Elis Gomes, tricologista e CEO da Cacheadus Beauty, celebra oito lançamentos na maior feira profissional de beleza do Rio e aponta a transição capilar como motor de um mercado de R$ 4 bilhões

'Vendemos todos os nossos estoques': marca 100% dedicada a curvaturas esgota produtos na Professional Fair e leva premiação no Rio

A tricologista, cosmetologista e aromaterapeuta Elis Gomes, CEO da Cacheadus Beauty, foi entrevistada no último dia da Professional Fair RJ 2026, no ExpoRio, na Cidade Nova. A feira, organizada pela Beauty Fair, ocupou o centro de convenções entre 17 e 20 de outubro de 2026, com funcionamento das 11h às 20h.

Ela abriu a conversa com o resultado comercial. "Essa feira, para gente, foi sensacional. Foi a primeira que a gente explodiu: vendemos todos os nossos estoques e a gente está muito feliz."

A premiação da véspera

Antes do balanço, veio o reconhecimento. "A gente ganhou uma premiação ontem, até para valorizar o que a gente faz, nosso trabalho."

A estrutura do negócio foi apresentada em três frentes. "Eu tenho 30 anos nessa área de curvaturas, de cachos. A gente tem a escola, a gente tem o salão de beleza e a marca de cosmético que a gente vem aí explodindo no mercado."

A entrevista é a terceira que ela concedeu ao Jornal da República, o que por si dimensiona a recorrência da marca no circuito de eventos do setor.

Oito lançamentos e a lógica de casa cheia

O volume apresentado na feira foi explicado com um argumento de proximidade. "A gente veio com oito lançamentos para essa feira, porque a gente é do Rio de Janeiro, então é a nossa casa.

E tinha produtos que nossas alunas estavam buscando há muito tempo. A gente se dedicou para trazer tudo que as nossas alunas pediram."

A escolha de escutar a base antes de desenvolver é uma inversão do modelo tradicional de lançamento. Em vez de criar produto e depois buscar mercado, a Cacheadus partiu da demanda já mapeada na escola e no salão — o que reduz risco de encalhe e explica o esgotamento do estoque em quatro dias.

A valorização do cacheado no salão

O entrevistador observou o salão de expositores e notou um padrão. "Passando pela feira, tem muito estande valorizando o cabelo cacheado. Eu consigo encontrar mais produto para cabelo cacheado do que para cabelo liso."

Elis confirmou o dado de percepção e explicou a origem do movimento. "O cabelo cacheado já vinha sendo valorizado, e esse ano mais ainda.

Em 2027, com essa polêmica aí das progressivas, se vão continuar, se não vão, muita gente está fazendo a transição. Então a cacheada hoje tem o seu valor."

A entrevista não citou o nome do órgão regulador, mas o pano de fundo é técnico e documentado.

A Anvisa determina que formaldeído (formol) e glutaraldeído não podem ser usados como alisantes capilares, com uso permitido apenas como conservante em concentrações inferiores a 1%.

O ácido glioxílico, comum em progressivas, não é permitido pela agência e danifica os fios, especialmente com calor — alerta formalizado no Informe de Segurança GGMON nº 03/2025. Procedimentos como escova inteligente, progressiva, BTOX e definitiva não são regulamentados pela Anvisa, que registra apenas os produtos utilizados.

Em fevereiro de 2026, a agência chegou a determinar a apreensão e o recolhimento de cosméticos capilares irregulares, reforçando a fiscalização sobre o segmento.

Regra sanitária Situação
Formol como alisante Proibido
Glutaraldeído como alisante Proibido
Ácido glioxílico Não permitido pela Anvisa
Procedimentos (progressiva, BTOX, definitiva) Não regulamentados pela Anvisa
Produtos Exigem registro sanitário
Salões Devem ter licença da vigilância sanitária local

O estigma que a transição derrubou

A fala mais contundente da entrevista foi sobre trabalho e identidade.

"Antigamente uma cacheada não podia estar num emprego. Hoje elas estão se dedicando, estão se achando mais bonitas. Graças a Deus, a cacheada hoje pode andar como ela quiser. Cada vez mais vai crescer."

A afirmação não é retórica. Durante décadas, o cabelo crespo e cacheado foi tratado como barreira de apresentação pessoal em ambientes corporativos — prática que motivou a criação de leis estaduais e municipais contra a discriminação capilar no Brasil.

O que Elis descreve é a mudança de norma social que sustenta a mudança de mercado: quando o cabelo natural deixa de ser obstáculo profissional, o consumo de produtos específicos deixa de ser gasto opcional.

"A única marca 100% cachos"

O posicionamento comercial da Cacheadus foi definido com precisão. "A marca Cacheadus é a única marca do mercado que é 100% cachos, porque normalmente as marcas têm linha lisa e linha cacheada.

A Cacheadus não: é uma marca que se dedica a entregar só para as curvaturas."

A diferenciação tem consequência mercadológica. Uma marca de linha dupla distribui investimento de pesquisa e desenvolvimento entre duas formulações opostas. Uma marca de linha única concentra tudo em um tipo de fibra capilar — o que, em um mercado competitivo, tende a produzir formulações mais específicas.

E a CEO aplica a própria escolha. "Meu cabelo, por exemplo, é cacheado. Eu estou de trança.

Eu nunca gostei de cabelo liso, nunca gostei. Para mim isso é muito importante, porque agora tem milhões de produtos de cabelo cacheado. A gente só tem que procurar qual é o melhor."

A recomendação que vale para o consumidor

Sobre como escolher, a orientação foi prática. "Você tem que procurar devido à sua estrutura. Mas hoje você vai encontrar uma diversidade. A única coisa que eu indico é buscar produtos naturais."

A ressalva técnica é relevante. Cabelo cacheado e crespo tem estrutura de fibra com curvatura que dificulta a distribuição do sebo natural da raiz até as pontas — o que torna a hidratação o eixo central do cuidado.

Produtos com ativos vegetais, como os que a marca utiliza (cupuaçu, quiabo, murumuru, mandacaru, óleo de pequi e colágeno), atuam nessa reposição.

Os números que sustentam o discurso

O esgotamento de estoque na feira não é acidente isolado: o segmento de curvaturas é o que mais cresce dentro do mercado capilar brasileiro.

Segundo levantamento da Safic-Alcan, o mercado de produtos para cabelos cacheados e crespos ultrapassou R$ 4 bilhões em vendas anuais no varejo brasileiro em 2024, com crescimento médio acima de 11% ao ano nos últimos cinco anos.

A média do haircare geral no país fica entre 4% e 6% — ou seja, o segmento especializado cresce quase o dobro.

Indicador Dado
Mercado de curvaturas (2024) mais de R$ 4 bilhões
Crescimento anual (5 anos) acima de 11%
Mercado capilar total (2025) R$ 35,3 bilhões (+9%)
Brasileiras com cabelo 2B a 4C mais de 45%
Projeção de crescimento (2026–2028) 8% a 10% ao ano
Buscas por "cabelos cacheados" alta de 232% em um ano
Posição do Brasil no mercado global maior mercado especializado do mundo

O dado demográfico explica a liderança. Mais de 45% da população brasileira tem cabelo classificado entre os tipos 2B e 4C na escala André Walker — do ondulado ao crespo. Outros levantamentos, como o do Instituto Beleza Natural em parceria com a Universidade de Brasília, apontam que quase 70% da população tem cabelos crespos e cacheados.

Em valor absoluto, o mercado capilar brasileiro somou R$ 35,3 bilhões em 2025, alta de 9%, mantendo o país como terceiro maior consumidor mundial da categoria, atrás de Estados Unidos e China. Produtos capilares respondem por cerca de 30% das exportações do setor.

Onde encontrar

Os canais informados foram o Instagram e o site da marca Cacheadus Cosméticos, onde é possível solicitar contato com o comercial para distribuição, revenda para salões, cursos ou atendimento no salão próprio.

Bio de Elis Gomes

Elis Gomes é tricologista, cosmetologista, aromaterapeuta e CEO da Cacheadus Beauty, marca carioca sediada em Madureira que reúne três operações integradas: salão de beleza, escola de formação profissional e indústria de cosméticos.

São 30 anos dedicados ao universo das curvaturas — tempo que lhe permitiu construir um repertório técnico que hoje sustenta as três frentes. No salão, a Cacheadus oferece tratamentos personalizados, soltura de cachos, cortes específicos para curvatura, coloração e protocolos de fortalecimento.

Na escola, Elis atua como educadora em saúde capilar, tricologia e cosmetologia, ministrando imersões, palestras como "Além da Curvatura" — e workshops voltados a profissionais do setor.

Na indústria, desenvolve linhas capilares focadas em hidronutrição e definição de cachos, com ativos como cupuaçu, quiabo, murumuru, colágeno, mandacaru e óleo de pequi.

Seu posicionamento é deliberadamente especializado: a Cacheadus é a única marca do mercado brasileiro declaradamente 100% voltada a cachos, sem linha lisa — escolha que concentra pesquisa e formulação em um único tipo de fibra capilar.

Em outubro de 2026, na Professional Fair RJ, no ExpoRio, apresentou oito lançamentos em uma única edição e esgotou todo o estoque da marca em quatro dias, além de receber premiação no evento.

Sua leitura de mercado se apoia em um dado verificável: o segmento de curvaturas movimenta mais de R$ 4 bilhões por ano no Brasil e cresce acima de 11% ao ano, quase o dobro do haircare geral — impulsionado por uma população em que mais de 45% das mulheres tem cabelo entre ondulado e crespo, e por um movimento social que ela resume com precisão: "Antigamente uma cacheada não podia estar num emprego. Hoje elas estão se achando mais bonitas."

Por Robson Talber @robsontalber 

Repórter Renata Barbosa @beleza.naotemidade

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Por Jornal da República em 04/11/2026
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