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Deputado estadual reeleito pelo Rio, policial civil e presidente da Comissão de Segurança Pública da Alerj afirma que o país "não aguenta mais quatro anos" de governo petista e aposta na vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno deste domingo
A Praça do Ó, na Barra da Tijuca, Zona Sudoeste do Rio de Janeiro, recebeu na tarde deste sábado (24) o último ato de campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL) antes do segundo turno da eleição presidencial, marcado para este domingo (25). A concentração foi marcada para as 14h e, segundo a descrição da imprensa, reuniu apoiadores que lotaram a praça e ocuparam as pistas da orla ao longo da praia. O evento também serviu à Confraria Amigos da Barra da Tijuca e contou com a presença do deputado estadual reeleito Márcio Gualberto, que acompanhou a caminhada e concedeu entrevista ao Jornal da República Online.
Gualberto abriu a entrevista tratando a mobilização como demonstração de força do campo conservador no estado. Segundo o parlamentar, o ato reuniu "homens e mulheres de direita, pessoas de bem" em torno da candidatura do senador, e a leitura dele é de que o comparecimento expressa um anseio de mudança que atravessa o eleitorado fluminense e se projeta para o restante do país na votação de domingo.
O deputado e a leitura sobre o "Brasil que não aguenta mais"
Na avaliação do deputado, o cenário econômico e a imagem externa do Brasil estão no centro da insatisfação popular. Ele afirmou que o país "não aguenta mais quatro anos de Lula" e sustentou que a gestão petista teria comprometido a economia, desgastado a reputação internacional do país e produzido retrocessos sociais. Para Gualberto, Flávio Bolsonaro reúne as "condições e qualificações" necessárias para reverter esse quadro.
O deputado também afirmou que a eleição de domingo representa a chance de "aposentar o Lula em definitivo", numa referência à disputa de segundo turno entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). O discurso foi dirigido a uma plateia que, segundo a cobertura da imprensa, levou bandeiras de Israel, máscaras do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e caixões de papelão com adesivos do PT — elementos que se tornaram marca visual dos atos do campo bolsonarista.
Vale registrar o contexto das pesquisas divulgadas na véspera do pleito. Os levantamentos de 21 a 23 de outubro mostraram cenário de empate técnico ou vantagem numérica dentro da margem de erro, a depender do instituto e do critério de apuração. O Datafolha de 22 de outubro apontou 50% a 50% nos votos válidos. A Quaest de 21 de outubro registrou 45% para Flávio e 44% para Lula, diferença dentro da margem de erro de dois pontos. O PoderData de 22 de outubro indicou 51% a 49% nos votos válidos em favor do senador, e o RealTime Big Data de 23 de outubro apontou 52% a 48% também nos válidos. A leitura conjunta é de equilíbrio, e não de favoritismo consolidado.
A fala de Lula no debate da Globo e a reação do campo bolsonarista
O ponto mais duro da entrevista foi a declaração do presidente Lula durante o debate da TV Globo na noite de sexta-feira (23). Na discussão sobre segurança pública, ao defender a criação de um Ministério da Segurança e a aprovação da PEC da Segurança, Lula se atrapalhou e disse: "Vou criar o ministério, e aí você vai ver o governo acabar com a polícia e deixar o território livre". A campanha do presidente classificou a frase como erro de concordância — a intenção seria dizer que o governo vai "acabar com a bandidagem" e não deixar o território livre.
Gualberto rejeita essa explicação. Para ele, não se tratou de gafe nem de deslize isolado, mas do transbordamento de um debate que, segundo afirma, já circula com seriedade entre militantes de esquerda há anos: a proposta de extinguir a Polícia Militar. "Sou policial civil há 23 anos", disse o deputado, que também preside a Comissão de Segurança Pública da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e já ocupou a vice-presidência da Comissão de Direitos Humanos.
A crítica do parlamentar se ancora em um argumento concreto: o domínio territorial de facções criminosas em partes do Brasil e, de modo específico, no Rio de Janeiro. Ele chamou a fala de "extremamente afrontosa à sociedade brasileira", considerando que o Estado não consegue garantir presença em áreas controladas pelo crime organizado.
Segurança pública: das milícias ao "narcoterrorismo"
Na entrevista, Gualberto contrapôs a declaração do presidente à proposta anunciada por Flávio Bolsonaro no debate: classificar milícias, Comando Vermelho e PCC como organizações narcoterroristas já no primeiro dia de eventual governo. O senador também prometeu endurecer penas, com condenações que, segundo ele, podem chegar a 80 anos de prisão para chefes dessas organizações.
O deputado sustentou que a mensagem atual do governo federal seria a de que "vale a pena cometer crimes", e que isso mudaria com a troca de comando do Executivo. "Criminosos de alta periculosidade ficarão para sempre na cadeia, porque é isso que o povo brasileiro espera", afirmou, arrancando reação da plateia.
É preciso contextualizar esse eixo do discurso. Flávio Bolsonaro foi cobrado no próprio debate sobre sua relação histórica com milicianos — em 2005, quando era deputado estadual, concedeu a Medalha Tiradentes a Adriano da Nóbrega, ex-capitão da PM apontado pelo Ministério Público como integrante de milícia. O senador negou envolvimento e disse que vai "combater as milícias". A tensão entre a promessa de rigor e esse histórico foi um dos pontos de maior atrito do confronto de sexta-feira, ao lado do caso da menina Ana Clara, de 5 anos, morta por disparo de fuzil, tema que concentrou a maior repercussão nas redes sociais durante o debate.
O peso das redes sociais na reta final
O levantamento sobre a repercussão digital do debate ajuda a entender o ambiente em que o ato deste sábado ocorreu. Segundo a consultoria Ágora Comunicação e Public Affairs, foram cerca de 4 milhões de menções e 63,5 milhões de interações entre o início do debate, às 21h20 de sexta, e o dia seguinte. Os apoiadores do presidente concentraram esforços no caso Ana Clara e em checagens de fatos; os do senador exploraram justamente a declaração de Lula sobre a polícia. Um levantamento distinto, da Ativaweb DataLab, registrou 33,7 milhões de menções nas principais plataformas até as 10h de sábado, com 56,4% favoráveis a Lula e 43,6% a Flávio Bolsonaro.
É nesse terreno que o deputado Márcio Gualberto situa a "repercussão" que mencionou na entrevista. A segurança pública, aliás, foi o tema mais explorado pelo campo do senador nas redes após o debate — o que explica a insistência do parlamentar fluminense no assunto, área em que construiu sua trajetória política e profissional.
Quem é Márcio Gualberto
Eleito deputado estadual em 2018 com 23.169 votos, após realizar a campanha mais barata do Rio de Janeiro, com gastos declarados de cerca de R$ 3,5 mil, Márcio Gualberto iniciou o mandato em 2019 e foi reeleito em 2022 com 51.856 votos. Atualmente no segundo mandato, preside a Comissão de Segurança Pública e ocupa a vice-presidência da Comissão de Direitos Humanos da Alerj.
Policial civil de carreira, católico, casado, morador de Padre Miguel, na Zona Oeste do Rio, há cerca de 35 anos, ele construiu a identidade pública em torno do conservadorismo e dos valores cristãos. Negro, nordestino e de origem pobre, costuma afirmar que sua eleição integra um projeto de renovação da política fluminense e defende a liberdade religiosa como fundamento da convivência social.
No campo das pautas, posiciona-se contra o aborto, a ideologia de gênero e o que chama de doutrinação em escolas e universidades; é contrário à descriminalização das drogas e ao desencarceramento de presos, e defende o homeschooling como alternativa educacional. Na economia e nos costumes, alinha-se ao campo liberal-conservador do bolsonarismo e vota com a bancada evangélica e católica conservadora da Assembleia.
A trajetória dele ajuda a explicar o tom da entrevista: um parlamentar de base policial, que transformou a segurança pública em bandeira central e que, na véspera da votação, escolheu o palco da orla da Barra para defender a candidatura do senador e atacar o adversário. A eleição deste domingo encerra o ciclo e, qualquer que seja o resultado, recoloca o debate sobre segurança no centro da agenda política do Rio e do país — tema em que o deputado tem interesse direto e mandato consolidado.

Por Ralph Lichotti e Robson Talber @robsontalber
Repórter Antonio Lemos, @djportugues
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