasil desperdiça capital humano é ponto de consenso amplo entre economistas.

Quem é Daniel Barros

Daniel Barros é CEO do Maravalley, hub de tecnologia e inovação do Rio de Janeiro, onde lidera a articulação entre startups, empresas, academia e poder público na região portuária da cidade. Engenheiro de produção formado pela UFRJ, com mestrado em Engenharia de Produção pela COPPE/UFRJ e ênfase em gestão da inovação, construiu quase duas décadas de carreira em consultoria, com atuação em transformação organizacional e programas de gestão em grandes empresas. Foi pesquisador na COPPE/UFRJ e professor de pós-graduação na UFRJ, FGV, FEA/USP e UCP, além de ministrar treinamentos executivos pela EloGroup, onde foi sócio-diretor responsável pelo setor de Energia, Petróleo e Gás a partir de 2019. Sua experiência cobre segmentos como energia, petróleo e gás, infraestrutura, mineração, telecom, mídia, educação, financeiro e governo — repertório que sustenta a leitura dele sobre as condições do Rio para receber a indústria de data centers. À frente do Maravalley, consolidou um ecossistema que reúne mais de 150 residentes, acumula captações de R$ 250 milhões em um único ano, realizou mais de 150 eventos em 2025 com cerca de 18 mil participantes e articulou a produção do Panorama das Startups Cariocas, o mais completo levantamento já feito sobre o setor na cidade. É reconhecido no ecossistema pela defesa de que o Rio produz conhecimento em abundância, mas precisa ampliar a capacidade de convertê-lo em propriedade intelectual, produtos, investimentos e empregos.

Conecta TMC é uma realização do Grupo TMC, que reúne TMC Comunicação, TMC Tech e TMC Energia, e teve duas edições consecutivas. A primeira, na noite de terça-feira (3), das 18h30 às 23h, abordou inovação, transição energética, uso responsável da IA e cidades e negócios mais sustentáveis. A segunda, na manhã de quarta-feira (4), das 9h às 12h, reúne lideranças femininas para discutir os impactos da IA no trabalho, na educação e nos negócios.

Por Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Doutor Honoris Causa em Direito e Ciências Políticas, Acadêmico da ABRASCI , Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ

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